33. Vosso Espírito se acha no estado em que se encontrará quando estiverdes morto?
Resp. – Mais ou menos a mesma coisa, por causa do laço que o prende ao corpo.
34. Tendes consciência das existências anteriores?
Resp. – Muito confusamente. Eis aí uma diferença de que me esquecia. Após o desprendimento completo que se segue à morte, as lembranças são muito mais precisas. Atualmente são mais completas do que durante a vigília, mas não suficientes para poder especificá-las de modo mais inteligível.
35. Se, ao despertar, vos mostrassem vossos escritos, teríeis consciência das respostas que acabais de dar?
Resp. – Poderia identificar alguns de meus pensamentos; mas muitos outros não encontrariam nenhum eco em meu pensamento quando acordado.
36. Poderíeis exercer sobre o corpo uma influência de tal forma intensa que fosse capaz de o despertar?
Resp. – Não.
37. Poderíeis responder a uma pergunta mental?
Resp. – Sim.
38. Vede-nos espiritualmente ou fisicamente?
Resp. – De ambos os modos.
39. Poderíeis ir visitar o irmão de vosso pai, que dizem estar numa ilha da Oceania e, como marinheiro, poderíeis precisar a posição dessa ilha?
Resp. – Não posso nada disso.
40. Que pensais agora de vossa interminável obra e seu objetivo?
Resp. – Penso que devo prossegui-la, com o mesmo objetivo. É tudo quanto posso dizer.
Observação – Ele havia desejado que lhe fizessem essa pergunta, relativa a importante trabalho que empreendia sobre a marinha.
41. Ficaríamos muito contentes se dirigísseis algumas palavras aos vossos colegas, uma espécie de pequeno discurso.
Resp. – Já que tenho oportunidade, aproveito-a para vos afirmar a minha fé no futuro da alma; que a maior falta que os homens podem cometer é procurar provas e provas. Isto quando muito é perdoável nos homens que se iniciam no conhecimento do Espiritismo. Já não vos repetiram milhares de vezes que é preciso crer, porque se compreende e se ama a justiça e a verdade, e que se déssemos satisfação a uma dessas perguntas pueris, os que pretendessem fazê-la para se convencerem não deixariam de fazer outras no dia seguinte e perderíeis, infalivelmente, um tempo precioso, fazendo os Espíritos lerem a sorte? Eu o compreendo agora muito melhor do que quando desperto e vos posso dar um sábio conselho: quando quiserdes obter tais resultados, dirigi-vos aos Espíritos batedores e às mesas falantes que, nada tendo de melhor a dizer, podem ocupar-se de tais manifestações. Perdoai-me a lição, mas tenho necessidade dela e não me aborreço de a dar a mim mesmo.
(Segunda conversa – 2 de dezembro de 1859) 42. Evocação.
Resp. – Eis-me aqui.
43. Dormis bem?
Resp. – Não muito; mas irei.
44. No caso particular em que vos encontrais, julgais útil fazer a evocação em nome de Deus, como se fosse o Espírito de um morto?
Resp. – Por que não? Por não estar morto, credes que Deus me seja indiferente?
45. Considerando-se que vos achais aqui, se vosso corpo recebesse uma picada, não bastante forte para vos despertar, mas suficiente para vos fazer estremecer, vosso Espírito a sentiria?
Resp. – Meu corpo não a sentiria.
46. Vosso Espírito teria consciência do fato?
Resp. – Nenhuma; mas notai que me falais de uma sensação leve e sem nenhum alcance, em termos de importância, seja para o corpo, seja para o Espírito.
47. A propósito da luz, dissestes que ela vos parece como se estivésseis em vigília, considerando-se que vossos olhos são como janelas por onde ela chega ao cérebro. Compreendemo-lo em relação à luz percebida pelo corpo; mas neste momento não é o vosso corpo que vê. Vedes ainda por um ponto circunscrito ou por todo o ser?
Resp. – É muito difícil vos fazer compreender. O Espírito percebe as sensações sem intermédio dos órgãos e não tem ponto circunscrito para as perceber.
48. Insisto novamente em saber se os objetos, o espaço que vos cerca têm para vós a mesma cor de quando estais desperto.
Resp. – Para mim, sim, porque meus órgãos não me enganam. Mas certos Espíritos encontrariam nisso grandes diferenças. Vós, por exemplo, percebeis os sons e as cores de modo muito diverso.
49. Percebeis os odores?
Resp. – Também melhor que vós.
50. Fazeis diferença entre a luz e a obscuridade?
Resp. – Diferença, sim. Mas para mim a obscuridade não é como para vós: vejo perfeitamente no escuro.
51. Vossa vista penetra os corpos opacos?
Resp. – Sim.
