Capítulo 5
Gúbio trazia a destra sobre o peito, como se contivesse o coração, mas, vendo por minha vez aquele grande grupo de Espíritos rebelados e humilhados, orgulhosos e vencidos, lastimando amargamente as oportunidades perdidas, recordei meus velhos caminhos de ilusão e — porque não dizer? Ajoelhei-me também, compungido, implorando piedade em silêncio. Exasperado, o julgador bradou, colérico: — Perdão? Quando desculpastes sinceramente os companheiros da estrada? Onde está o juiz reto que possa exercer, impune, a misericórdia? E incidindo toda a força magnética que lhe era peculiar, através das mãos, sobre uma pobre mulher que o fixava, estarrecida, ordenou-lhe com voz soturna: — Venha! Venha! Com expressão de sonâmbula, a infeliz obedeceu à ordem, destacando-se da multidão e colocando-se, em baixo, sob os raios positivos da atenção dele. — Confesse! Confesse! — Determinou o desapiedado julgador, conhecendo a organização frágil e passiva a que se dirigia. A desventurada senhora bateu no peito, dando-nos a impressão de que rezava o “confiteor” () e gritou, lacrimosa: — Perdoai-me! Perdoai-me, ó Deus meu! E como se estivesse sob a ação de droga misteriosa que a obrigasse a desnudar o íntimo, diante de nós, falou, em voz alta e pausada: — Matei quatro filhinhos inocentes e tenros… e combinei o assassínio de meu intolerável esposo… O crime, porém, é um monstro vivo. Perseguiu-me, enquanto me demorei no corpo… Tentei fugir-lhe através de todos os recursos, em vão… e por mais buscasse afogar o infortúnio em “bebidas de prazer”, mais me chafurdei… no charco de mim mesma… De repente, parecendo sofrer a interferência de lembranças menos dignas, clamou: — Quero vinho! Vinho! Prazer!… Em vigorosa demonstração de poder, afirmou, triunfante, o magistrado: — Como libertar semelhante fera humana ao preço de rogativas e lágrimas? Em seguida, fixando sobre ela as irradiações que lhe emanavam do temível olhar, asseverou, peremptório: — A sentença foi lavrada por si mesma! Não passa de uma loba, de uma loba, de uma loba… À medida que repetia a afirmação, qual se procurasse persuadi-la a sentir-se na condição do irracional mencionado, notei que a mulher, profundamente influenciável, modificava a expressão fisionômica. Entortou-se-lhe a boca, a cerviz curvou-se, espontânea, para a frente, os olhos alteraram-se, dentro das órbitas. Simiesca expressão revestiu-lhe o rosto. Via-se, patente, naquela exibição de poder, o efeito do hipnotismo sobre o corpo perispirítico. Em voz baixa, procurei recolher o ensinamento de Gúbio, que me esclareceu num cicio: — O remorso é uma bênção, sem dúvida, por levar-nos à corrigenda, mas também é uma brecha, através da qual o credor se insinua, cobrando pagamento. A dureza coagula-nos a sensibilidade durante certo tempo; todavia, sempre chega um minuto em que o remorso nos descerra a vida mental aos choques de retorno das nossas próprias emissões. E acentuando, de modo singular, a voz quase imperceptível, acrescentou: — Temos aqui a gênese dos fenômenos de licantropia, inextricáveis, ainda, para a investigação dos médicos encarnados. Lembras-te de Nabucodonosor, () o rei poderoso, a que se refere a Bíblia? Conta-nos o Livro Sagrado que ele viveu, sentindo-se animal, durante sete anos. O hipnotismo é tão velho quanto o mundo e é recurso empregado pelos bons e pelos maus, tomando-se por base, acima de tudo, os elementos plásticos do perispírito. Notando, porém, que a mulher infeliz prosseguia guardando estranhos caracteres no semblante perguntei: — Esta irmã infortunada permanecerá doravante em tal aviltamento da forma? Finda longa pausa, o Instrutor informou, com tristeza: — Ela não passaria por esta humilhação se não a merecesse. Além disso, se se adaptou às energias positivas do juiz cruel, em cujas mãos veio a cair, pode também esforçar-se intimamente, renovar a vida mental para o bem supremo e afeiçoar-se à influenciação de benfeitores que nunca escasseiam na senda redentora. Tudo, André, em casos como este, se resume a problema de sintonia. Onde colocamos o pensamento, aí se nos desenvolverá, a própria vida. O orientador não conseguiu continuar. Ao redor de nós, as lamentações se fizeram estridentes. Interjeições de espanto e dor eram proferidas sem rumo. O magistrado, que detinha a palavra, determinou silêncio e exprobrou, asperamente, a atitude dos queixosos. Logo após, notificou que os Espíritos Seletores se materializariam, em breves minutos, e que os interessados poderiam solicitar deles as explicações que desejassem. Concomitantemente, ergueu as mãos em mímica reverencial e, fazendo-nos sentir que presidia ao estranho cenáculo, fez uma invocação em alta voz, denunciando, nos gestos, a condição de respeitável hierofante, em grande solenidade. Terminada que foi