1ª Parte - Cap. 2: Lágrimas e sacrifícios
Jochedeb e os filhos traíam na palidez do semblante a emoção profunda que os dominava. Os costumes da época eram excessivamente desu manos para que o juiz implacável e a maioria dos cir cunstantes se inclinassem à comiseração pelo aspecto desditoso deles. Alguns esbirros perfilavam -se junto dos potros de castigo, de onde pendiam açoites e algemas impiedosos. Não houve interrogatório, nem depoimento de tes temunhas, como seria de esperar antes de providências tão odiosas, e, chamado rudemente pela voz metálica do legado, o velho judeu aproximou -se vacilante e trêmulo: — Jochedeb — exclamou o algoz impassível e sa nhudo —, os que desacatam as leis do Império devem ser punidos de morte, mas eu procurei ser magnânimo, em consideração à tua velhice desamparada. Um olhar de angustiada expectação transfigurou o rosto do acusado, enquanto o patrício esboçava um sor riso irônico. — Alguns operários lá da herdade — continuou Licínio — viram-te as mãos perversas na tarde de ontem, quando incendiaste as pastagens. Esse ato redundou em sérios prejuízos para os meus interesses, além de ocasio nar males talvez irreparáveis à saúde d e dois servos mui prestimosos. Como nada tens de teu para compensar o dano causado, receberás o justo corretivo em flagelações, para que nunca mais venhas a erguer tuas garras de abutre contra os interesses romanos. Sob o olhar angustiado e lacrimoso dos f ilhos, o velho israelita ajoelhou-se e murmurou: — Senhor, por piedade! — Piedade? — berrou Minúcio com rispidez. — Cometes um crime e imploras favores? Bem se diz que tua raça se compõe de vermes asquerosos e desprezíveis. E, designando o tronco, disse f riamente a um dos sequazeS: — Pescênio, avia-te! Vergasta-o vinte vezes. Ante a muda aflição dos jovens, o respeitável ancião foi solidamente algemado. O castigo ia começar quando Jeziel, rompendo a expectativa geral, aproximou-se da mesa e falou com humil dade: — Questor Ilustríssimo, perdoai minha covardia de haver calado até agora; asseguro-vos, porém, que meu pai está sendo acusado injustamente. Fui eu quem incendiou os terrenos de vossa propriedade, perturbado pela sentença de confisco exarada contra nó s. Dignai-vos, pois, libertá-lo e dar-me a mim a merecida punição. Aceitá-la-ei de bom grado. O patrício teve um lampejo de surpresa nos olhos frios, que se caracterizavam por mobilidade extrema, e acentuou: — Mas, não auxiliaste os meus homens a salvar um a parte das termas? Não foste o primeiro a medicar Rufílio? - Assim fiz levado pelo remorso, ilustríssimo -retrucou o rapaz, ansioso por isentar o pai do suplício iminente -; quando vi a extensão do fogo comunicando se às árvores, temi as conseqüências do ato praticado, mas, agora, confesso ter sido o seu autor. Nesse ínterim, receoso pela sorte do filho, Jochedeb exclamou, íntimamente atormentado: - Jeziel, não te inculpes por uma falta que não cometeste!... Mas, pontilhando as palavras com extrema ironia, o legado replicou, dirigindo-se ao moço hebreu: - Está bem: poupei-te até agora, baseado nas falsas informações que me deram a teu respeito; contudo, terás também o teu quinhão de disciplina indispensável. Teu pai pagará pelo crime em que foi visto, de ma neira inegável; e tu pagarás pelo que confessaste espontaneamente. Colhido de surpresa pela decisão que não esperava, Jeziel foi conduzido ao poste de tortura, em frente da angústia paterna. A seu lado, postou -se o companheiro de Pescênio, que o atou sem p iedade aos elos de bronze, e as primeiras vergastadas começaram a lamber -lhe o dorso, impiedosas, isócronas. Uma... duas... três... Jochedeb revelava profunda debilidade, vendo -se-lhe o peito a arfar penosamente, ao passo que o filho demonstrava tolerar o suplício com heroismo e nobre serenidade; ambos de olhos fixos em Abigail, que os contemplava excessivamente pálida, entremostrando nas lágrimas ardentes que derramava o cruciante martírio do seu espírito afetuoso. A punição terrível ia quase a meio, quand o um mensageiro entrou no recinto e, em voz alta, anunciou ao legado, em tom solene: - Ilustríssimo, portadores de vossa casa participam que o servo Rufílio acaba de falecer. O cruel patrício franziu o sobrolho como costumava fazer nos momentos de explosão colérica. Sentimentos rancorosos lhe afloraram à face, que a perversidade de egoísmo exacerbado vincara de traços indeléveis. — Era o melhor dos meus homens — bradou. —Estes judeus malditos pagarão muito caro esta afronta. — Filócrio, aplica-lhe mais vinte vergastadas e, em seguida, leva -o à prisão, de onde deverá seguir para o cativeiro nas galeras. Entre as pobres vítimas e a jovem aflita trocou -se um olhar de significação intraduzível. Aquele cativeiro era a ruína e a morte. E ainda não se haviam recobr ado da cruel surpresa, quando o juiz inexorável prosseguiu: — Quanto a ti, Pescênio, renova a tarefa. Esse velho, criminoso e sem escrúpulos, pagará a morte do meu fiel servidor. Golpeia -lhe as mãos e os pés até que fique impossibilitado de