Suponhamos que, por uma circunstância qualquer, todo um povo adquire a certeza de que em oito dias, num mês ou num ano será aniquilado; que nem um só indivíduo sobreviverá, nem restará traço algum de sua existência após a morte. Que fará esse povo durante esse tempo? Trabalhará pela sua melhoria, pela sua instrução? Entregar-se-á ao trabalho para viver? Respeitará os direitos, os bens, a vida do seu semelhante? Submeter-se-á a qualquer lei ou autoridade por mais legítima que seja, mesmo a paterna? Haverá para ele um dever qualquer? Certo que não. Pois bem! O que não se dá coletivamente, a doutrina do niilismo realiza todos os dias individualmente. Se as consequências não são tão desastrosas quanto poderiam ser, é, em primeiro lugar, porque na maioria dos incrédulos há mais bravata que verdadeira incredulidade, mais dúvida que convicção, possuindo eles mais medo do nada do que pretendem aparentar, já que o qualificativo de espíritos fortes lisonjeia-lhes o amor-próprio; em segundo lugar, porque os incrédulos absolutos se contam por ínfima minoria; sujeitam-se, a contragosto, ao ascendente da opinião contrária e são mantidos por uma força material. Se a incredulidade absoluta se tornasse maioria, a sociedade entraria em dissolução. Eis aonde nos leva a doutrina do niilismo.²
Fossem quais fossem, porém, as suas consequências, se o niilismo fosse uma verdade, seria preciso aceitá-la de qualquer modo, pois nem sistemas contrários, nem a ideia dos males que daí pudessem resultar seriam capazes de impedir-lhe a existência. Ora, não há como negar que o ceticismo, a dúvida e a indiferença ganham terreno dia a dia, apesar dos esforços da religião; isto é positivo. Se a religião é impotente contra a incredulidade, é que lhe falta alguma coisa para combatê-la, e caso se condenasse à imobilidade, em pouco tempo estaria infalivelmente ultrapassada. O que lhe falta neste século de positivismo, em que se procura compreender antes de crer, é a sanção de suas doutrinas por meio de fatos positivos; é também a concordância de certas doutrinas com os dados positivos da Ciência. Dizendo ela ser branco o que os fatos dizem ser negro, é preciso optar entre a evidência e a fé cega.