Capítulo 4
(O Espírito dirige-se ao médium, que o conhecera em vida.) “Vou contar-te o meu sofrimento quando morri. Meu Espírito, preso ao corpo por laços materiais, teve grande dificuldade em desembaraçar-se, o que já foi, por si, uma rude angústia. A vida que deixava aos 24 anos era ainda tão vigorosa que eu não podia crer na sua perda. Por isso procurava o corpo, estava espantado, apavorado por me ver perdido num turbilhão de sombras. Por fim, a consciência do meu estado e a revelação das faltas que havia cometido em todas as minhas encarnações, me feriram subitamente, enquanto uma luz implacável iluminava os mais secretos recônditos da alma, que se sentia desnuda e logo tomada de acabrunhante vergonha. Procurava fugir a essa influência interessando-me pelos novos objetos que me cercavam, mas que, no entanto, já conhecia. Os Espíritos luminosos, flutuando no éter, davam-me a ideia de uma felicidade a que eu não podia aspirar; formas sombrias e desoladas, ora mergulhadas em tedioso desespero, ora irônicas ou furiosas, deslizavam em torno de mim ou por sobre a terra a que me chumbava. Eu via os humanos se agitarem, cuja ignorância invejava; toda uma ordem de sensações desconhecidas, ou, antes, reencontradas, invadiram-me simultaneamente. Como que arrastado por força irresistível, procurando fugir à dor intensa que me devastava, franqueava as distâncias, os elementos, os obstáculos materiais, sem que as belezas naturais e tampouco os esplendores celestes pudessem acalmar um instante sequer a dor acerba da consciência, nem o pavor que me causava a revelação da eternidade. “Um mortal é capaz de pressentir as torturas materiais pelos arrepios da carne, mas as vossas frágeis dores, amenizadas pela esperança, atenuadas por distrações ou mortas pelo esquecimento, não vos darão nunca a ideia das angústias de uma alma que sofre sem tréguas, sem esperança, sem arrependimento. Decorrido um tempo cuja duração não posso ­apreciar, invejando os eleitos cujos esplendores entrevia, detestando os Espíritos maus que me perseguiam com as suas zombarias, desprezando os homens cujas torpezas eu via, passei de profundo abatimento a uma revolta insensata. Finalmente me evocaste e, pela primeira vez, um sentimento suave e terno me acalmou; ouvi os ensinos que te dão os teus guias, a verdade se me impôs e orei; Deus me ouviu e se me revelou por sua clemência, como já se havia revelado a mim por sua justiça.” Novel
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Parte Segunda
Nome do Capítulo Espíritos sofredores
Tema Novel