Capítulo 4
SISTEMA PESSIMISTA, DIABÓLICO OU DEMONÍACO – Entramos aqui numa outra ordem de ideias. Comprovada a intervenção de uma inteligência estranha, tratava-se de saber de que natureza era essa inteligência. Sem dúvida, o meio mais simples consistia em lhe perguntar isso. Algumas pessoas, contudo, entenderam que esse processo não oferecia garantia suficiente e só quiseram ver nas manifestações uma obra diabólica. Segundo essas pessoas, apenas o diabo, ou o demônio, pode comunicar-se. Embora esse sistema encontre poucos ecos atualmente, gozou por certo tempo de algum crédito, em virtude do próprio caráter dos que tentaram fazer que ele prevalecesse. Salientamos, no entanto, que os partidários do sistema demoníaco não devem ser classificados entre os adversários do Espiritismo: ao contrário. Sejam demônios ou anjos, os seres que se comunicam são sempre seres incorpóreos. Ora, admitir a manifestação dos demônios é admitir a possibilidade de comunicação do mundo visível com o mundo invisível, ou, pelo menos, com uma parte deste último. Compreende-se que a crença na comunicação exclusiva dos demônios, por mais irracional que seja, não tivesse parecido impossível aos que consideravam os Espíritos como seres criados fora da Humanidade. Desde, porém, que se sabe que os Espíritos são simplesmente as almas dos homens que já viveram, ela perdeu todo o seu prestígio e, pode-se dizer, toda a verossimilhança. Admiti-la seria reconhecer que todas essas almas eram demônios, embora fossem as de um pai, de um filho ou de um amigo, e que nós mesmos, morrendo, nos tornaríamos demônios, doutrina pouco lisonjeira e nada consoladora para muita gente. Será bem difícil convencer a uma mãe de que o filho querido que ela perdeu, e que lhe vem dar, depois da morte, provas de sua afeição e de sua identidade, seja um demônio. É verdade que, entre os Espíritos, existem os que são muito maus e que não valem mais do que os chamados demônios, por uma razão bem simples: a de que há homens muito maus que, pelo simples fato de morrerem, não se tornam bons imediatamente. A questão está em saber se só eles podem comunicar-se conosco. Aos que pensam assim, dirigimos as seguintes perguntas: 1ᵃ Há ou não Espíritos bons e maus? 2ᵃ Deus é ou não é mais poderoso do que os Espíritos maus, ou do que os demônios, se assim lhes quiserdes chamar? 3ᵃ Afirmar que só os Espíritos maus se comunicam é dizer que os bons não o podem fazer. Sendo assim, de duas uma: ou isto se dá pela vontade, ou contra a vontade de Deus. Se é contra a sua vontade, os Espíritos maus são mais poderosos do que Ele; se é por sua vontade, por que Deus, em sua bondade, não permitiria que os bons fizessem o mesmo, para contrabalançar a influência dos outros? 4ᵃ Que provas podeis apresentar da impossibilidade de os Espíritos bons se comunicarem conosco? 5ᵃ Quando vos opomos a sabedoria de certas comunicações, respondeis que o demônio usa de todas as máscaras para melhor seduzir. Sabemos, realmente, haver Espíritos hipócritas, que dão à sua linguagem um falso verniz de sabedoria, mas admitis que a ignorância possa simular o verdadeiro saber e uma natureza má imitar a verdadeira virtude, sem deixar vestígio que denuncie a fraude? 6ᵃ Se apenas o demônio se comunica, e sendo ele o inimigo de Deus e dos homens, por que recomenda que se ore a Deus, que nos submetamos à vontade de Deus, que suportemos sem queixas as tribulações da vida, que não ambicionemos as honras, nem as riquezas, que pratiquemos a caridade e todas as máximas do Cristo, em suma: que façamos tudo o que é preciso para destruir o seu império? Se é o demônio quem dá semelhantes conselhos, temos de admitir que, por mais manhoso que seja, ele é bastante inábil ao fornecer armas contra si mesmo.⁴ 7ᵃ Visto que os Espíritos se comunicam, é que Deus o permite. Vendo as boas e as más comunicações, não será mais lógico admitir-se que Deus permita umas para nos experimentar e outras para nos aconselhar ao bem? 8ᵃ Que diríeis de um pai que deixasse o filho à mercê dos exemplos e conselhos perniciosos, que o afastasse de si e o proibisse de ter contato com as pessoas que pudessem desviá-lo do mal? Um bom pai não faria isso. Será lógico, então, admitir-se que Deus, a bondade por excelência, faça menos do que faria um homem? 9ᵃ A Igreja reconhece como autênticas certas manifestações da Virgem e de outros santos, em aparições, visões, comunicações orais etc. Esta crença não está em contradição com a doutrina da comunicação exclusiva dos demônios? Acreditamos que algumas pessoas hajam professado de boa-fé essa teoria, mas também cremos que muitos a adotaram unicamente para não terem que se ocupar com estas coisas, em virtude das más comunicações que todos estão sujeitos a receber. Dizendo que só o diabo se manifesta, quiseram aterrorizar, mais ou menos como se faz com uma criança a quem se diz: não toques nisto, porque queima. A intenção pode ter sido louvável, mas não atingiu o objetivo, visto que a proibição só serve para excitar a curiosidade e o temor do diabo já não reprime quase ninguém. Todos querem vê-lo, ao menos para saber como é feito e ficam muito espantados por não o acharem tão feio como imaginavam. E não se poderia achar também outro motivo para essa teoria exclusiva do diabo? Para muitas pessoas estão errados todos os que não pensam igual a elas. Ora, os que pretendem que todas as comunicações são obra do demônio não serão induzidos a isso pelo receio de que os Espíritos não estejam de acordo com eles sobre todos os pontos, mais ainda sobre os que se referem aos interesses deste mundo, do que sobre os que dizem respeito aos interesses do outro? Não podendo negar os fatos, quiseram apresentá-lo sob forma assustadora, mas esse meio não produziu melhor resultado do que os outros. Onde o temor do ridículo é impotente, deve-se deixar que as coisas sigam seu curso. O muçulmano que ouvisse um Espírito falar contra certas leis do Alcorão, certamente acreditaria tratar-se de um Espírito mau. O mesmo se daria com um judeu, no tocante a algumas práticas da lei de Moisés. Quanto aos católicos, ouvimos um deles dizer que o Espírito que se comunicava só podia ser o diabo, porque se dava ao luxo de pensar de modo diverso do dele, acerca do poder temporal, embora só houvesse pregado a caridade, a tolerância, o amor ao próximo e a abnegação das coisas deste mundo, que o Cristo ensinou em suas máximas. Não sendo os Espíritos senão as almas dos homens e não sendo estes perfeitos, deve-se concluir que há Espíritos igualmente imperfeitos, cujo caráter se reflete nas suas comunicações. Entre eles, é incontestável a existência de Espíritos maus, astuciosos, profundamente hipócritas, contra os quais é preciso que estejamos em guarda. Mas o fato de se encontrarem homens perversos no mundo é motivo para nos afastarmos de toda a sociedade? Deus nos deu a razão e o discernimento para apreciarmos os Espíritos e os homens. O melhor meio de nos precavermos contra os inconvenientes que a prática do Espiritismo pode apresentar consiste em fazê-lo compreendido, e não em proibir o seu exercício. Um temor imaginário só impressiona por um instante e não atinge a todos, ao passo que todos compreendem a realidade claramente demonstrada.
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Parte Primeira
Nome do Capítulo Sistemas
Item 46