caminhar e prat icar o mal. Ante a sentença iníqua, Abigail caiu de joelhos, em preces ardentes. Do peito do irmão escapavam fundos suspiros, nevoando -se-lhe os olhos de lágrimas dolorosas, ao conjeturar a inexorável desdita da irmãzinha, enquan to o pai lhes buscava ansiosamente o olhar, receoso da hora extrema. As vergastadas continuavam sem trégua, mas, de uma feita, Pescênio não conseguira equilibrar-se e a aguçada ponta de bronze do açoite lanhou fundo a garganta do pobre israelita, jorrando o sangue em borbotões. Os filhos compreenderam a gravidade da situação e entreolharam -se ansiosos. Em preces de sublimado fervor, Abigail dirigia -se a Deus, àquele Deus terno e amoroso que sua mãe lhe ensinara a adorar. Filócrio concluírs a sua empreitada. A fronte de Jeziel ergui a-se a custo, exibindo pastoso suor tisnado de sangue. Os olhos fixa vam-se na irmã muito amada, mas, em todo o seu as pecto, deixava transparecer profunda fraqueza, que lhe anulava as últimas resistências. Incapaz de definir os próprios pensamentos, Abiga il repartia sua atenção angustiada com o pai e o irmão; todavia, em breves instan tes, ao fluxo incessante do sangue que corria abundante, Jochedeb deixou pender, para sempre, a cabeça alvejada de cabelos brancos. O sangue alagara as vestes e empastava-se-lhe nos pés. Sob o olhar cruel do legado, ninguém ousou articular palavra. Apenas o açoite, cortando o ambiente morno da sala, quebrava o silêncio num silvo singular. Mas, notaram que do peito da vítima ainda se escapavam palavras confusas, das quais sobressaiam as carinhosas expressões: — Meus filhos, meus queridos filhos!... A jovem talvez não pudesse compreender que che gara o momento decisivo, mas Jeziel, não obstante o terrível sofrimento daquela hora, tudo compreendeu e, num esforço profundo, gritou para a irmã: — Abigail, papai está expirando; tem coragem, con fia... Não posso acompanhar-te na oração... mas fazes por todos nós... a prece dos aflitos... Dando mostras de fé invejável em tão amarguradas circunstâncias, a jovem, de joelhos, fixou longam ente o velho pai cujo peito já não arfava; depois, erguendo os olhos ao Alto, começou a cantar com voz trêmula, porém harmoniosa e cristalina: “Senhor Deus, pai dos que choram, Dos tristes, dos oprimidos, Fortaleza dos vencidos, Consolo de toda a dor, Embora a miséria amarga Dos prantos de nosso erro, Deste mundo de desterro Clamamos por vosso amor! Nas aflições do caminho, Na noite mais tormentosa, Vossa fonte generosa É o bem que não secará. Sois, em tudo, a luz eterna Da alegria e da bonança, Nossa porta de esperança Que nunca se fechará.” Suas expressões vocais enchiam o ambiente de so noridade indefinível. O canto semelhava-se mais a um gorjeio de dor de um rouxinol que cantasse, ferido, numa alvorada de primavera. Tão grande, tão sincera se lh e revelava a fé no Todo-Poderoso, que sua atitude geral era a de uma filha carinhosa e obediente, comunicando -se com o pai silencioso e invisível. O pranto perturbava-lhe a voz trêmula, mas repetia com desassombro a prece aprendida no lar, com a mais formosa expressão de confiança no Altíssimo. Penosa emoção apossara -se de todos. Que fazer com uma criança cantando o suplício dos seus entes amados e a crueldade dos seus verdugos? Soldados e guardas presentes mal dissimulavam a emoção. O próprio questor parecia imobilizado, como que submetido a enfadonho mal -estar. Abigail, estranha à perversidade das criatu ras, suplicando o amparo do Onipotente, não sabia que o cântico era inútil à salvação dos seus, mas que desper taria a comiseração pela sua inocência, ga nhando-lhe, assim, a liberdade. Recobrando alento e percebendo que a cena ferira a sensibilidade geral, Licínio esforçou-se por não perder a dureza de espírito e recomendou a um dos velhos servidores, em tom imperioso: — Justino, leva esta mulher para a r ua e solta-a, mas que não cante mais, nem mesmo uma nota! Diante da ordem retumbante, Abigail não terminou a oração, emudecendo instantaneamente, como se obede cesse a estranho estacato. Lançou ao cadáver ensangüentado do pai um olhar inesquecível e, logo contemplando o irmão ferido e alge mado, com quem trocava as mais íntimas impressões na linguagem dos olhos doridos e ansiosos, sentiu -se tocada pela mão calosa de um velho soldado que lhe dizia em voz quase áspera: — Acompanha-me! Ela estremeceu; todavia, endereçando a Jeziel o der radeiro e significativo olhar, seguiu o preposto de Minú cio, sem resistência. Após atravessar inúmeros corredores úmidos e sombrios, Justino, modificando sensivelmente a voz, deu-lhe a perceber extrema simpatia por sua figu ra quase infantil, murmurando-lhe ao ouvido, comovidamente: — Minha filha, também sou pai e compreendo o teu martírio. Se queres atender a um amigo, escuta o meu conselho. Foge de Corinto a toda pressa. Vale-te deste instante de sensibilidade dos teus verdugo s e não voltes aqui.
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Capítulo 2
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