Segundo Regina, uma vez desdobrada do corpo físico, ou seja, na condição de espírito, ela se sente livre da dimensão reservada para o ser humano encarnado e, portanto, do ritmo que lhe é próprio, e mergulha em espírito na outra - qualquer que seja o significado disso. Nesse ritmo diferente é que se movimenta o espírito que vive em um contexto energético e não material, como o do ser encarnado. Uma vez liberada da necessidade de arrastar o corpo físico e submeter-se aos seus ritmos lentos, Regina pode assumir sua condição de espírito e viajar no tempo - rumo ao futuro ou ao passado - no ritmo mais acelerado do espírito. Como que cavalgando esse dispositivo e deslocando-se a uma velocidade muitíssimo superior à da luz, e pode dar uma rápida 'escapada' até o futuro para ver as coisas que lá, naquela escala, já aconteceram, embora não aqui, onde vivemos nós, os lentos. Ao voltar ao corpo físico, reingressa ela em sua dimensão humana habitual, na qual os eventos já vistos do lado de lá ainda não ocorreram.
A previsão, ou seja, a percepção do futuro não seria, por conseguinte, a visão de algo que ainda não aconteceu, mas sim de algo acontecido em uma dimensão diferente da nossa e que, no devido tempo, vai ocorrer aqui para nós, os retardatários do tempo.
A idéia não me repugna.
Vivemos, como encarnados, em uma dimensão e sob condições tais que nos mantêm na posição de verdadeiras lesmas cósmicas, enquanto passam por nós seres super lúcidos, pois eles viajam a velocidades muito superiores à da luz se e quando julgarem conveniente explorar passado e futuro. Nosso condicionamento à lentidão é o preço pesado - nos dois sentidos - que pagamos ao aprendizado em nossa viagem através da matéria densa. Aqui estamos impregnados de átomos, bilhões e bilhões deles, limitados a cinco sentidos básicos, contidos nos estreitos parâmetros de um cérebro biológico - que mesmo assim já é um dos prodígios da natureza -, presos, enfim, a um esquema limitador como o encarcerado, que traz pesada bola de ferro acorrentada aos pés. Somos, portanto, balões cativos; pensantes, mas balões ...
No fundo, como percebe o leitor, minha teoria de que somos viajantes do tempo não se choca com a de Regina, segundo a qual o tempo tem ritmos diferentes se estamos em um ou outro plano vibratório. Somos como a Alice de Lewis Carrol diante do seu espelho mágico. Do lado de cá, o mundo prosaico, lento, pesado, difícil e monótono.
Do outro lado do espelho, tudo é possível, porque temos o domínio do tempo. É um mundo encantado, veloz, fácil, leve, no qual podemos ir ali um pouco mais adiante e ver o caminho por onde iremos passar amanhã, depois, ou daqui a dois mil anos ...
Nas experiências de Regina com o tempo ainda não esgotou para nós suas muitas implicações. Por exemplo: por que, dispondo ela de lucidez, inúmeras vezes comprovada durante seus desdobramentos e sonhos tanto na exploração do passado como do futuro, não trouxe um relato claro no qual as pessoas estivessem perfeitamente identificadas, bem como os pormenores do acidente?
Ela própria nos oferece algumas especulações a respeito desse enigma atribuindo o fenômeno ao seu envolvimento emocional com as pessoas vitimadas. Ao verificar no futuro, que eles iriam morrer, ou melhor, ao encontrá-los mortos em uma dimensão que não era a sua habitual, seu próprio psiquismo tratou de camuflar o episódio que certamente lhe causaria terrível impacto se trazido para a memória de vigília em toda a sua crueza. Por isso, na passagem de uma dimensão para outra, de volta ao seu ambiente natural, desencadeou-se um processo de codificação, ou melhor de simbolização dos eventos, quebrando o impactante realismo das imagens originais a fim de facilitar a sua absorção no plano físico. Mas, como ela mesma adverte, se prestarmos bem atenção ao processo, veremos com facilidade que todos os símbolos são claros e objetivos. E nem poderiam deixar de sê-lo, pois do contrário não teriam sido fiéis na tradução dos fatos. Vejamos: Em primeiro lugar, a parte inicial do sonho ou vidência desenrolou-se na escola, para mostrar que um dos personagens do evento era seu colega de trabalho, ou seja, que trabalhavam no mesmo local. E por que a primeira cena ou quadro foi com a moça e não com o marido? Porque a ligação emocional de Regina era maior com ela, sua amiga Íntima de algum tempo e com a qual tinha melhor sintonia. Segundo: a caminhada pela estrada, de braços dados com o amigo. Uma atitude fraterna, mas sem intimidades, com um sentido implícito. Era como que um companheiro de jornada ou, pelo menos, fora até ali. Quando ela o visse novamente, contudo, ele estaria morto. De fato, ela somente descobriu que estava arrastando um cadáver quando olhou para ele, mas isso depois de caminhar alguns passos com um homem que parece não ter identificado. Terceiro: a terceira pessoa - a moça convidada e que seguiu em seu lugar - Regina mal conhecia. De fato, seu papel na vidência é secundário. Enquanto o contato de Regina com os cadáveres de seus amigos - o casal - foi direto, pois ela puxou a moça morta pelos ombros e arrastou o rapaz pela estrada, também morto, a outra moça ela apenas entreviu dentro do caixão, que lhe parecia como uma transformação onírica do tronco de árvore atravessado na estrada. Quarto: a casa que ela viu à beira da estrada, realmente existia, e lá vivia o radioamador que mandou o recado do acidente. Foi quem acorreu com intenção de prestar os primeiros socorros, chamando o hospital mais próximo da região e comunicando-se com parentes e amigos do casal no Rio, através de um colega, na realidade foi com seu equipamento de rádio que de avisou a família, como que abrindo caminho para que soubessem do acidente após desembaraçados os corpos das vítimas. Enfim, o rádio - que ela viu como um machado - foi o instrumento de desobstrução e comunicação do acidente.
