Observação – É, pois, evidente que à faculdade natural desse homem se alia a mediunidade, ao menos acidentalmente, se não de maneira permanente; ou seja, a lucidez lhe é pessoal e não uma questão de Espíritos, mas os Espíritos podem dar a essa lucidez a direção que lhes convém, num caso determinado, inspirar-lhe o que deve dizer e só o deixar dizer aquilo que for preciso. Ele é, pois, conforme a necessidade, médium inconsciente.
A faculdade de ver a distância e através dos corpos opacos só nos parece extraordinária, incompreensível, porque constitui um sentido de que não gozamos no estado normal.
Estamos exatamente como os cegos de nascença, que não compreendem que se possa conhecer a existência, a forma e as propriedades dos objetos sem os tocar; ignoram que o fluido luminoso é o intermediário que nos põe em relação com os objetos afastados e nos traz a sua imagem. Sem o conhecimento das propriedades do fluido perispiritual, não compreendemos a visão sem o concurso dos olhos; a tal respeito somos verdadeiros cegos.
Ora, a faculdade de ver a distância, com o auxílio do fluido perispiritual, não é mais maravilhosa e miraculosa que a de ver os astros a milhões de léguas, com o auxílio do fluido luminoso25.
P. – Teríeis a bondade de dizer se o copo de que este homem se serve lhe é verdadeiramente útil? se igualmente não poderia ver em outro copo, num objeto qualquer, ou mesmo sem objeto, caso o quisesse? se a necessidade ou a especialidade do copo não seria um efeito do hábito, que lhe faz crer não poder dispensá-lo? Enfim, se a presença do copo é necessária, que ação exerce tal objeto sobre a sua lucidez?
Resp. – Estando o seu olhar concentrado no fundo do copo, o reflexo brilhante age primeiramente sobre os olhos, depois sobre o sistema nervoso, provocando uma espécie de semi-sonambulismo ou, mais exatamente, de sonambulismo desperto, no qual o Espírito, desprendido da matéria, adquire a clarividência, ou visão da alma, que chamais segunda vista.
Existe uma certa relação entre a forma do fundo do copo e a forma exterior ou a disposição de seus olhos. É por isto que ele não encontra facilmente os que reúnem as condições necessárias. (vide artigo do mês de outubro de 1864). Embora aparentemente os copos vos sejam semelhantes, há no poder refletor e no modo de irradiação, segundo a forma, a espessura e a qualidade, nuanças que não podeis apreciar, e que são adequadas ao seu organismo individual.
Para ele, portanto, o copo é um meio de desenvolver e de fixar sua lucidez. É-lhe realmente necessário, porque nele, não sendo permanente o estado de lucidez, necessita ser provocado; outro objeto não o poderia substituir, e esse mesmo copo, que sobre ele produz esse efeito, nada produziria sobre outra pessoa, mesmo vidente. Os meios de provocar essa lucidez variam conforme os indivíduos.
CONSEQÜÊNCIAS DA EXPLICAÇÃO PRECEDENTE Eis-nos no ponto principal a que nos propusemos. A explicação precedente parece resolver a questão com perfeita clareza. Tudo está nestas palavras: A lucidez não é permanente neste homem. O copo é um meio de a provocar, pela ação da irradiação sobre o sistema nervoso. Mas é preciso que o modo de irradiação esteja em relação com o organismo. Daí a variedade dos objetos que podem produzir tal efeito, conforme os indivíduos predispostos a sofrê-los. Disto resulta que: 1o – Para aqueles em que a visão psíquica é espontânea ou permanente, o emprego de agentes artificiais é inútil; 2o – esses agentes são necessários quando a faculdade necessita ser superexcitada; 3o – devendo esses agentes ser apropriados ao organismo, o que tem ação sobre uns nada produz sobre outros.
Certas particularidades de nosso vidente encontram sua razão de ser nesta explicação.
A carta colocada debaixo do copo, em vez de o facilitar, o perturbava, porque mudava a natureza do reflexo que lhe é próprio.
Dissemos que ele, ao começar, fala de coisas sem importância, enquanto olha o corpo. É que a ação não é instantânea, e essa conversa preliminar, sem objetivo aparente, dura o tempo necessário à produção do efeito.
