Fatos inúmeros se têm multiplicado, oferecendo novos subsídios acerca da natureza, da vida e da ininterrupta evolução dos seres. Esses fatos foram pela ciência devidamente autenticados. Importa agora interpretá-los, pô-los em evidência e, sobretudo, deduzir-lhes a lei, as conseqüências e tudo o que deles pode resultar para a existência individual e social.
Esses fatos vão despertar no íntimo das consciências as verdades aí adormecidas. Eles restituirão ao homem a esperança, com o elevado ideal que esclarece e fortifica. Provando que não morremos inteiramente, encaminharão os pensamentos e os corações para essas vidas ulteriores em que a justiça encontra a sua aplicação.
Todos, por esse meio, compreenderão que a vida tem um objetivo, que a lei moral tem uma realidade e uma sanção; que não há sofrimentos inúteis, trabalho sem proveito, nem provas sem compensação; que tudo é pesado na balança do divino Justiceiro.
Em lugar desse campo cerrado da vida em que os fracos sucumbem fatalmente, em lugar dessa gigantesca e cega máquina do mundo que tritura as existências e de que nos falam as filosofias negativas, o Novo Espiritualismo fará surgir, aos olhos dos que pesquisam e dos que sofrem, a portentosa visão de um mundo de eqüidade, de amor e de justiça, onde tudo é regulado com ordem e sabedoria, harmonicamente.
E dessa forma será atenuado o sofrimento, assegurado o progresso do homem, santificado o seu trabalho; a vida se revestirá de maior dignidade e enobrecimento. Porque o homem tem tanta necessidade de uma crença como de uma pátria, como de um lar. É o que explica que formas religiosas, envelhecidas e caducas, conservem ainda os seus adeptos. Há no coração humano tendências e necessidades que nenhum sistema negativo poderá jamais satisfazer. Mau grado à dúvida que a oprime, desde que a alma sofre, instintivamente se volta para o céu. Faça o que fizer, o homem torna a encontrar o pensamento de Deus nas cantilenas que no berço o embalaram, nos sonhos da sua infância, como nas silenciosas meditações da idade adulta.
Há certas horas, não pode o céptico mais endurecido contemplar o infinito constelado, o curso dos milhões de sóis que na imensidade se efetua, nem passar diante da morte, sem perturbação e sem respeito.
Sobranceira às vãs polêmicas, às discussões estéreis, há uma coisa que escapa a todas as críticas: é essa aspiração da alma humana a um ideal eterno, que a sustenta em suas lutas, consola nas provações, e nas horas das grandes resoluções é a sua inspiradora; é essa intuição do que, por trás da cena em que se desenrolam os dramas da vida e o grandioso espetáculo da natureza, oculta-se um poder, uma causa suprema, que lhes regulou as fases sucessivas e traçou as linhas de sua evolução.
Onde, porém, encontrará o homem a segura rota que o conduza a Deus? Onde haurir a inabalável convicção que, de estádio em estádio, o guiará através dos tempos e do espaço, para o supremo fim das existências? Qual será, numa palavra, a crença do futuro?
As formas materiais e transitórias da religião passam, mas a vida religiosa, a crença pura, desembaraçada de todas as formas inferiores é, em sua essência, indestrutível. O ideal religioso evolverá, como todas as manifestações do pensamento. Ele não poderia escapar à lei do progresso que rege os seres e as coisas.
A futura fé que já emerge dentre as sombras não será nem católica nem protestante; será a crença universal das almas, a que reina em todas as sociedades adiantadas do espaço, e mediante a qual cessará o antagonismo que separa a ciência atual da religião. Porque, com ela, a ciência tornar-se-á religiosa, e a religião se há de tornar científica.
Ela se apoiará na observação, na experiência imparcial, nos fatos milhares de vezes repetidos.
Mostrando-nos as realidades objetivas do mundo dos espíritos, dissipará todas as dúvidas, destruirá as incertezas; a todos franqueará infinitas perspectivas do futuro.
Em certas épocas da História, passam sobre o mundo correntes de idéias que vêm arrancar a Humanidade ao seu torpor. Sopros vindos do alto encrespam a imensa vaga humana e, graças a eles, brotam da sombra as verdades esquecidas na caligem dos séculos. Elas surgem das mudas profundezas em que dormem os tesouros das forças ocultas, onde se combinam os elementos renovadores, onde se elabora a obra misteriosa e divina. Manifestam-se, então, sob inesperadas formas; reaparecem e revivem.
Em começo repudiadas, escarnecidas pela multidão, prosseguem, todavia, impassíveis, serenas, o seu caminho. E chega um dia em que se é forçado a reconhecer que essas verdades repelidas vinham oferecer o pão da vida, o cálice da esperança, a todas as almas sofredoras e dilaceradas; que nos traziam nova base de ensinamento e, porventura também, um meio de reabilitação moral. Tal a situação do moderno Espiritualismo, em que renascem tantas verdades há séculos ocultas. Em seu contexto ele resume as crenças dos sábios e dos antigos celtas, nossos pais; ressurge sob mais imponentes formas, para encaminhar a um novo ciclo ascensional a Humanidade em marcha.