As paisagens, analisadas de tão perto, através do avançado processo de fixação das imagens, não somente emocionavam: infundiam terror. Na intimidade da massa leitosa, em que eram lançadas, adquiriam expressões de vivacidade indescritível. Apareciam soturnas procissões de seres humanos despojados do corpo, sob céus nevoentos e ameaçadores, cortados de cataclismos de natureza magnética. Pela primeira vez, contemplava eu semelhante demonstração, sem disfarçar a emoção. Para onde se dirigiam aquelas fileiras imensas de Espíritos sofredores? Como se sustentariam os ajuntamentos de almas desalentadas e semi-inconscientes, que me era dado divisar ali, ante os meus olhos tomados de assombro, atoladas em poços escuros de lama e padecimento? Em dado instante, a voz do Instrutor quebrou o silêncio. Diante dum quadro extremamente doloroso, exclamou em voz firme:
— Muitos de vós sabeis que tenho nesses centros expiatórios os que me foram pais bem-amados na derradeira experiência vivida na carne, prisioneiros ainda de torturantes recordações; no entanto, crede, não nos move qualquer propósito egoístico nas tarefas de auxílio, porque temos aprendido com o Senhor que a nossa família se encontra em toda parte. Observei que ninguém ousou voltar-se para Metelo em seu testemunho de humildade. Comovidíssimo, por minha vez, ante a demonstração de entendimento evangélico a que assistia, notei o olhar expressivo que o Assistente Jerônimo me endereçou, ao término do noticiário animado e sonoro e procurei alijar de mim mesmo a preocupação de algo saber, acerca do drama particular do orientador, anulando meus inferiores impulsos de mera curiosidade. Findos os trabalhos, que ocuparam pouco mais de duas horas, inclusive a palestra instrutiva, vários grupos eram apresentados ao Instrutor, por um dos dirigentes do Templo. Tive a impressão de que a assembleia em sua feição quase integral era constituída de legítimos interessados nos trabalhos espontâneos de ajuda ao próximo. Pelas saudações e pelas frases de que se faziam acompanhar, percebi que se aglomeravam, no recinto, grandes e pequenos conjuntos de servidores, em diversas missões, com objetivos múltiplos. Consagravam-se alguns ao amparo de criminosos desencarnados, outros ao socorro de mães aflitas, colhidas inesperadamente pelas renovações da morte, outros, ainda, interessavam-se pelos ateus, pelas consciências encarceradas no remorso, pelos enfermos na carne, pelos agonizantes na Crosta, pelos dementes sem corpo físico, pelas crianças em dificuldade no Plano invisível aos homens, pelas almas desanimadas e tristes, pelos desequilibrados de todos os matizes, pelos missionários perdidos ou desviados, pelas entidades jungidas às vísceras cadavéricas, pelos trabalhadores da Natureza, necessitados de inspiração e carinho. Para todos, possuía o mentor uma sentença generosa de estímulo e admiração. Chegada a nossa vez, Jerônimo nos apresentou gentilmente:
— Metelo, temos aqui três companheiros que me seguirão agora, em missão de socorro.
— Muito bem! Muito bem! — Exclamou o interpelado, — que o Divino Servidor os inspire. Abraçou-nos, com simplicidade, e perguntou:
— Partem com obrigação especializada?
— Sim, — esclareceu nosso orientador, — devemos atender, nos próximos trinta dias, a cinco dedicados colaboradores nossos a se desencarnarem, presentemente, na Crosta. Trabalharam, fiéis à causa do bem, e as nossas autoridades encarregaram-nos de atender-lhes aos casos pessoais.
— Prevejo muito êxito, — comentou Albano Metelo, fixando em nós o olhar sereno. Revelando espontânea alegria pelas palavras ouvidas, Jerônimo acrescentou, delicado:
— Confio na dedicação dos meus companheiros. Seguem comigo um ex-padre católico, uma enfermeira e um médico. Seremos quatro servos em ação ativa.
— Compreendo, — aduziu o Instrutor.
— Vamos com autorização para efetuar experiências, estudos e auxílios eventuais, de conformidade com as circunstâncias, em vista do caráter de nosso trabalho, que nos prodigalizará ensejo a diferentes observações. Enviou-nos Metelo reconfortante sorriso de otimismo e confiança, cumprimentou-nos, individualmente, e, depois de abraçar o nosso diretor, com intimidade, exclamou:
— Que o Mestre os ilumine e conduza. Eram as palavras de despedida. Outro grupo socorrista aproximou-se dele e retiramo-nos do Templo da Paz, repletos do pensamento salutar de servir aos semelhantes em nome de Deus. Lá fora, a noite de maravilhas era bem uma festa silenciosa, em que o aroma das flores convidava para o banquete celeste da luz.