Eram quase vinte horas, quando estacamos à frente de sóbrio edifício, ladeado por vários veículos. Muita gente ia e vinha. Desencarnados, em grande cópia, congregavam-se no recinto e fora dele. Vigilantes de nosso Plano estendiam-se, atenciosos, impedindo o acesso de Espíritos impenitentes ou escarnecedores. Variados grupos de pessoas ganhavam ingresso à intimidade da casa, mas no pórtico experimentavam a separação de certos Espíritos que as seguiam, Espíritos que não eram simples curiosos ou sofredores, mas blasfemadores e renitentes no mal. Esses casos, porém, constituíam exceção, porque em maioria o séquito de irmãos desencarnados formava-se de gente agoniada e enferma, tão necessitada de socorro fraterno como os doentes e aflitos que passavam a acompanhar. Entramos. Grande mesa, ao centro de vasta sala, encontrava-se rodeada de largo cordão luminoso, de isolamento. Em derredor, reservava-se ampla área, onde se acomodavam quantos careciam de assistência, encarnados ou não, área essa que se mostrava igualmente protegida por faixas de defesa magnética, sob o cuidado cauteloso de guardas pertencentes à nossa Esfera de ação. À frente, na parte oposta à entrada, vários benfeitores espirituais conferenciavam entre si e, junto deles, respeitável senhora ouvia, prestimosa, diversos pacientes. Apresentava-se a matrona revestida por extenso halo de irradiações opalinas, e, por mais que projeções de substância sombria a buscassem, através das requisições dos sofredores que a ela se dirigiam, conservava a própria aura sempre lúcida, sem que as emissões de fluidos enfermiços lhe pudessem atingir o campo de forças. Designando-a com a destra, o Assistente informou:
— É a nossa irmã Ambrosina, que, há mais de vinte anos sucessivos, procura oferecer à mediunidade cristã o que possui de melhor na existência. Por amor ao ideal que nos orienta, renunciou às mais singelas alegrias do mundo, inclusive o conforto mais amplo do santuário doméstico, de vez que atravessou a mocidade trabalhando, sem a consolação do casamento. Ambrosina trazia o semblante quebrantado e rugoso, refletindo, contudo, a paz que lhe vibrava no ser. Na cabeça, dentre os cabelos grisalhos, salientava-se pequeno funil de luz, à maneira de delicado adorno. Intrigados, consultamos a experiência de nosso orientador e o esclarecimento não se fez esperar:
— É um aparelho magnético ultra-sensível com que a médium vive em constante contato com o responsável pela obra espiritual que por ela se realiza. Pelo tempo de atividade na Causa do Bem e pelos sacrifícios a que se consagrou, Ambrosina recebeu do Plano Superior um mandato de serviço mediúnico, merecendo, por isso, a responsabilidade de mais íntima associação com o instrutor que lhe preside às tarefas. Havendo crescido em influência, viu-se assoberbada por solicitações de múltiplos matizes. Inspirando fé e esperança a quantos se lhe aproximam do sacerdócio de fraternidade e compreensão, é, naturalmente, assediada pelos mais desconcertantes apelos.
— Vive então flagelada por petitórios e súplicas? — Indagou Hilário, inevitavelmente curioso.
— Até certo ponto sim, porque simboliza uma ponte entre dois mundos, entretanto, com a paciência evangélica, sabe ajudar aos outros para que os outros se ajudem, porquanto não lhe seria possível conseguir a solução para todos os problemas que se lhe apresentam. Abeiramo-nos da médium respeitável e modesta e vimo-la pensativa, não obstante o vozerio abafado, em torno. Não longe, o pensamento conjugado de duas pessoas exteriorizava cenas lamentáveis de um crime em que se haviam embrenhado. E, percebendo-as, Dona Ambrosina refletia, falando sem palavras, em frases audíveis tão somente em nosso meio:
— “Amados amigos espirituais, que fazer? Identifico nossos irmãos delinquentes e reconheço-lhes os compromissos… Um homem foi eliminado… Vejo-lhe a agonia retratada na lembrança dos responsáveis… Que estarão buscando aqui nossos infortunados companheiros, foragidos da justiça terrestre?” Reparávamos que a médium temia perder a harmonia vibratória que lhe era peculiar. Não desejava absorver-se em qualquer preocupação acerca dos visitantes mencionados. Foi então que um dos mentores presentes se aproximou e tranquilizou-a:
