Capítulo 13
A esposa do médium, ao pé dele, não obstante prolongadas vigílias e sacrifícios estafantes, que a expressão fisionômica denunciava, mantinha-se firme a seu lado, olhos vermelhos de chorar, emitindo forças de retenção amorosa que prendiam o moribundo em vasto emaranhado de fios cinzentos, dando-nos a impressão de peixe encarcerado em rede caprichosa. Jerônimo apontou-a, bondoso, e explicou: — Nossa pobre amiga é o primeiro empecilho a remover. Improvisemos temporária melhora para o agonizante, a fim de sossegar-lhe a mente aflita. Somente depois de semelhante medida conseguiremos retirá-lo, sem maior impedimento. As correntes de força, exteriorizadas por ela, infundem vida aparente aos centros de energia vital, já em adiantado processo de desintegração. Recomendou o Assistente que Luciana e Hipólito se mantivessem ao lado da senhora, modificando-lhe as vibrações mentais, e instruindo-me para coadjuvar-lhe a influenciação, como se fazia mister. Enquanto mantinha as mãos coladas ao cérebro de Dimas, propiciando-lhe a renovação das forças gerais, Jerônimo aplicava-lhe passes longitudinais, desfazendo os fios magnéticos que se entrecruzavam sobre o corpo abatido. Reparei que o moribundo se encontrava já em dolorosas condições. Plenamente desorganizado, o fígado começava definitivamente a paralisar suas funções. O estômago, o pâncreas e o duodeno apresentavam anomalias estranhas. Os rins pareciam praticamente mortos. Os glomérulos prendiam-se aos ramos arteriais como pequeninos botões arroxeados; os tubos coletores, enrijecidos, prenunciavam o fim do corpo. Sintomas de gangrena pesavam em toda a atmosfera orgânica. O que mais impressionava, porém, era a movimentação da fauna microscópica. Corpúsculos das mais variadas espécies nadavam nos líquidos acumulados no ventre, concentrando-se particularmente no ângulo hepático, como a buscarem alguma coisa, com avidez, nas vizinhanças da vesícula. O coração trabalhava com dificuldade. Enfim, o enfraquecimento atingira o auge. — Precisamos fornecer-lhe melhoras fictícias, — asseverou o dirigente de nossas atividades, — tranquilizando-lhe os parentes aflitos. A câmara está repleta de substâncias mentais torturantes. O Assistente principiou, então, a exercer intensivamente sua influência. Dimas, de raciocínio obnubilado pela dor, não divisava a nossa presença. Os atritos celulares, pelo rápido desenvolvimento dos vírus portadores do coma, impediam-lhe percepções claras. As proveitosas faculdades mediúnicas que ele possuía haviam caído em temporário eclipse, ante os choques do sofrimento. Era, porém, extremamente sensível à atuação magnética. Pouco a pouco, com a interferência de Jerônimo, o amigo acalmou-se, respirou em ritmo quase normal, abriu os olhos fundos e exclamou, reconfortado: — Graças a Deus! Louvado seja Deus! Um dos filhos, a contemplá-lo, de olhos súplices, seguiu-lhe as palavras, ansioso, indagando num gesto de alívio: — Melhorou, papai? — Oh! Sim, meu filho, agora respiro mais livremente… — Sente os amigos espirituais ao seu lado? — Tornou o rapaz, cheio de fé. O enfermo sorriu, algo triste, e retrucou: — Não. Quero crer que o sofrimento físico cerrou a porta que me comunicava com a Esfera invisível. Mesmo assim, estou muito confiante. Jesus não nos desampara. Fixou a companheira em lágrimas e aduziu: — Todos nós experimentaremos a solidão nos grandes momentos de aferir valores espirituais. Estou convencido de que os nossos Guias do Plano Superior não me olvidarão as necessidades… entretanto… não devo esperar que tomem cuidado permanente comigo… Falava em voz quase imperceptível, em virtude do abatimento, entrecortando as palavras na respiração opressa. A senhora, vacilante, estava inteiramente amparada por Luciana, que a abraçava, afetuosa. Viam-se-lhe os sinais de angustioso cansaço. Lágrimas espessas corriam-lhe dos olhos congestionados. Jerônimo, agora, pousava a destra na fronte do moribundo, proporcionando-lhe força, inspiração e ideias favoráveis ao desdobramento de nossos serviços. Dimas mostrou novo brilho no olhar, encarou a companheira, esforçando-se por parecer tranquilo, e rogou: — Querida, vá descansar!