1. INTRODUÇÃO
Antes de prosseguir, cumpre-me informar o leitor de que foi necessário, por óbvias razões, preservar certas identificações que nada acrescentariam ao relato, bem como evitar informações que resultassem em constrangimento ou mesmo conflito com as pessoas envolvidas. Estamos empenhados na elaboração de uma obra construtiva e nunca na inglória tarefa da demolição.
Decidimos atribuir à jovem referida no capítulo inicial o nome de Regina, pseudônimo que já havia sido por mim utilizado em A memória e o tempo. O leitor encontrará nessa obra um relato sumário de suas experiências e de alguns dos fenômenos com ela ocorridos que dizem respeito ao aspecto específico da memória nas suas interações com o tempo. Para facilitar as coisas, faremos aqui um resumo, diríamos biográfico, de Regina.
Ela é dotada de uma memória realmente assombrosa, pois se recorda com nitidez de seu batismo, com apenas algumas semanas de vida na carne. Já ali estava seu espírito perfeitamente lúcido, consciente da cena que se desenrolava à sua volta: as pessoas, o ambiente e sua participação na mesma. Desagradava -lhe sua incapacidade para controlar o frágil e inseguro corpo físico, com o qual não conseguia ficar suficientemente ereta no colo da madrinha.
Mais desagradável ainda foi o choque da água fria, derramada sobre sua cabeça. O pior, contudo, fora o gosto horrível do sal e a repugnante sensação dos dedos do sacerdote forçando a introdução da substância em sua boca. Com seis meses de idade, foi levada a uma dessas quermesses paroquiais do interior. Ao passar, no colo da irmã, por uma barraquinha, viu uma linda bola colorida e desejou tê-la. Sem saber ainda como formalizar o desejo em palavras, estendeu as mãos, tentando agarrar a bola. Tudo em vão, pois a irmã mais velha não percebeu o gesto nem a frustração da criança.
A memória ia mais longe e mais fundo ainda, porque, desde a primeira infância, começou a exibir, em verdadeiros espetáculos de video-tape, imagens estranhas que só muito mais tarde iria saber tratarem-se de ocorrências de vidas suas anteriores.
Nascera em extrema pobreza, na zona rural do interior do estado do Rio de Janeiro.
Fora a última dos doze filhos do casal, dos quais apenas seis sobreviveram.
Embora tivesse as alegrias normais da infância pobre, mas não miserável, não se sentia feliz. Muito cedo começou a viver duas vidas paralelas: uma, na casinha singela, de piso de terra batida e paredes de pau a pique; a outra, num mundo tão real quanto aquele, em luxuosos e amplos ambientes, ricamente decorados e mobiliados, forrados de tapetes e revestidos de cortinas imponentes, nas quais predominavam os tons vermelhos e ouro, na imponência do veludo que descia das alturas até o assoalho. Em vez das majestosas camas daquele 'outro universo' paralelo, ela dormia sobre duas tábuas de madeira apoiadas em rústicos cavaletes, com uma esteira por cima - trabalho caseiro de seu pai.
Outras coisas incompreensíveis eram a pele escura e o cabelo característicos dos mulatos (o pai era branco, alfabetizado; a mãe, negra e analfabeta). E apesar de tudo isso ela sabia, com toda a convicção, que era branca. Com freqüência, tentava raspar a pele do braço com as unhas em busca da cor branca que tinha de estar ali, em algum lugar. Quando corria pelos campos, sentia a cabeleira farta, ondulada, macia e sedosa, saltando em torno dos ombros. Se a buscava, porém, com as mãos para acariciá-la ou ajeitá-la, dava apenas com o cabelo áspero, curto e rijo. Afinal de contas, o que acontecera aos seus cabelos e à sua pele? Por que estava ali a esquisita cabeleira que não era, definitivamente, a sua? Onde estaria seu bonito e farto cabelo?
Criada no catolicismo pela mãe devota, rezava com todo o fervor infantil a Nossa Senhora das Graças, pedindo o milagre da recuperação de seus belos cabelos longos e da sua pele alva de outrora. Adormecia cheia de esperanças, ainda enxugando as últimas lágrimas. Mas tudo em vão! Pela manhã, procurava com as mãos ansiosas os cabelos derramados sobre o travesseiro e não os encontrava ... e a pele continuava escura, como sempre, e nada conseguiu clareá-la.
Sobrava-lhe tempo para tais especulações e vidências, pois ainda não começara a freqüentar a escola.
Além do mais, sentia terrível falta de sua mãe. Ou seja, tinha mãe, como todo mundo, mas sabia que aquela não era a sua. Sua mãe de verdade era diferente. Essa que ali estava e cuidava dela e que os outros diziam ser sua mãe era boa, por certo, amava-a no seu jeito rude, mas era uma estranha. E, além de tudo, era negra. A mãe verdadeira era branca, carinhosa, beijava-a com freqüência e a pegava no colo. Aquela ali não fazia nada disso.
Por isso tinha inexplicáveis angústias, chorava sem motivo aparente, sofria de indefinidas saudades, vagas, incompreensíveis. Onde estaria sua gente: seus pais, seus amigos, a casa rica, a família, enfim?
