“Todo círculo – acrescenta ele – que viesse a infringi-lo, sairia de pleno direito da Liga.” Eis a medida cominatória. Pois bem! esses círculos serão livres para sair da Liga, e para formar outras ao lado, sem julgar ter desmerecido fosse no que fosse. Eis, pois, a Liga principal rompida desde o princípio, por falta de unidade de vistas e de conjunto. O objetivo indicado é tão geral que se presta a um erro de aplicações muito contraditórios, e que cada um, interpretando-o segundo suas opiniões pessoais, julgará estar certo. Aliás, onde está a autoridade que legalmente pode pronunciar esta exclusão? Não existe. Não há nenhum centro regulador com qualidade para apreciar ou controlar os programas individuais que se afastassem do plano geral. Tendo cada grupo sua própria autoridade e seu centro de ação, é o único juiz do que faz. Em tais condições cremos impossível um entendimento.
Até aqui só vemos nesse projeto uma idéia geral. Ora, uma idéia não é um programa. Um programa é uma linha traçada, da qual ninguém pode afastar-se conscientemente, um plano decidido nos mais minuciosos detalhes, e que nada deixa ao arbitrário, onde todas as dificuldades de execução estão previstas e onde as vias e meios são indicados. O melhor programa é o que dá menos chance à improvisação.
“Era-me mesmo impossível precisar alguma coisa – diz o autor – porque a medida de ação de cada grupo será necessariamente determinada por seus meios de ação.” – Em outros termos, pelos recursos materiais de que poderá dispor. Mas isto não é uma razão. Todos os dias fazem-se planos, elaboram-se projetos subordinados aos meios eventuais de execução. É somente vendo um plano, que o público se decide a associar-se, conforme compreenda a sua utilidade e nele veja elementos de sucesso.
O que, antes de tudo, teria sido preciso fazer, era assinalar com precisão as lacunas do ensino que se propunham encher, as necessidades que se queria prover; dizer: se se entendia favorecer a gratuidade do ensino, retribuindo ou indenizando professores ou professoras; fundar escolas onde não as há; suprir a insuficiência do material de instrução nas escolas muito pobres para dele se prover; fornecer livros às crianças que não os podem comprar; instituir prêmios de encorajamento para os alunos e professores; criar cursos para adultos; pagar homens de talento para ir, como missionários, fazer conferências instrutivas no campo e destruir as idéias supersticiosas com o auxílio da Ciência; definir o objetivo e o espírito desses cursos e dessas conferências, etc., essas e outras coisas. Só então o objetivo teria sido claramente especificado. Depois poderiam dizer: “Para o atingir, são precisos recursos materiais.” Então vamos apelar aos homens de boa vontade, aos amigos do progresso, aos que simpatizam com nossas idéias; que formem comitês por Departamentos, bairros, cantões ou comunas, encarregados de recolher subscrições. Não haverá caixa geral e central; cada comitê terá a sua, cujo emprego dirigirá conforme o programa traçado, em razão dos recursos de que poderá dispor; se recolher muito, fará muito; se recolher pouco fará menos. Mas haverá um comitê diretor, encarregado de centralizar as informações, transmitir os avisos e as instruções necessárias, resolver as dificuldades que possam surgir, imprimir ao conjunto um cunho de unidade, sem o qual a liga seria uma palavra vã.
Entende-se uma liga como uma associação de indivíduos marchando de comum acordo e solidariamente para a realização de um objetivo determinado. Ora, desde o instante que cada um pode entender o objetivo à sua maneira, e agir como quiser, não há mais liga nem associação.
Aqui não se trata apenas de uma meta a alcançar. Desde o instante que sua realização repousa em capitais a recolher por meio de subscrições, há combinação financeira; a parte econômica do projeto não pode ser deixada ao capricho dos indivíduos, nem ao sabor dos acontecimentos, sob pena de periclitar; ela reclama uma elaboração prévia, séria, um plano concebido com previdência na previsão de todas as eventualidades.