… Peço-lhe… Tantas noites a fio, de sentinela, acabarão por aniquilá-la. Que será de mim, doente e exausto, se o desânimo surpreender-nos a todos?! Fez mais longo intervalo e prosseguiu: — Repouse a meu pedido. Ficaria tão satisfeito se a visse mais forte… Não se retarde. Sinto-me muito melhor e sei que o dia será de calma e reconforto. Cedendo às instâncias do esposo e docemente constrangida pela influência de Luciana e Hipólito, a matrona recolheu-se ao quarto. Em vista das melhoras obtidas, houve expansão de júbilo familiar. O médico foi chamado. Radiante, o clínico asseverou que os prognósticos contrariavam suposições anteriores. Renovou as indicações, dispensou os anestésicos e recomendou ao pessoal doméstico que entregasse o doente ao repouso absoluto. Dimas acusava melhoras surpreendentes. Era razoável, portanto, que a câmara fosse deixada em silêncio para que ele tivesse um sono reparador. O esculápio atendia-nos ao desejo. Em breves minutos, o compartimento ficou solitário, facilitando-nos o serviço. O Assistente distribuiu trabalho a todos nós. Hipólito e Luciana, depois de tecerem uma rede fluídica de defesa, em torno do leito, para que as vibrações mentais inferiores fossem absorvidas, permaneceram em prece ao lado, enquanto eu mantinha a destra sobre o plexo solar do agonizante. — Iniciaremos, agora, as operações decisivas, — declarou-nos Jerônimo, resoluto, — antes, porém, forneçamos ao nosso amigo a oportunidade da oração final. O Assistente tocou-o, demoradamente, na parte posterior do cérebro. Vimos que o agonizante passou a emitir pensamentos luminosos e belos. Não nos via, nem nos ouvia, de maneira direta, mas conservava a intuição clara e ativa. Sob o controle de Jerônimo, experimentou imperiosa necessidade de orar e, embora os lábios cansados prosseguissem imóveis, assinalamos a rogativa mental que endereçava ao Divino Mestre: — Meu Senhor Jesus Cristo, creio que atingi o fim de meu corpo, do corpo que me deste, por algum tempo, como dádiva preciosa e bendita. Eu não sei, Senhor, quantas vezes feri a máquina fisiológica que me confiaste. Inconscientemente, quebrei-lhe as peças com o meu descaso, menosprezando patrimônios sagrados, cujo valor estou reconhecendo em mais de doze meses de sofrimento carnal incessante. Não te posso implorar a bênção da morte pacífica, porque nada fiz de bom ou de útil por merecê-la. Mas se é possível, Amado Médico, socorre-me com o teu compassivo e desvelado amor! Curaste paralíticos, cegos e leprosos… Porque te não compadecerás de mim, miserável peregrino da Terra?… Seus olhos deixaram escapar lágrimas abundantes. Após breves minutos, observamos que o agonizante recordava a meninice distante. Na tela miraculosa da memória, revia o colo materno e sentia sede do carinho de mãe. Oh! Se pudesse contar com o socorro da abençoada velhinha que a morte arrebatara há tantos anos! — Refletia. Premido pelas doces reminiscências, modificou o quadro da súplica, lembrou a cena da crucificação de Jesus, insistiu mentalmente por vislumbrar o vulto sublime de Maria e, sentindo-se de joelhos, diante dela, implorou: — Mãe dos Céus, mãe das mães humanas, refúgio dos órfãos da Terra, sou agora, também, o menino frágil com fome do afeto maternal nesta hora suprema! Oh! Senhora Divina, mãe de meu Mestre e de meu Senhor, digna-te abençoar-me! Lembra que teu filho divino pôde ver-te no derradeiro instante e intercede por mim, mísero servo, para que eu tenha minha santa mãe ao meu lado no minuto de partir!… Socorre-me! Não me abandones, anjo tutelar da Humanidade, bendita entre as mulheres! Ó providência maravilhosa do Céu! Convertera-se o coração do moribundo em foco radioso e a porta de acesso deu entrada a venerável anciã, coroada de luz semelhando neve luminosa. Ela se aproximou de Jerônimo e informou, após desejar-nos a paz divina: — Sou a mãe dele… O Assistente comentou a urgência da tarefa que nos aguardava e confiou-lhe o depósito querido. Em breves instantes, tínhamos perante os olhos inolvidável quadro afetivo. Sentara-se a velhinha no leito, depondo a cabeça do moribundo no regaço acolhedor, afagando-a com as mãos cariciosas. Em virtude do reforço valioso no setor da colaboração, Hipólito e Luciana, atendendo ao nosso dirigente, foram velar pelo sono da esposa, para que as suas emissões mentais não nos alterassem o esforço. No recinto, permanecemos os três apenas. Dimas, experimentando indefinível bem-estar no regaço materno, parecia esquecer, agora, todas as mágoas, sentindo-se amparado como criança semi-inconsciente, quase feliz. Ordenou Jerônimo que me conservasse vigilante, de mãos coladas à fronte do enfermo, passando, logo após, ao serviço complexo e silencioso de magnetização. Em primeiro lugar, insensibilizou inteiramente o vago, para facilitar o desligamento nas vísceras. A seguir, utilizando passes longitudinais, isolou todo o sistema nervoso simpático, neutralizando, mais tarde, as fibras inibidoras no cérebro. Descansando alguns segundos, asseverou: — Não convém que Dimas fale, agora, aos parentes. Formularia, talvez, solicitações descabidas. Indicou o desencarnante e comentou, sorrindo: — Noutro tempo, André, os antigos acreditavam que entidades mitológicas cortavam os fios da vida humana. Nós somos Parcas autênticas, () efetuando semelhante operação…
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