Nem sempre é materialista. A escala cromática aqui é ampla e variada.
Encontramo-los de todos os feitios, variedades e tendências. Há os descrentes, indiferentes, materialistas, espiritualistas, religiosos ou não. Foram escritores, sacerdotes, artistas, poetas, médicos, advogados, nobres, ricos, pobres. Quase sempre se deixaram dominar por invencível vaidade, fracassando na provação da inteligência.
No binômio cérebro/coração, no qual o homem deve buscar equilíbrio, deixaram disparar na frente um dos componentes, em sacrifício do outro. Brilhantes, demoram-se na doce e venenosa contemplação narcisista da própria inteligência, fascinados pelos seus mecanismos, sua engenhosidade e os belos pensamentos que produzem. Julgam-se geniais — e muitas vezes o são mesmo. São bons argumentadores e, quando movidos para objetivos bem definidos, tornam-se verdadeiramente difíceis de serem despertados, pois se acham solidamente convencidos do poder e da força das suas próprias fantasias, suas doutrinas, seus sofismas e suas auto-justificações. Vemo- los, às vezes, na condição de ex-sacerdotes também, como exímios criadores de tais sofismas.
Estudaram profundamente os Evangelhos e a teologia ortodoxa. Leram os seus filósofos, escreveram tratados, pregaram sermões belíssimos, do ponto de vista literário, e tanto consolidaram suas construções, que acabaram acreditando nelas. São estes que constituem o diálogo mais difícil para o doutrinador. Não se exaltam, nem dão murros. Parecem, mesmo, suaves e tranquilos. Têm respostas prontas e engenhosas para tudo, fazem perguntas bem formuladas, procurando confundir, para desarvorar o interlocutor.
Ao cabo de algum tempo de observação atenta, descobrimos que o intelectualismo é como qualquer outra forma de fuga; é também um esconderijo, para o Espírito que reluta em enfrentar uma realidade dolorosa. Se conseguirmos restabelecer o vínculo, que sempre deverá existir, entre cabeça e coração, estaremos a caminho de ajudá-lo. Narrarei um caso prático, para ilustrar o que desejo dizer com isso.
O companheiro apresentou-se irônico, aparentemente muito seguro de si. É culto, inteligente, bom sofista, versado em filosofia, em teologia e até mesmo nos textos evangélicos, que cita com a maior facilidade e propriedade. Conversamos longamente, e ele não perde oportunidade de ridicularizar-me, ante minha pobreza intelectual e cultural. Num momento de incontida irritação, chama-me de débil mental e idiota, mas logo se contém, ao ser chamado à atenção por um companheiro desencarnado de mais elevada hierarquia, como depois verificamos. Mesmo com a voz pausada, deixa escapar suas terríveis ameaças, dizendo que nosso barco vai virar e seremos empurrados para o fundo, com barco e tudo.
— Dessa vez — diz ele — não vai ser fácil. Você vai cair do galho, macaco!
Segundo diz, há muito me segue e tem vontade de dizer algumas verdades na minha cara, porque ainda tenho muito do homem velho, com o que concordo plenamente. Não sabe por que
não as diz, pois está certo de que, se isso acontecesse, naquela mesma noite o grupo estaria liquidado. (Está, certamente, sentindo os controles do médium.) Fala do cerco que me vem fazendo, até mesmo nas minhas atividades profissionais, e refere episódios verídicos, para demonstrar sua familiaridade com o que diz respeito à minha vida particular. Conclui dizendo que, há tempos, quase conseguiram derrubar-me. (Há sempre um quase, na bondade infinita de Deus, quando nos empenhamos na tarefa abençoada de servir.)
Ao cabo de longa conversa, despede-se, algo sonolento, mas firme nas suas convicções.
Oro por ele durante toda a semana e, na reunião seguinte, ele volta. Não está mais tão irônico e seguro de si, como da primeira vez. Perdeu a aparente serenidade, revelando-se profundamente irritado, furioso mesmo, ameaçador, agressivo, impaciente. Deve ser por causa da perda do valoroso companheiro que na semana anterior o advertira, quando me chamou de débil mental e que, com a graça de Deus, conseguimos despertar. Declara-se um líder, e que, se eu tivesse visão espiritual, veria que todos os seus companheiros estão ali, atrás dele, como um bloco. Estão prontos e dispostos a desencadear a luta. As ameaças são terríveis, mas sinto-o mais desesperado do que rancoroso. Diz que transpusemos todas as barreiras e que é preciso um basta final.
Enquanto conversamos, outro médium do grupo avisa-me que ouve bimbalhar de sinos e, em seguida, sons de órgão. Ele também ouve, mas recusa-se a reconhecer a situação, que, obviamente, teme, e insiste em retomar o debate filosófico-religioso. É a fuga desesperada ante toda e qualquer aproximação da emoção, que não seja o frio jogo de palavras a que está habituado e que o anestesia espiritualmente.
De vez em quando, dirige-se, irritado, a alguém invisível, que lhe cita trechos evangélicos. Em uma dessas, diz, nervoso: — Eu sei. 4:19, Primeira aos Coríntios10. Segundo me diz o outro médium, a música prossegue a vibrar dentro dele. A essa altura, ele começa a apalpar o seu médium: a face, os olhos e o corpo, demorando-se nas mãos. Começa sutilmente a crise. Ele conclui, em voz alta, que são mãos de um organista (que o médium foi, realmente, em antiga encarnação, na Alemanha). Pouco depois, ainda irritado, ante minha evidente falta de acuidade, diz-me que é cego! E mesmo assim domina, é um líder! Informa, satisfeito consigo mesmo. Sinto por ele uma compaixão infinita e me dirijo a ele com ternura, como se a pedir-lha que me perdoe por não ter notado isso antes. Pergunto se permite que tentemos curá-lo, e ele recusa energicamente.
A essa altura, não consegue mais evitar que a música domine todo o seu ser. Fala sobre acordes que lhe causam verdadeiros choques. A crise aprofunda-se e ele ouve agora, irresistivelmente, a música sublime de um organista incomparável. Tenta desesperadamente fugir dela, tapa os ouvidos, bate com os cotovelos na mesa, cantarola uma canção, e diz a si mesmo: — Reaja, frouxo!
Mas a torrente daquela música divina, que ele tem o privilégio de ouvir, arrasta-o irresistivelmente. Segundo me informam do mundo espiritual, ele costumava ouvir os recitais sempre do mesmo lugar, na terceira fila à direita. Digo-lhe isso, enquanto ele parece também reconhecer, daquele tempo, o seu médium atual.
Por fim, graças a Deus, a emoção daquela música inesquecível domina-o inapelavelmente. Está arrasado e murmura: — Ele é um monstro... Tudo nele é grande. — Refere- se, por certo, ao organista que, do invisível, toca para ele neste momento. Logo a seguir, começa a chorar, vencida pela emoção que há tanto sufocou em seu coração generoso. A música que ele
10 “Mas, Irei logo onde estais, se for da vontade do Senhor; o então, conhecerei, não a palavra desses orgulhosos, mas o seu poder.”
amava, e compreendia como poucos, foi o instrumento sutil que a misericórdia divina utilizou para restabelecer o perdido contacto entre coração e mente, que andavam divorciados.
Trato-o com infinito carinho e amor fraterno, e quando lhe peço perdão pela dor que lhe causamos naquela crise necessária, ele retruca, entre irritado e confuso: — Não peça perdão, seu tolo!
Em seguida parte, ainda em pranto e com a visão recuperada.