Mireta – Romance espírita, pelo Sr. Élie Sauvage
“Filha, diz ele, com uma voz que não era mais a sua, por que fixar teu olhar velado de lágrimas neste canto de terra onde depositaram meus despojos mortais? Eleva os olhos para o céu; é lá que o Espírito purificado pelo sofrimento, pelo amor e pela prece, alça vôo para o objeto de suas sublimes aspirações! Que importa à borboleta os restos de seu grosseiro envoltório, desde que ao Sol exibe as asas radiosas? A poeira volta à poeira, a centelha sobe para o seu divino foco. Mas o Espírito deve passar por terríveis provas antes de receber sua coroa. A Terra na qual rasteja o formigueiro humano é um lugar de expiação e de preparação à vida bem-aventurada. Grandes lutas te esperam, pobre criança, mas tem confiança: Deus e os Espíritos bons não te abandonarão. Fé, esperança, amor, seja esta a tua divisa. Adeus.” A obra termina pelo seguinte relato de uma excursão extática dos dois jovens, então casados: “Depois de uma viagem, cuja duração não puderam apreciar, os dois navegantes aéreos abordaram uma terra desconhecida e maravilhosa, onde tudo era luz, harmonia e perfumes, onde a vegetação era tão bela que diferia tanto da nossa quanto a flora dos trópicos difere da da Groelândia e das terras austrais. Os seres que habitavam esse mundo perdido no meio dos mundos pareciam bastante com a idéia que aqui fazemos dos anjos. Seus corpos leves e transparentes nada tinham do nosso grosseiro envoltório terreno, seus rostos irradiavam inteligência e amor. Uns repousavam à sombra de árvores carregadas de frutos e de flores, outros passeavam como essas sombras bem-aventuradas que nos mostra Virgílio em sua encantadora descrição dos Campos Elíseos. As duas personagens que Luciano já tinha visto várias vezes em suas visões precedentes, avançaram com os braços estendidos para os dois viajantes. O sorriso com que os abraçaram os encheu de celeste alegria. Aquele que tinha sido o pai adotivo de Mireta lhe disse com uma doçura inefável: ‘Meus caros filhos, vossas preces e vossas boas obras encontraram graça diante de Deus. Ele tocou a alma do culpado e a manda de volta à vida terrena para expiar suas faltas e se purificar por novas provas, porquanto Deus não castiga eternamente e sua justiça é sempre temperada pela misericórdia.” Eis agora a opinião dos Espíritos sobre esta obra, dada na Sociedade de Paris na sessão em que foi feito o seu relato. (Sociedade de Paris, 4 de janeiro de 1867 – Médium: Sr. Desliens) Cada dia a crença afasta das idéias adversas um espírito irresoluto; cada dia novos adeptos obscuros ou ilustres vêm abrigar-se sob sua bandeira; os fatos se multiplicam e a multidão reflete. Depois os temerosos tomam coragem com duas mãos e, então, gritam: Avante! com toda a força dos pulmões. Os homens sérios trabalham, e a Ciência, moral ou material, romances e novelas, se deixam penetrar pelos princípios novos em páginas eloqüentes. Quantos espíritas sem o saber entre os espiritualistas modernos! Quantas publicações às quais não falta senão uma palavra para serem apontadas à opinião pública como emanando de uma fonte espírita! O ano de 1866 apresenta a filosofia nova sob todas as suas formas; mas é ainda o talo verde que encerra a espiga de trigo e, para a mostrar, espera que o calor da primavera a tenha amadurecido e feito desabrochar. 1866 preparou, 1867 amadurecerá e realizará. O ano se abre sob os auspícios de Mireta e não se escoará sem ver aparecerem novas publicações do mesmo gênero e mais sérias ainda, no sentido de que o romance tornar-se-á filosofia e a filosofia se fará história. Não se fará mais do Espiritismo uma crença ignorada e aceita apenas por alguns cérebros supostamente doentes; será uma filosofia admitida ao banquete da inteligência, uma idéia nova tendo posição ao lado das idéias progressivas, que marcam a segunda metade do século dezenove. Assim, felicitamos vivamente aquele que soube, como primeiro, pôr de lado todo falso respeito humano, para arvorar francamente e claramente sua crença íntima. Dr. Morel Lavallée
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Mês Fevereiro
Ano 1867