O governador teve grande embaraço para pronun ciar o “veredictum”. De um lado, via os anciães de Israel em atitude quase colérica, reclamando direitos de raça; do outro, contemplava o Apóstolo do Evangelho, calmo, imperturbável, senhor espiritual do assunto, a esclarecer todos os pontos obscuros do processo singular, com a sua palavra elegante e refletida. Reconhecendo o extremo valor daquele homem fran zino e envelhecido, cujos cabelos pareciam encanecidos por doloros as e sagradas experiências, o governador Félix modificou, apressadamente, suas primeiras impressões e encerrou os trabalhos nestes termos: — Senhores, reconheço que o processo é mais grave do que julguei à primeira vista. Neste caso, resolvo adiar a senten ça definitiva, até que o tribuno Cláudio Lísias seja convenientemente ouvido. Os anciães morderam os lábios. Debalde o sumo -sacerdote solicitou a continuação dos trabalhos. O man datário de Roma não modificou o ponto de vista e a grande assembléia dissolv eu-se, com imenso pesar dos israelitas constrangidos a regressar, extremamente desa pontados. Félix, entretanto, passou a considerar o prisioneiro com maior deferência. No dia seguinte, foi visitá -lo, concedendo-lhe permissão para receber os amigos na sala do expediente. Depreendendo que Paulo gozava de grande prestígio entre e perante todos os seguidores da doutrina do profeta nazareno, imaginou, desde logo, tirar algum proveito da situação. Cada vez que o visi tava, surpreendia-lhe maior acuidade mental, a interessá-lo pela sua palestra viva e palpitante de observações sábias, no conceito e na experiência da vida. Certo dia, o governador abordou jeitosamente o prisma dos interesses pessoais, insinuando-lhe a vantagem da sua libertação, de maneira a atend er às aspirações da comunidade cristã, a que emprestava tanto relevo. Paulo, porém, observou resoluto: — Não sou tanto de vossa opinião. Sempre consi derei que a primeira virtude do cristão é estar pronto para obedecer à vontade de Deus, em qualquer parte. Certo, não estou detido à revelia de sua assistência e proteção, e desta forma acredito que Jesus julga melhor conservar -me prisioneiro, nos dias que correm. Servi-lo-ei, pois, como se estivesse em plena liberdade de corpo. — Entretanto, continuou Félix, sem coragem para ferir diretamente o ponto —, vossa independência não seria coisa muito difícil. — Como assim? — Não tendes amigos ricos e influentes em todos os recantos provinciais? — interrogou o preposto gover namental, de maneira ambígua. — Que desejais dizer com isso? — perguntou o Apóstolo por sua vez. — Creio que se conseguísseis o dinheiro suficiente para atender aos interesses pessoais de quantos hajam de funcionar no processo, estaríeis completamente livre da ação da justiça, dentro de poucos di as. Paulo compreendeu as insinuações mal veladas e nobremente revidou: - Percebo agora. Falais de uma justiça condicio nada ao capricho criminoso dos homens. Essa justiça não me interessa. Ser -me-á preferível conhecer a morte no cárcere, a servir de obstáculo à redenção espiritual do mais humilde dos funcionários de Cesaréia. Dar -lhes dinheiro em troca de uma independência ilícita, seria habituá-los ao apego dos bens que lhes não pertencem. Minha atividade seria, então, um esforço reconhecidam ente perverso. Além do mais, quando temos a consciên cia pura, ninguém nos pode tolher a liberdade e eu me sinto aqui tão livre como lá fora, na praça pública. O governador recebeu a observação franca e áspera, disfarçando o seu enleio. A lição humilhava-o duramente e, desde então, desinteressou -se da causa. Já havia, porém, comentado, entre os amigos mais íntimos, a privi legiada inteligência do prisioneiro de Cesaréia e, daí a dias, sua jovem esposa Drusila manifestava-lhe o desejo de conhecer e o uvir o Apóstolo. A seu mau grado, não podendo esquivar -se, acabou por levá-la à presença do ex-rabino. Judia de origem, Drusila não se contentou, qual fizera o marido, com simples indagações superficiais. Desejosa de sondar -lhe as idéias mais profundas, pediu-lhe um comentário geral da nova doutrina que esposara e procurava difundir. Perante destacadas figuras da Corte Provincial, o va loroso Apóstolo dos gentios fez brilhante panegírico do Evangelho, ressaltando a inolvidável exemplificação do Cristo e os deveres do proselitismo que repontava de todos os recantos do mundo. A maioria dos ouvintes escutava -o com evidentes mostras de interesse; mas, quando ele co meçou a falar da ressurreição e dos deveres do homem em face das responsabilidades no mundo espiri tual, o governador fez-se pálido e interrompeu a pregação. — Por hoje basta! — disse com autoridade. — Meus familiares poderão ouvir-vos de outra feita, se lhes aprouver, pois quanto a mim não creio na existência de Deus. Paulo de Tarso recebeu a observaçã o com serenidade e respondeu com benevolência: — Agradeço a delicadeza da vossa declaração e todavia, senhor governador, ouso encarecer -vos a