2ª Parte - Cap. 2: O tecelão
Tinha à frente um homem digno e honesto, companheiro dedicado e trabalhador, antiga vítima das suas perseguições inflexíveis e cruéis. Quantos, como Áquila e sua mulher, não estariam dis persos no mundo, comendo o pão amargo do exílio por sua causa? Os gran des sentimentos nunca povoam a alma de uma só vez, em sua beleza integral. A criatura envenenada no mal é qual recipiente de vinagre, que necessita ser esvaziado pouco a pouco. A visão de Jesus constituía um acontecimento vivo, imorredouro; mas, para que pudesse compreender toda a extensão dos seus novos deveres, impunha -selhe o caminho estreito das provas ríspidas e amargosas. Vira o Cristo; mas, para ir ter com Ele, era indispensável voltar atrás e transpor abismos. As desilusões da Sinagoga de Damasco, o reconforto junto dos irmãos humildes sob a direção de Ananias, a falta de recursos financeiros, os conselhos austeros de Gamaliel, o anonimato, a solidão, o abandono dos entes mais caros, o tear pesado sob o sol ardente, a penúria de todo e qualquer con forto material, a meditação diária nas ilusões da vida — tudo isso representara auxílio precioso para sua decisão vitoriosa. O Evangelho funcionara como lâmpada na jornada difícil, para o descobrimento de si mesmo, a fim de ajuizar as necessidades mais pre mentes. Abraçando-se estreitamente ao amigo, que buscava enxugar -lhe as lágrimas, recordava-se de que em Damasco, após a grande visão do Messias, talvez ainda guardasse no íntimo o orgulho de saber ensinar, o amor à cátedra de mestre em Israel, a tendênci a despótica de obrigar o semelhante a pensar com ele; ao passo que agora podia examinar o passado culposo e sentir o júbilo da reconciliação, dirigindo -se com humildade à sua vítima. Naquele instante, teve a impressão de que Áquila representava a comunidad e de todos os ofendidos por seus desmandos cruéis. Serenidade branda enchia -lhe o coração. Sentia-se mais distanciado do orgulho, do amor -próprio, das idéias amargas, dos remorsos terríveis. Cada gota de pranto era um pouco de fel que expungia da alma, renovando-lhe as sensações de tranqüilidade e de alívio. — Irmão Saulo — disse o tecelão sem ocultar seu júbilo —, regozijemo-nos no Senhor, porque, como irmãos, estávamos separados e agora nos encontramos juntoS novamente. Não falemos do passado, comentemos o poder de Jesus, que nos transforma por seu amor. Prisca, que também chorava, interveio com ternura: — Se Jerusalém conhecesse esta vitória do Mestre, renderia graças a Deus!... Sentados os três sobre a relva rala do oásis, ao sopro do vento que abrandava os rigores da tarde quente, irmanados na sublimidade da fé comum, o moço tarsense narrou -lhes o sucesso inolvidável da jornada de Damasco, revelando as profundas transformações da sua vida. O casal chorou de emoção e alegria ouvindo o feito da misericórd ia de Jesus, que, a seus olhos piedosos, não representava apenas um gesto de carinho ao servo desviado, mas uma bênção de amor para a Humanidade inteira. Daí por diante, a tarefa lhes parecia mais leve, as dificuldades menos penosas. Nunca mais passou um c repúsculo sem que comentassem a dádiva gloriosa do Cristo às portas de Damasco. — Agora que o Mestre nos reuniu — exclamava Áquila satisfeito —, saiamos do deserto, proclamemos os favores de Jesus pelo mundo inteiro. Eu e Prisca não temos muitas obrigações de família. Com a morte de meu pai, estamos sós no tocante aos deveres mais pesa dos e é razoável não perdermos o ensejo de auxiliar a difusão da Boa Nova. Além das lições de Levi, temos agora a visão de Jesus ressuscitado, para ilustrar nossa palavra. Depois de muito tempo, às vésperas de retornarem à luta nos grandes centros populosos, em lhes ouvindo os apelos entusiásticos, Saulo indagou dos projetos que acalentavam. — Desde a tua revelação — exclamou o tecelão con fiante e esperançoso — alimento um grande ideal. Parece incrível à primeira vista; mas, antes de morrer, sonho ir a Roma e anunciar o Cristo aos irmãos da velha Lei. Tua visão no caminho de Damasco enche -me de coragem! Narrarei o fato aos mais indiferentes e darei um pouco de luz aos mais ins ensatos. Como servidor humilde dos homens, saberei dedicar -me aos interesses do Salvador. — Mas, quando pretendes partir? — Quando o Mestre rasgar o caminho com o pri meiro ensejo. Isto posto, abandonaremos Palmira. Depois de uma pausa em que Saulo se cons ervava pensativo, o outro murmurou: — Por que não vais conosco a Roma? — Ah! se eu pudesse!... — disse o ex-rabino dando a entender o seu desejo. — Julgo que Jesus desejará ver -me, antes de tudo, inteiramente reconciliado com quantos ofendi em Jeru salém. Além disso preciso rever meus pais, matando as saudades do coração. Com efeito, depois da passagem da grande caravana que lhes trazia os substitutos, servidos de um camelo, os três irmãos do “Caminho” deixaram o oásis em direção a Palmira, onde a f amília de Gamaliel os acolheu com desvelado carinho. Áquila e a mulher ali ficariam algum tempo ao serviço de Ezequias, até que pudessem realizar o formoso ideal de trabalho na poderosa Roma dos césares, mas Saulo de Tarso, agora resistente como um beduíno , depois de agradecer a generosidade do benfeitor e despedir -se dos amigos com lágrimas nos olhos, tomou novamente o rumo de Damasco, radicalmente transformado pelas meditações de três anos consecutivos, passados no de serto.
TAG Valor
Capítulo 2
Nome do Capítulo O tecelão
Parte Segunda Parte