Na vossa última encarnação tínheis consciência do mal praticado na existência anterior? – R. Somente nos últimos anos, e eis como. Eu era bom por natureza, e depois de submetido, como todos os homicidas, ao tormento da visão contínua da vítima, que me perseguia qual vivo remorso, dela me libertei depois de muitos anos, pelo arrependimento e pela prece. Recomecei outra existência — a última — que atravessei calmo e tímido. Tinha em mim como que vaga intuição da minha inata fraqueza, bem como da falta anterior, cuja lembrança guardava em estado latente. Mas um Espírito obsessor e vingativo, que não era outro senão o pai da minha vítima, facilmente se apoderou de mim, fazendo reviver em meu coração, como se fosse num espelho mágico, as terríveis lembranças do passado.
Ora influenciado por ele, ora por meu guia, que me protegia, eu era o envenenador e ao mesmo tempo o pai de família a ganhar pelo trabalho o sustento dos filhos. Fascinado por esse demônio obsessor, deixei-me arrastar ao suicídio. Sou muito culpado, é verdade, porém menos do que se o tivesse deliberado por mim mesmo. Os suicidas da minha categoria, incapazes por sua fraqueza de resistir aos Espíritos obsessores, são menos culpados e menos punidos do que os que tiram a vida por efeito exclusivo da própria vontade. Orai comigo para que o Espírito que tão fatalmente me influenciou renuncie à sua vingança, e orai por mim para que adquira a energia, a força necessária para não ceder à prova do suicídio voluntário a que serei submetido, dizem-me, na próxima encarnação.