As dificuldades maiores eram com a mãe, em quem só conseguia ver uma estranha mulher rude e sofrida, negra, a qual não se sentia inclinada a amar. Com o pai, relacionava-se melhor; mas também ele não era de muitos carinhos, embora lhe dedicasse mais atenção que a mãe. Às vezes, a colocava no colo para fazê-la adormecer, e ela, por sua vez, chegava a fingir-se sonolenta somente para ganhar alguns momentos de aconchego. Eram muitas as suas carências, a ânsia de afeto, de atenção, de amor ... como se estivesse habituada a outra espécie de relacionamento, o que lhe davam ali era muito pouco para preencher seu imenso vazio interior. À sua maneira, eram pessoas boas e dedicadas, nos limites de suas modestas possibilidades e recursos emocionais, mas ela não os via como pais e irmãos de verdade, não eram sua família, nem aquela era sua casa.
Por tudo isso, e mais, pela tendência à introversão, refugiava-se na solidão e soltava as asas da imaginação. Conversava com invisíveis personagens de suas visões. Os que assistiam àquilo apenas concluíam que ela estava falando sozinha, coisa não muito rara em crianças de sua idade - quatro a seis anos.
Aliás, foi aí pelos seis anos que lhe morreu o pai. Diz ela que gostava muito dele, e acrescenta significativamente: "Ele era branco." Como se a cor tivesse algo a ver com sua preferência ... sofreu muito com a sua inesperada partida. Além do mais, naquela mesma noite, depois do enterro, ela o viu. Ele mostrava-se aflito e lhe dizia que não estava morto e que havia sido enterrado vivo. Provavelmente não percebera ainda que se encontrava em uma condição diferente e ao presenciar o sepultamento do corpo, concluiu que havia sido enterrado com vida. A menina ficou muito angustiada, principalmente porque não conseguiu convencer ninguém a mandar desenterrar o pai, que estaria vivo embaixo da terra. Disseram-lhe que era um sonho, apenas um sonho sem pé nem cabeça.
Seguiu-se um período ainda mais difícil em sua curta existência. Não só ele provia a maior parte dos recursos materiais de sustentação da casa, como era a única pessoa a ter certa compreensão e paciência com suas fantasias infantis. Inclusive a de Papai Noel! Embora risse dela, ela sempre colocou seus humildes sapatinhos no lugar próprio, e era certo encontrar neles algum presentinho singelo, na manhã do natal.
Nunca soube, contudo, que fim levara seu brinquedo preferido: um ursinho de pelúcia marrom, com olhos de contas vermelhas. Por certo, ficara perdido em alguma esquina do passado remoto, quando fora rica, bela e feliz em algum ponto deste imenso mundo.
2. ALUCINAÇÕES?
Algum tempo após a morte do pai, a família mudou-se para um centro maior. Regina, mais crescida, continuava uma criança triste, muito triste. Entraram num período de sérias privações, agravadas nela pela sensação de exílio, de desajuste e de incompreensão. Era como se, adormecida branca, linda, rica e feliz, acordasse de repente ali naquele mundo estranho, numa casa feia e pequena, cercada de gente desconhecida e, pior de tudo, num corpo que definitivamente não era o seu.
As dificuldades se acentuaram com a adolescência, especialmente o desajuste com a família. Não encontrava em seus parentes ressonância alguma para seus anseios sociais e emocionais. Não se importavam com o arranjo da casa, o cuidado com os móveis e objetos, mesmo pobres. Ela ansiava pelo requinte. Queria a mesa bem posta e forrada com toalhas de imaculado linho, os alimentos em travessas apropriadas e, se possível, alguém para servir.
Problemas suscitados pelos preconceitos raciais também se intensificavam. Embora ainda inconformada, fora forçada a aceitar sua pele e cabelos tal como eram. Não havia como mudar a situação. Eram fatos consumados, produzidos por motivações desconhecidas e misteriosas, mas imutáveis. Não admitia, contudo, ser cortejada por um rapaz de cor. Decidira jamais casar-se para não passar adiante a herança genética, que considerava um verdadeiro estigma. A cor era como que a marca visível de uma vergonha, que cumpria sufocar e esquecer.
Longe de atenuar os problemas, a adolescência os agravou. O universo em paralelo tinha agora personagens tão vivos quanto qualquer outro de carne e osso. Sem saber ao certo o que se passava com ela, a menina romântica vivia em toda a sua intensidade uma novela de amor e devotamento. O objeto de sua ternura era um homem que também a amava e a cercava de cuidados e atenções carinhosas, em admirável identidade de propósitos e entendimento. Ela via nele um ser ideal e maravilhoso, o companheiro perfeito. Era compreensível que, em confronto com a áspera existência que levava no mundo material, aquela outra face da realidade fosse a mais atraente. Para lá, onde quer que se situasse aquele universo paralelo, ela fugia com freqüência, para escapar às angústias e pressões do 'outro'. Ali era querida, tinha o conforto de uma existência protegida, na qual nada lhe faltava, nem mesmo (e principalmente) o amor.