Um ponto essencial no qual parece não terem pensado, é este: Sendo permanente o fim a que se propõem, e não temporário, como quando se trata de um infortúnio a aliviar, ou de um monumento a erguer, exige recursos permanentes. Prova a experiência que jamais se deve contar com subscrições voluntárias regulares e perpétuas; assim, se se operasse diretamente com o produto das subscrições, logo tal produto seria absorvido. Se se quiser que a operação não seja interrompida em sua própria fonte, é preciso constituir uma receita para não viver do seu capital; por conseguinte, capitalizar as subscrições da maneira mais segura e produtiva. Como? com que garantia e sob que controle? Eis o que todo projeto, que se baseie num movimento de capitais, deve prever antes de tudo, e determinar antes de algo recolher, como igualmente deve determinar o emprego e a repartição dos fundos coletados por antecipação, no caso em que, por uma causa qualquer, não lhe dessem continuidade. Por sua natureza, o projeto comporta uma parte econômica tanto mais importante quanto é dela que depende seu futuro, e aqui falta completamente.
Suponhamos que antes do estabelecimento das sociedades de seguros, um homem tivesse dito: “Os incêndios fazem devastações diárias; pensei que se nos associássemos e nos cotizássemos poderíamos atenuar os efeitos do flagelo. Como?
Ignoro-o. Primeiramente farei a minha subscrição, depois decidiremos. Vós mesmos procurareis o meio que melhor vos convier e tratareis de vos entender.” Sem dúvida a idéia teria sorrido a muitos; mas quando se tivessem posto à obra, com quantas dificuldades práticas não se teriam chocado, por não terem tido uma base previamente elaborada! Parece-nos que aqui o caso é mais ou menos o mesmo.
A carta publicada nos Anais do Trabalho e referida acima, não elucida mais a questão; confirma que o plano e a execução do projeto são deixados ao arbítrio e à iniciativa dos subscritores. Ora, quando a iniciativa é deixada a todos, ninguém a toma. Aliás, se os homens têm bastante raciocínio para apreciar se o que lhes oferecem é bom ou mau, nem todos estão aptos para elaborar uma idéia, sobretudo quanto ela abarca um campo tão vasto quanto este. Essa elaboração é o complemento indispensável da idéia primitiva. Uma liga é um corpo organizado, que deve ter um regulamento e estatutos, para marchar em conjunto, se quiser chegar a um resultado. Se o Sr. Macé tivesse estabelecido estatutos, mesmo provisórios, sob a condição de os submeter mais tarde à aprovação dos subscritores, que os poderiam modificar livremente, como é de praxe em todas as associações, teria dado um corpo à Liga, um ponto de ligação, ao passo que ela não tem nem um nem outro. Dizemos mesmo que não tem bandeira, já que é dito na carta precitada: A liga nada ensinará e não terá direção a dar; é, pois, supérfluo inquietar-se desde já com as opiniões mais ou menos liberais de quem procura fundá-la. Conceberíamos esse raciocínio se se tratasse de uma operação industrial; mas numa questão tão delicada quanto o ensino, que é encarado sob pontos de vista tão controvertidos, que toca os mais graves interesses da ordem social, não compreendemos que se possa fazer abstração da opinião daquele que, a título de fundador, deve ser a alma do empreendimento. Tal asserção é um erro lamentável.
Do vácuo que reina na economia do projeto, resulta que, subscrevendo-o, ninguém sabe a que, nem por que se empenha, pois não sabe que direção tomará o grupo do qual faz parte; que se encontrarão até subscritores que não farão parte de nenhum grupo. A organização desses grupos nem sequer é determinada; suas circunscrições, suas atribuições, sua esfera de atividade, tudo é deixado no desconhecido. Ninguém tem qualificação para os convocar; contrariamente ao que se pratica em casos semelhantes, nenhum comitê de vigilância é instituído para regular e controlar o emprego dos fundos recolhidos por antecipação e que servem para pagar as despesas de propaganda da idéia. Já que há despesas gerais pagas com os fundos dos subscritores, seria preciso que estes últimos soubessem em que consistem. O autor quer lhes deixar toda a liberdade de agir para se organizarem como bem entenderem; quer ser apenas o promotor da idéia. Seja. E longe de nós o pensamento de levantar contra a sua pessoa a menor suspeita de desconfiança; mas dizemos que para a marcha regular de uma operação deste gênero e para lhe garantir o sucesso, há medidas preliminares indispensáveis, que foram totalmente negligenciadas, o que vemos com pesar, no interesse mesmo da causa. Se for intencionalmente, julgamos mal fundado o pensamento; se for por esquecimento, é lastimável.
Não temos autoridade para dar qualquer conselho nesta questão, mais eis como geralmente se procede em semelhantes casos.