necessidade de ponderar o assunto, porque, quando um homem afirma não aceitar a paternidade do Todo -Poderoso, é que, em regra, se arreceia do julgamento de Deus. Félix lançou-lhe um olhar raivoso e retirou -se com os seus, prometendo a si próprio deixar o prisioneiro entregue à sua sorte. À vista disso, embora respeitado pela franqueza e lealdade, Paulo houve de amargar dois anos de reclusão em Cesaréia, tempo esse aproveitado em relações constantes com as suas igrejas bem -amadas. Inumeráveis mensagens iam e vinham, trazendo consultas e levando pareceres e instruções. A esse tempo, o ex-doutor de Jerusalém chamou a at enção de Lucas para o velho projeto de escrever uma biografia de Jesus, valendo -se das informações de Maria; lamentou não poder ir a Éfeso, incumbindo -o desse trabalho, que reputava de capital importância para os adeptos do Cristianismo, O médico amigo satisfez-lhe integralmente o desejo, legando à posteridade o precioso relato da vida do Mestre, rico de luzes e esperanças divinas. Terminadas as anotações evangélicas, o espírito dinâmico do Apóstolo da gentilidade encareceu a neces sidade de um trabalho qu e fixasse as atividades apostólicas logo após a partida do Cristo, para que o mundo conhecesse as gloriosas revelações do Pentecostes, e assim se originou o magnífico relatório de Lucas, que é — Atos dos Apóstolos. Não obstante a condição de prisioneiro, o convertido de Damasco não relaxou o trabalho um só dia, va lendo-se de todos os recursos ao seu alcance, em favor da difusão da Boa Nova. O tempo corria célere. Os israelitas, no entanto, nunca desistiram do primitivo plano de eliminar o va loroso campeão das verdades do Céu. O governador foi abordado, várias vezes, sobre a oportunidade de reenviar o encarcerado a Jerusalém; entretanto, ao lembrar -se de Paulo, a consciência lhe vacilava. Além do que por si mesmo observara, ouvira o tribuno Cláudio Lísias que lhe falara do ex-rabino com indisfarçável respeito. Mais por medo dos poderes sobrenaturais atribuídos ao Apósto lo, que por dedicação aos seus deveres de administrador, resistiu a todas as investidas dos judeus, mantendo se firme no propósito de cust odiar o acusado, até que sur gisse o ensejo de um julgamento mais ponderado. Dois anos de prisão contava a folha corrida do gran de amigo dos gentios. Uma ordem imperial transferira Félix para a administração de outra província. Sem esquecer a mágoa que a franqueza de Paulo lhe causara, fez questão de o abandonar à própria sorte. O novo governador, Pórcio Festo, chegou a Cesaréia em meio de ruidosas manifestações populares. Jerusalém não poderia esquivar -se às homenagens políticas e, tão logo assumira o po der, o ilustre patrício foi visitar a grande cidade dos rabinos. O Sinédrio aproveitou o ensejo para requisitar, instantemente, o velho inimigo de tantos anos. Um grupo de doutores da Lei Antiga buscou avistar-se, cerimoniosamente, com o generoso romano, solicitando a restituição do prisioneiro para julgamento do Tribunal religioso. Festo recebeu a comissão, cavalheirescamente, e mostrou -se inclinado a atender, mas, prudente por índole e por dever do cargo, declarou que preferia solucionar a questão em Cesa réia, onde se lhe facultava conhecer o assunto com os detalhes imprescin díveis. Para esse fim, convidava os rabinos a acompanhá-lo no seu regresso. Os israelitas exultaram de con tentamento. Espalharam-se os mais sinistros projetos, para a recepção do Ap óstolo em Jerusalém. O governador ali ficou dez dias, mas, antes que regressasse, alguém se encaminhava a Cesaréia, de cora ção oprimido e ansioso. Era Lucas, que, esforçado e solícito, propunha -se informar o prisioneiro de todas as singulares ocorrências. Paulo de Tarso ouvia-o com atenção e serenidade; mas, quando o companheiro passou a relatar os planos do Sinédrio, o amigo do gentilismo fez se pálido. Estava definitivamente assentado que o trânsfuga seria crucificado, como o Divino Mestre, no mesmo loca l da Caveira. Havia preparativos para encenar fielmente o drama do Calvário. O acusado carregaria a cruz até lá, arrostando os sarcasmos da populaça e havia até quem falasse no sacrifício de dois ladrões, para que se repetissem todos os detalhes caracterí sticos do martírio do Carpinteiro. Poucas vezes o Apóstolo manifestara tamanha im pressão de espanto. Por fim, acrimonioso e enérgico, exclamou: — Tenho experimentado açoites, apedrejamentos e insultos por toda parte, mas, de todas as perseguições e provaç ões, esta é a mais absurda... O próprio médico não sabia como interpretar esse conceito, quando o ex rabino prosseguiu: — Temos de evitar isso, por todos os meios ao nosso alcance. Como encarar essa deliberação extravagante de repetir a cena do Calvário? Q ual o discípulo que teria a coragem de submeter -se a essa falsa paródia com a idéia mesquinha de atingir o plano do Mestre, no teste munho aos homens? O Sinédrio está enganado. Ninguém no mundo logrará um Calvário igual ao do Cristo.