Capítulo 7
(Bordeaux, 1862.) Sob este nome, um Espírito se apresenta espontaneamente ao médium, habituado a este gênero de manifestações, pois sua missão parece ser a de assistir os Espíritos inferiores que o seu guia espiritual lhe conduz, no duplo propósito da sua própria instrução e do progresso daqueles. P. Quem sois? Este nome é de homem ou de mulher? – R. De homem, e tão infeliz quanto possível. Sofro todos os tormentos do inferno. P. Mas se o inferno não existe, como podeis sofrer-lhes as torturas? – R. Pergunta inútil. P. Compreendo, mas outros precisam de explicações. – R. Isso pouco me incomoda. P. O egoísmo não será uma das causas do vosso sofrimento? – R. Talvez. P. Se quiserdes ser aliviado, começai repudiando as más tendências. – R. Não te incomodes com o que não é da tua conta; começa orando por mim, como fazes com os outros, e depois veremos. P. Se não me auxiliardes com o vosso arrependimento, a prece será de pouca eficácia. – R. Mas falando, em vez de orares, menos ainda me adiantarás. P. Então desejais adiantar-vos? – R. Talvez... não sei. Vejamos o essencial, isto é, se a prece alivia os sofrimentos. P. Unamos então os nossos pensamentos com a firme vontade de obter o vosso alívio. – R. Tudo bem. P. [Depois da prece do médium] – Estais satisfeito? – R. Não como gostaria. P. Mas o remédio, aplicado pela primeira vez, não pode curar instantaneamente um mal antigo. – R. É possível... P. Quereis voltar? – R. Se me chamares. O guia da médium – “Minha filha, terás muito trabalho com este Espírito endurecido; entretanto, quase que não há mérito em salvar os que não estão perdidos. Coragem, perseverança, e acabarás triunfando. Não há culpados que não se possam regenerar por meio da persuasão e do exemplo, uma vez que os Espíritos mais perversos terminam por corrigir-se com o tempo. Mesmo que nem sempre se consiga regenerá-los prontamente, nosso trabalho não se perde. As ideias que lhes transmitimos acabam por levá-los à reflexão. São como sementes que, cedo ou tarde, haverão de frutificar. Não se arrebenta a rocha com a primeira marretada. “Isto que te digo pode aplicar-se também aos encarnados e tu deves compreender por que o Espiritismo, mesmo entre os adeptos mais crentes, não faz imediatamente homens perfeitos. A crença é o primeiro passo; a fé vem em seguida e a transformação acabará por operar-se. Entretanto, para que assim suceda, muitos terão que se retemperar no mundo espiritual.” Entre os Espíritos endurecidos, não há só perversos e maus, sendo grande o número dos que, sem fazer o mal, estacionam por orgulho, indiferença ou apatia. Nem por isso estes são menos infelizes, pois tanto mais os aflige a inércia quanto mais se veem privados das distrações do mundo. A perspectiva do infinito torna intolerável a posição deles, porém não têm nem força nem vontade para romper com essa situação. Referimo-nos aos que, no curso das encarnações, levam uma existência ociosa, inútil a si e ao próximo, acabando muita vez no suicídio, sem motivos sérios, por desgosto da vida. Em regra, tais Espíritos são mais difíceis de serem reconduzidos ao bem do que os francamente maus, visto como estes ao menos dispõem de energia e, uma vez doutrinados, votam-se ao bem com o mesmo ardor que lhes inspirava o mal. Muitas encarnações, sem dúvida, são necessárias aos outros, a fim de que progridam sensivelmente. Então, pouco a pouco, vencidos pelo tédio, como os outros o serão pelo sofrimento, procurarão, para se distraírem, uma ocupação qualquer, que mais tarde venha transformar-se em necessidade.
TAG Valor
Parte Segunda
Nome do Capítulo Espíritos endurecidos
Tema Xumène