52. Poderíeis ir a um outro planeta?
Resp. – Isto depende.
53. De que depende?
Resp. – Do planeta.
54. A que planeta poderíeis ir?
Resp. – Aos que estão aproximadamente no mesmo grau da Terra.
55. Vede os outros Espíritos?
Resp. – Muitos e ainda.
Observação – Uma pessoa que o conhece intimamente, presente à sessão, disse que essa expressão lhe é muito familiar, vendo nisso, assim como em toda a forma da linguagem, uma prova de identidade.
56. Vede-os aqui?
Resp. – Sim.
57. Como constatais sua presença? Por uma forma qualquer?
Resp. – Por sua forma própria, isto é, por seu perispírito.
58. Vedes algumas vezes os vossos filhos e podeis falar-lhes?
Resp. – Vejo-os e lhes falo freqüentemente.
59. Dissestes: Meu corpo é um acessório; sou EU que estou aqui. Esse eu é circunscrito, limitado, tem uma forma qualquer? Em suma, como vos vedes?
Resp. – É sempre o perispírito.
60. Então, para vós, o perispírito é um corpo?
Resp. – Mas, evidentemente.
61. Vosso perispírito imita a forma de vosso corpo material e vos parece que aqui estais com o vosso corpo?
Resp. – Sim, quanto à primeira pergunta, e não, quanto à segunda. Tenho perfeita consciência de estar aqui somente com o meu corpo fluídico luminoso.
62. Poderíeis dar-me um soco?
Resp. – Sim, mas não o sentiríeis.
63. Poderíeis fazê-lo de maneira sensível?
Resp. – Isto é possível; mas não o posso aqui.
64. Se, no momento em que estais aqui, vosso corpo morresse subitamente, que experimentaríeis?
Resp. – Eu lá estaria antes.
65. Ficaríeis desembaraçado mais prontamente do que se morrêsseis em circunstâncias ordinárias?
Resp. – Muito. Não tornaria a entrar senão para fechar a porta, depois de haver saído.
66. Dissestes que sofreis de gota. Não concordais com vosso médico, aqui presente, que pretende seja um reumatismo nevrálgico? Que pensais?
Resp. – Já que estais tão bem informado, penso que isto deve bastar.
67. [O médico] Em que vos baseais para supor que seja gota?
Resp. – É a minha opinião. Talvez me engane, sobretudo se estais tão certo de não vos enganar.
68. [O médico] Seria possível uma complicação de gota e reumatismo.
Resp. – Então ambos teríamos razão; não nos restaria senão nos abraçar.
(Esta resposta provocou risos na assembléia) 69. Isto vos faz rir de nos ver rindo?
Resp. – Mas às gargalhadas. Então não me entendeis?
70. Disseste que o lírio verde é um remédio eficaz contra a gota. De onde vos veio essa idéia, tendo em vista que, desperto, não a sabíeis?
Resp. – Servi-me dele outrora.
71. Foi, portanto, numa outra existência?
Resp. – Sim, e fez-me mal.
72. Se vos fizessem uma pergunta indiscreta, ver-vos-íeis constrangido a respondê-la?
Resp. – Oh! é muito forte; tentai.
73. Assim, tendes perfeito livre-arbítrio?
Resp. – Mais que vós.
Observação – Em muitas ocasiões a experiência tem provado que o Espírito, isolado do corpo, conserva sempre a sua vontade e não diz senão o que quer. Compreendendo melhor o alcance das coisas, é mesmo mais prudente e discreto do que quando se acha desperto. Quando diz uma coisa, é que julga útil dizê-lo.
74. Teríeis tido a liberdade de não vir quando vos chamamos?
Resp. – Sim; livre de sofrer as conseqüências.
75. Quais seriam essas conseqüências?
Resp. – Se me recusar a ser útil aos meus semelhantes, principalmente quando tenho perfeita consciência de meus atos, sou livre, mas sou punido.
76. Que gênero de punição sofreríeis?
Resp. – Seria necessário vos desvelar o código de Deus, e isso seria muito longo.
77. Se neste momento alguém vos insultasse, dizendo coisas que, desperto, não suportaríeis, qual o sentimento que experimentaríeis?
Resp. – O desprezo.
78. Então não procuraríeis vingar-vos?
Resp. – Não.
79. Fazeis uma idéia da posição que ireis ocupar entre os Espíritos, quando lá estiverdes completamente?
Resp. – Não; isto não é permitido.
80. No estado atual em que vos achais, credes que o Espírito possa prever a morte do corpo?
Resp. – Algumas vezes. Contudo, se tivesse que morrer de repente, sempre teria tempo de a ele voltar.