a alocução, vasto lençol nebuloso, semelhante a uma nuvem móvel, apareceu na tribuna que se mantinha, até então, despovoada. E pouco a pouco, diante de nossos olhos assombrados, três entidades tomaram forma perfeitamente humana, apresentando uma delas, a que no porte guardava maior autoridade hierárquica, pequeno instrumento cristalino nas mãos. Trajavam túnicas de curiosa e indefinível substância em amarelo vivo e revestiam-se de halo afogueado, não brilhante. Essa auréola, mais acentuadamente viva em volta da fronte, desferia radiações perturbadoras, que recordavam a esbraseada expressão do ferro incandescido. Ambos os acólitos da personalidade central do trio tomaram folhas de apontamento num cofre vizinho e, ladeando-a, desceram até nós, em silêncio. Inesperada quietação tomou a turba, dantes agitada. Ainda não sei de que recôndita organização provinham tais funcionários espirituais; no entanto, reparei que o chefe da expedição tríplice mostrava infinita melancolia na tela fisionômica. Alçou ele o instrumento cristalino, à frente do primeiro grupo, formado de catorze homens e mulheres de vários tipos. Efetuou observações que não pude acompanhar e disse algo aos companheiros que se dispuseram à anotação imediata. Antes, porém, que se retirasse, dois membros do conjunto avançaram implorando socorro: — Justiça! Justiça! — Suplicou o primeiro, — estou punido sem culpa… Fui homem de pensamento e de letras, entre as criaturas encarnadas… Porque deverei suportar a companhia dos avarentos? Fitando o seletor, angustiadamente, reclamou: — Se escolheis com equidade, livrai-me do labirinto em que me vejo! Não terminara, e o segundo interferiu, ajuntando: — Magistrado venerável, por quem sois!… Não pertenço à classe dos sovinas. Imantaram-me a seres sórdidos e desprezíveis! Minha vida transcorreu entre livros, não entre moedas… A Ciência fascinou-me, os estudos eram meu tema predileto… Pode, assim, o intelectual equiparar-se ao usurário? O dirigente da seleção mostrou reservada piedade no semblante calmo e elucidou, firme: — Clamais debalde, porque desagradável vibração de egoísmo cristalizante vos caracteriza a todos. Que fizestes do tesouro cultural recebido? Vosso “tom vibratório” demonstra avareza sarcástica. O homem que ajunta letras e livros, teorias e valores científicos, sem distribuí-los a benefício dos outros, é irmão infortunado daquele que amontoa moedas e apólices, títulos e objetos preciosos, sem ajudar a ninguém. O mesmo prato lhes serve na balança da vida. — Por amor de Deus! — Suplicou um dos circunstantes, comovedoramente. — Esta casa é de justiça, em nome do Governo do Mundo! — Afiançou o explicador sem alterar-se. E impassível, embora visivelmente amargurado, pôs-se em marcha. Auscultava uma formação de oito pessoas; todavia, enquanto se comunicava com os assessores, acerca das observações recolhidas, um cavalheiro de faces macilentas salientou-se e exclamou, estadeando enorme fúria: — Que ocorre neste recinto misterioso? Estou entre caluniadores confessos, quando desempenhei o papel de homem honrado… Criei numerosa família, nunca traí as obrigações sociais, fui correto e digno e, não obstante aposentado desde cedo, cumpri todos os deveres que o mundo me assinalou… Com acento colérico, aduzia, aflito: — Quem me acusa?… Quem me acusa?… O selecionador elucidou, sereno: — A condenação transparece de vós mesmo. Caluniastes vosso próprio corpo, inventando para ele impedimentos e enfermidades que só existiam em vossa imaginação, interessada na fuga ao trabalho benéfico e salvador. Debitastes aos órgãos robustos deficiências e moléstias deploráveis, tão somente no propósito de conquistardes repouso prematuro. Conseguistes quanto pretendíeis. Empenhastes amigos, subornastes consciências delituosas e obtivestes o descanso remunerado, durante quarenta anos de experiência terrestre em que outra ação não desenvolvestes senão dormir e conversar sem proveito. Agora, é razoável que o vosso círculo vital se identifique ao de quantos se mergulharam no pântano da calúnia criminosa. O infeliz não teve forças para a tréplica. Submeteu-se, em lágrimas, à argumentação ouvida e retomou o lugar que lhe competia. Alcançando o terceiro grupo, constituído de mulheres diversas, mal havia aplicado o singular instrumento ao campo vibratório que lhes dizia respeito, foi o mensageiro abordado por uma senhora, pavorosamente desfigurada, que lhe lançou em rosto atrozes queixas. — Porque tamanha humilhação? — Inquiriu em pranto copioso, — fui dona de uma casa que me encheu de trabalho, voltei para cá rodeada de especiais considerações, naturalmente devidas ao meu estado social e arrebanham-me entre mulheres sem pudor?
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Nome do Capítulo Operações seletivas