Quinto: a notícia final, transmitida por telefone a Regina, não foi codificada nem disfarçada. Parece que, preparada pelas visões para receber a notícia sem maiores impactos, ela captou o telefonema da madrugada com algumas horas de antecedência e tal como chegaria ao seu conhecimento, ou seja, pelo aparelho da vizinha, precisamente na hora que ela já sabia qual. Tanto foi abrandado esse impacto que, no momento em que a vizinha a chamou pela janela, na manhã seguinte, ela soube, prontamente, do que se tratava. Teve aquela sensação desagradável, mas não foi um momento de imprevisíveis conseqüências. Ela já sabia o que tinha acontecido - e aceitara o inevitável e imutável. Nada havia a fazer! Ainda outro aspecto pode ser suscitado. Embora não explícita, o caso admite a hipótese de uma implícita interferência espiritual com o objetivo de preservar a vida física de Regina, seja porque não tivesse ela compromissos cármicos com aquele tipo de desencarnação, seja porque não fosse ainda chegada sua hora de partir. Isto explicaria o hermetismo da simbologia onírica, que somente se decifrou após o desastre. Para Regina a essência da mensagem pode ser resumida em duas palavras: "Não vá!", que ela captou pela intuição. Estaria criado para ela um grave problema se a mensagem onírica fosse explicitada com clareza, ou seja, se ela conhecesse, com antecedência necessária, a morte trágica.
4. REPLAYS DO PASSADO
Em A memória e o tempo, relatei alguns episódios em que Regina foi buscar nos misteriosos arquivos da memória integral fragmentos de suas existências. Retorno, aqui, ao assunto para uma abordagem diferente, pelas suas implicações no problema da interação animismo/mediunidade. O objetivo dessa retomada é o de suscitar reflexões em torno das complexidades que o médium iniciante costuma enfrentar para definição e afinação das suas faculdades mediúnicas. Estou certo de que a experiência pessoal de Regina será útil a muita gente que, vivendo situações semelhantes ou comparáveis, entra em pânico, passa a ser considerada perturbada, alienada, obsediada ou desajustada, e acaba entregando-se a práticas realmente alienantes, como o uso de drogas ou fantasias místicas.
Raramente a mediunidade surge límpida, sem 'efeitos colaterais', controlada e pronta para ser utilizada nas tarefas para a qual foi programada. Exatamente porque tem a sensibilidade mais aguda é que o médium em potencial está exposto a fenômenos que, de início, lhe são inexplicáveis e logo tidos, por ele inclusive, como alucinatórios e, por conseguinte, sintomas de uma mente em desequilíbrio.
A própria família contribuiu, às vezes, para complicar as coisas, ainda que com a mais pura das intenções, partindo do pressuposto preconceituoso de que a pessoa que vê 'coisas' invisíveis e ouve vozes está maluca. É até possível que haja realmente um processo obsessivo em curso, mas não é o manicômio que irá resolver o problema e sim, agravá-lo.
De várias maneiras, e suscitadas por motivações diversas, ocorriam-lhe regressões.
Algumas puramente anímicas, nas quais ela parecia mergulhar em si mesma por um processo de concentrada introspecção para 'ler' seus registros mnemônicos. Não que provocasse o fenômeno, que não parece produzir-se apenas por um impulso da vontade. De outras vezes entidades amigas desencarnadas interferiam, seja desdobrando-a a partir de um estado de relaxamento, seja no decorrer das horas de sono comum. Havia, contudo, uma constante em tais episódios, quanto à sua motivação. Como ficou dito, ela não os provocava. É certo, porém, que pareciam ocorrer como que em resposta a certas indagações íntimas, diante de situações aparentemente inexplicáveis da vida atual, como enigmas de sua própria personalidade, frustrações, privações e provações de diversa natureza, simpatias por determinadas pessoas ou antipatias gratuitas por outras. Acima de tudo, porém, a situação emocional que mais suscitou tais episódios foram os encontros (na verdade, reencontros) com pessoas que lhe causavam impactos tão graves que, mais de uma vez, ela adoeceu, literalmente, a ponto de ter de guardar o leito por alguns dias.