— Ambrosina, não receie. Acalme-se. É preciso que a aflição não nos perturbe. Acostume-se a ver nossos irmãos infelizes na condição de criaturas dignas de piedade. Lembre-se de que nos achamos aqui para auxiliar, e o remédio não foi criado para os sãos. Compadeça-se, sustentando o próprio equilíbrio! Somos devedores de amor e respeito uns para com os outros e, quanto mais desventurados, de tanto mais auxílio necessitamos. É indispensável receber nossos irmãos comprometidos com o mal, como enfermos que nos reclamam carinho. A médium aquietou-se. Passou a conversar naturalmente com os frequentadores da casa. Aqui, alguém desejava socorro para o coração atormentado ou pedia cooperação em benefício de parentes menos felizes. Ali, suplicava-se concurso fraterno para doentes em desespero; mais além, surgiam requisições de trabalho assistencial. Dona Ambrosina consolava e prometia. Quando Gabriel, o orientador, chegasse, o assunto lhe seria exposto. Decerto, traria a colaboração necessária. Não decorreram muitos minutos e Gabriel, o mais categorizado mentor da casa, deu entrada no recinto, acompanhado por grande séquito de amigos. Acomodaram-se em palestra afetiva à frente da mesa. Aí reunidas, as entidades de vida mental mais nobre estabeleciam naturalmente larga faixa de luz inacessível às sombras que senhoreavam a maioria dos encarnados e desencarnados da grande reunião. Gabriel e os assessores abraçaram-nos generosos. Dir-se-ia partilhávamos brilhante festividade, tão vivo se mostrava o júbilo dos instrutores e funcionários espirituais da instituição. O trato com doentes e sofredores dos dois Planos não lhes roubava a esperança, a paz, o otimismo… Compareciam ali, com o abnegado e culto orientador, a quem Áulus não regateava os seus testemunhos de veneração, médicos e professores, enfermeiros e auxiliares desencarnados, prontos para servir na lavoura do bem. Irradiavam tanta beleza e alegria, que Hilário, tão deslumbrado quanto eu, retornou às perguntas que lhe caracterizavam o temperamento juvenil. Aqueles amigos, considerando as mensagens de luz e simpatia que projetavam de si mesmos, seriam altos embaixadores da Divina Providência? Desfrutavam, acaso, o convívio dos santos? Viveriam em comunhão pessoal com o Cristo? Teriam alcançado a condição de seres impecáveis? O Assistente sorriu bem-humorado, e esclareceu:
— Nada disso. Com todo o apreço que lhes devemos, é preciso considerar que são vanguardeiros do progresso, sem serem infalíveis. São grandes almas em abençoado processo de sublimação, credoras de nossa reverência pelo grau de elevação que já conquistaram, contudo, são Espíritos ainda ligados à Humanidade terrena e em cujo seio se corporificarão, de novo, no futuro, através do instituto universal da reencarnação, para o desempenho de preciosas tarefas.
— No entanto, à frente da assembleia de criaturas torturadas que observamos, são eles luminares isentos de errar?
— Não, — acentuou Áulus, compreensivo.
— Não podemos exigir deles qualidades que somente transparecem dos Espíritos que já atingiram a sublimação absoluta. São altos expoentes de fraternidade e conhecimento superior, porém, guardam ainda consigo probabilidades naturais de desacerto. Primam pela boa vontade, pela cultura e pelo próprio sacrifício no auxílio incessante aos companheiros reencarnados, mas podem ser vítimas de equívocos, que se apressam, contudo, a corrigir, sem a vaidade que, em muitas circunstâncias, prejudica os doutos da Terra. Aqui temos, por exemplo, variados médicos sem o envoltório da experiência física. Apesar de excelentes profissionais, devotados e beneméritos na missão que esposaram, não seria, contudo, admissível fossem promovidos, de um instante para outro, da ciência fragmentária do mundo à sabedoria integral. Com a imersão nas realidades da morte, adquirem novas visões da vida, alargam-se-lhes os horizontes da observação. Compreendem que algo sabem, mas esse algo é muito pouco daquilo que lhes compete saber. Entregam-se, desse modo, a preciosas cruzadas de serviço e, dentro delas, ajudam e aprendem. Trabalhadores de outros círculos da experiência humana encontram-se no mesmo regime. Auxiliam e são auxiliados. Não poderia ser de outro modo. Sabemos que o milagre não existe como derrogação de leis da Natureza. Somos irmãos uns dos outros, evolvendo juntos, em processo de interdependência, no qual se destaca o esforço individual. Nessa altura do esclarecimento que registávamos, felizes, Dona Ambrosina sentara-se ao lado do diretor da sessão, um homem de cabelos grisalhos e fisionomia simpática que havia organizado a mesa orientadora dos trabalhos com catorze pessoas, em que transpareciam a simplicidade e a fé. Enquanto Gabriel se postava ao lado da médium, aplicando-lhe passes de longo circuito, como a prepará-la com segurança para as atividades da noite, o condutor da reunião pronunciou sentida prece. Em seguida, foi lido um texto edificante de livro doutrinário, acompanhado por breve anotação evangélica, em cuja escolha preponderou a influência de Gabriel sobre o orientador da casa. Da leitura global distinguia-se a paciência por tema vivo.