A Vida de Jesus, pelo Sr. Renan
Daí uma prevenção que os faz encarar esta ciência como pueril e indigna de sua atenção; julgando-a pela etiqueta, crêem-na inseparável da magia e da feitiçaria. Se o Espiritismo se tivesse abstido de pronunciar a palavra Espírito e se, em todas as circunstâncias a tivesse substituído pela palavra alma, a impressão para eles teria sido completamente outra. Com todo o rigor, esses profundos filósofos, esses livres-pensadores admitem que a alma de um ser que nos foi caro ouça os nossos lamentos e nos venha inspirar, mas não admitirão que o mesmo se dê com seu Espírito. O Sr. Renan pôde colocar no topo de sua dedicatória: À alma pura de minha irmã Henriette; não teria posto: Ao Espírito puro. Por que, então, o Espiritismo se serviu da palavra Espírito? É um erro? Não, ao contrário. Primeiro porque, desde as primeiras manifestações e antes da criação da filosofia espírita, essa palavra já era usada; desde que se tratava de deduzir as conseqüências morais dessas manifestações, havia utilidade em conservar uma denominação consagrada pelo uso, a fim de mostrar a conexão dessas duas partes da ciência. Além disso, era evidente que a prevenção ligada a essa palavra, circunscrita a uma categoria especial de pessoas, devia apagar-se com o tempo. O inconveniente era apenas momentâneo. Em segundo lugar, se para certas pessoas o vocábulo Espírito era um palavrão, para as massas era um atrativo e deveria contribuir mais que o outro para popularizar a doutrina. Assim, pois, era preferível o maior número ao menor. Um terceiro motivo é mais sério que os dois outros. As palavras alma e Espírito, embora sinônimas e empregadas indiferentemente, não exprimem exatamente a mesma idéia. A alma é, a bem dizer, o princípio inteligente, inatingível e indefinido como o pensamento. No estado dos nossos conhecimentos, não podemos concebê-lo isolado da matéria de maneira absoluta. O perispírito, não obstante formado de matéria sutil, dele faz um ser limitado, definido e circunscrito à sua individualidade espiritual, donde se pode formular esta proposição: A união da alma, do perispírito e do corpo material constitui o HOMEM; a alma e o perispírito separados do corpo constituem o ser chamado ESPÍRITO. Nas manifestações, pois, não é só a alma que se apresenta; está sempre revestida de seu envoltório fluídico; esse envoltório é o intermediário necessário, através do qual ela age sobre a matéria compacta. Nas aparições não é a alma que se vê, mas o perispírito, do mesmo modo que quando se vê um homem vê-se o seu corpo, e não o pensamento, a força, o princípio que o faz agir. Em resumo, a alma é o ser simples, primitivo; o Espírito é o ser duplo; o homem é o ser triplo. Se se confundir o homem com suas roupas, teremos um ser quádruplo. Nas circunstâncias de que se trata, a palavra Espírito é a que melhor corresponde à coisa expressa. Pelo pensamento representa-se um Espírito, mas não se representa uma alma. Convencido de que a alma de sua irmã o via e o entendia, o Sr. Renan não podia supor que ela estivesse só no espaço. Uma simples reflexão deveria dizer-lhe que deve ocorrer o mesmo com todas as que deixam a Terra. As almas ou Espíritos assim espalhados na imensidade constituem o mundo invisível que nos cerca e em cujo meio vivemos, de sorte que esse mundo não é composto de seres fantásticos, de gnomos, de duendes, de demônios monstruosos, mas dos mesmos seres que formaram a Humanidade terrestre. Que há nisso de absurdo? O mundo visível e o mundo invisível assim se acham em perpétuo contato, daí resultando uma incessante reação de um sobre o outro; daí uma imensidade de fenômenos que entram na ordem dos fatos naturais. O Espiritismo moderno não os descobriu, nem os inventou; ele os estudou melhor e melhor os observou; procurou as suas leis e, por isso mesmo, as suprimiu da ordem dos fatos maravilhosos. Os fatos que se prendem ao mundo invisível e às suas relações com o mundo visível, mais ou menos observados em todas as épocas, ligam-se à história de quase todos os povos e, sobretudo, à história religiosa. Eis por que em muitas passagens, escritores sacros e profanos fazem alusão a eles. É por falta de conhecimento dessas relações que tantas passagens ficaram ininteligíveis e foram interpretadas tão diversamente e tão falsamente. É por esta mesma razão que o Sr. Renan equivocou-se tão singularmente quanto à natureza dos fatos relatados no Evangelho, quanto ao sentido das palavras do Cristo, seu papel e seu verdadeiro caráter, como o demonstraremos num próximo artigo. Estas reflexões, a que nos conduziram o seu preâmbulo, eram necessárias para apreciar as conseqüências por ele tiradas do ponto de vista em que se colocou.
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Mês Maio
Ano 1864