Capítulo 8
No Universo, onde tudo são trevas e silêncio, só ele vela e sofre sobre este planeta, porque talvez somente ele, entre seus irmãos inferiores, medita e pensa. Apenas agora começa a compreender a verdade de tudo que tinha acreditado, de tudo o que amou, o nada da beleza, a impostura da bondade, a ironia de toda a essência humana. Após ter ingenuamente adorado os que julgava seus deuses e seus heróis, quando não tem mais fé nem esperança, ei-lo sentindo que a própria Natureza lhe falta, pois, como tudo o mais, ela não passava de uma aparência e de um engano.” Também uma escritora materialista, poetisa de grande talento, a Sra. Ackermann, não hesitou em usar da seguinte linguagem: “Não direi à Humanidade: Progride! Dir-lhe-ei: Morre! porque nenhum progresso jamais te arrancará às misérias da condição terrestre.” Tais idéias não são compartilhadas somente por alguns escritores. Graças a uma literatura que desonra o belo nome de Naturalismo, por meio de romances, de folhetins sem-número, essas mesmas noções penetram até aos mais obscuros ambientes. Vista essa opinião de que o nada é preferível à vida, pode alguém se admirar de que o homem se desgoste da existência e do trabalho? Poderá recusar-se a compreender por que o desânimo e a desmoralização se infiltram pouco a pouco nos ânimos? Não, não é com tais doutrinas que se inspirará aos povos a grandeza da alma, a firmeza nos maus dias, a coragem na adversidade! Uma sociedade sem esperança, sem fé no futuro, é como um homem perdido no deserto, como uma folha seca que vagueia à feição dos ventos. É bom combater a ignorância e a superstição, mas cumpre substituí-las por crenças racionais. Para seguirmos na vida com passo firme, para nos preservarmos dos desfalecimentos e das quedas, é preciso uma convicção robusta, uma fé que nos eleve acima do mundo material: é necessário ver-se o alvo e para ele nos encaminharmos. A mais segura arma no combate terrestre é uma consciência reta e esclarecida. Mas, se nos domina a idéia do nada, se acreditamos que a vida não tem seqüência e que tudo termina com a morte, então, para sermos lógicos, cumpre sobrepor, a qualquer outro sentimento, o cuidado da existência material, o interesse pessoal. Que nos importa um futuro que não devemos conhecer? A que título falar-nos-ão de progresso, de reformas, de sacrifícios? Se há para nós somente uma existência efêmera, nada mais nos resta fazer do que aproveitar a hora atual, gozar-lhe as alegrias e abandonar-lhe os sofrimentos e os deveres! Tais são os raciocínios em que forçosamente terminam as teorias materialistas, raciocínios que ouvimos formular e vemos aplicar todos os dias em nosso círculo. Que desordens não serão de esperar como conseqüência dessas doutrinas, no meio de uma civilização rica e já muito desenvolvida no sentido do luxo e dos gozos? Entretanto, nem todo o ideal está morto. A alma humana tem, ainda, algumas vezes, o sentimento de sua miséria, da insuficiência da existência presente e da necessidade da sobrevivência. No pensamento do povo uma espécie de intuição subsiste. Iludido durante séculos, o povo tornou-se incrédulo a todos os dogmas, mas não é céptico. Vaga e confusamente, crê, aspira à Justiça. E esse culto da saudade, essas manifestações comoventes do 2 de novembro, que impelem as multidões para junto dos túmulos dos mortos, denotam também um instinto confuso da imortalidade. Não, o povo não é ateu, pois crê na Justiça imanente, como crê na Liberdade, porque a Justiça e a Liberdade existem pelas leis eternas e divinas. Esse sentimento, o maior, o mais belo que se pode achar no fundo da alma, esse sentimento salvar-nos-á! Para isto, basta fazer compreender a todos que esta noção de Justiça, gravada em nós, é a lei do Universo, que rege todos os seres e todos os mundos, e que, por ela, o Bem deve finalmente triunfar sobre o Mal, e a Vida sair da Morte. Ao mesmo tempo em que aspira à Justiça, busca o ente humano vê-la realizada. Procura-a no terreno político como no terreno econômico, no princípio de autoridade. O poder popular começou a estender sobre o mundo uma vasta rede de associações operárias, um agrupamento socialista que abraça todas as nações, e, sob um só estandarte, faz ouvir por toda parte os mesmos apelos, as mesmas reivindicações. Há aí, ninguém se engane, ao mesmo tempo em que um espetáculo cheio de ensinamentos para o pensador, uma obra repleta de conseqüências para o futuro. Inspirada pelas teorias materialistas e atéias, ela se tornaria um instrumento de destruição, porque sua ação resolver-se-ia em tempestades violentas, em resoluções dolorosas. Contida nos limites da prudência e da moderação, ela muito pode para a felicidade humana. Que um raio de luz desça a esclarecer essas multidões em trabalho; que um ideal elevado venha reanimar essas massas ávidas de progresso, e, graças a tal benefício, veremos todas as antigas pátrias, todas as velhas formas sociais se dissolverem e se fundirem em um mundo novo, baseado no direito de todos, na solidariedade e na justiça. A hora presente é de crise e de renovação. O mundo está em fermentação, a corrupção se acresce, a noite estende-se, o perigo é grande, mas, por detrás da sombra, vemos a luz, por detrás do perigo, a salvação. Uma sociedade não pode perecer. Se traz em si elementos de decomposição, também possui germes de transformação e de ressurgimento. A decomposição anuncia a morte, mas também precede o renascimento. Pode ser o prelúdio duma outra vida. De onde virão a luz, a salvação, o reerguimento? Da Igreja, não; porque ela é impotente para regenerar o Espírito humano. Da Ciência também não, pois esta não se preocupa com os caracteres nem com as consciências, mas tão-só com o que fere os sentidos; e tudo o que faz grandes os corações, fortes as sociedades, a dedicação, a virtude, a paixão do bem, não podem apreciar-se pelos sentidos. Para levantar o nível moral, para deter a dupla corrente da superstição e do cepticismo, que arrastam igualmente à esterilidade, é preciso uma nova concepção do mundo e da vida que, apoiando-se no estudo da Natureza e da consciência, na observação dos fatos, nos princípios da razão, fixe o alvo da existência e regule a nossa marcha para adiante. O que é preciso é um ensino do qual se deduza um incentivo de aperfeiçoamento, uma sanção moral e uma certeza para o futuro. Ora, essa concepção e esse ensino existem já e vulgarizam-se todos os dias. Por entre as disputas e as divagações das escolas, uma voz fez-se ouvir: a voz solene dos mortos. Ergueram-se, do outro lado do túmulo, mais vivos do que nunca, e, perante suas instruções, descerrou-se o véu que nos ocultava a vida futura. O ensino que nos dão vem reconciliar todos os sistemas inimigos, fazendo brotar uma chama nova dos escombros, das cinzas do passado. Na filosofia dos Espíritos encontramos a doutrina oculta que abrange todas as idades. Ela faz reviver esta doutrina debaixo das maiores e das mais puras formas. Reúne os destroços esparsos, cimenta-os com uma forte argamassa para reconstituir um monumento grandioso, capaz de abrigar todos os povos, todas as civilizações. Para assegurar a sua duração, assenta-o sobre a rocha da experiência direta do fato, que se renova sem cessar. E, graças a ela, eis que se desenrola aos olhos de todos, na espiral infinita dos tempos, o drama imenso da vida imortal, com as existências inumeráveis e os progressos incessantes que reserva a cada um de nós na escala colossal dos mundos. Tal doutrina poderá transformar povos e sociedades, levando claridades a toda parte onde for noite, fazendo fundir ao seu calor o gelo e o egoísmo que houver nas almas, revelando a todos os homens as leis sublimes que os unem nos laços de uma estreita, de uma eterna solidariedade. Estabelecerá conciliação com a paz e a harmonia. Por ela aprenderemos a agir com um mesmo espírito e um mesmo coração. E a Humanidade, consciente de sua força, caminhará com passo mais firme para os seus magnificentes destinos. É esse ensino que exporemos, em seus princípios essenciais, na segunda parte desta obra, depois do que indicaremos as provas experimentais, os fatos de observação sobre os quais eles repousam.
TAG Valor
Título A Crise Moral
Parte Primeira
Título da Parte Crenças e Negações