Assim como o estado lúcido não se desenvolve senão gradualmente, não cessa de repente. É a razão pela qual esse homem ainda continua vendo alguns instantes depois de ter deixado de olhar em seu copo, o que nos tinha levado a supor que o objeto fosse inútil. Mas como, de certo modo, o estado lúcido é artificial, de vez em quando ele recorre ao copo para o manter.
Até certo ponto compreende-se o desenvolvimento da faculdade por um meio material; mas como a imagem de uma pessoa distante pode apresentar-se num copo? Só o Espiritismo pode resolver este problema, pelo conhecimento que dá da natureza da alma, de suas faculdades, das propriedades de seu invólucro perispiritual, de sua irradiação, de seu poder emancipador e de seu desprendimento do envoltório corporal. No estado de desprendimento, a alma desfruta de percepções que lhe são próprias, sem o concurso dos órgãos materiais; a visão é um atributo do ser espiritual; vê por si mesmo, sem o auxílio dos olhos, como ouve sem o concurso do ouvido; se os órgãos dos sentidos fossem indispensáveis às percepções da alma, seguir-se-ia que, depois da morte, não tendo mais a alma esses órgãos, seria surda e cega. O desprendimento completo, que ocorre após a morte, produz-se parcialmente durante a vida, e é então que se manifesta o fenômeno da visão espiritual, ou, em outras palavras, da dupla vista ou segunda vista, ou da visão psíquica, cujo poder se estende tão longe quanto a irradiação da alma.
No caso de que se trata, a imagem não se forma na substância do vidro; é a própria alma que, por sua irradiação, percebe o objeto no local onde se encontra. Mas como, nesse homem, o copo é o agente provocador do estado lúcido, a imagem lhe aparece muito naturalmente na direção do copo. É absolutamente como aquele que precisa de um óculo de alcance para ver ao longe o que não pode distinguir a olho nu; a imagem do objeto não está nos vidros da luneta, mas na direção dos vidros, que lhe permitem vê-la. Tirai-lhe o instrumento e ele nada mais verá. Prosseguindo a comparação, diremos que, assim como aquele que tem uma boa vista não necessita de lunetas, o que goza naturalmente da visão psíquica não precisa de meios artificiais para provocá-la.
Há alguns anos, um médico descobriu que, pondo entre os olhos, na base do nariz, uma rolha de garrafa, uma bola de cristal ou de metal brilhante, e fazendo convergirem os raios visuais para esse objeto durante algum tempo, a pessoa entrava numa espécie de estado cataléptico, durante o qual se manifestavam algumas das faculdades que se notam em certos sonâmbulos, entre outras a insensibilidade e a visão a distância, através dos corpos opacos, e que esse estado cessava pouco a pouco, após a retirada do objeto.
Evidentemente era um efeito magnético, produzido por um corpo inerte.
Que papel fisiológico desempenha o reflexo brilhante nesse fenômeno? É o que se ignora. Mas, se essa condição é necessária na maioria dos casos, constatou-se que não o é sempre, e que o mesmo efeito é produzido em certos indivíduos com o auxílio de objetos foscos.
Este fenômeno, ao qual se deu o nome de hipnotismo, fez ruído nos meios científicos. Experimentaram. Uns tiveram sucesso, outros fracassaram, como devia ser, pois nem todos os pacientes tinham a mesma aptidão. Certamente valia a pena estudar a coisa, fosse ainda excepcional; mas – é lamentável dizer – desde que perceberam que era uma porta secreta pela qual o magnetismo e o sonambulismo iriam penetrar, sob uma outra forma e um outro nome, no santuário da ciência oficial, não mais se cogitou de hipnotismo. (Vide a Revista Espírita de janeiro de 1860).
Entretanto, jamais a Natureza perde os seus direitos. Se as leis são desconhecidas por algum tempo, muitas vezes volta à carga e as apresenta sob formas tão variadas que, mais cedo ou mais tarde, obriga a abrir os olhos. O Espiritismo é prova disto; por mais que o neguem, o denigram, o repilam, ele bate em todas as portas de cem maneiras diferentes e, por bem ou por mal, penetra naqueles mesmos que dele não querem ouvir falar.
Comparando este fenômeno com aquele que nos ocupa, e principalmente com as explicações dadas acima, nota-se, nos efeitos e nas causas, uma analogia surpreendente, donde se pode tirar a seguinte conclusão: os corpos vulgarmente chamados espelhos mágicos não passam de agentes hipnóticos, infinitamente variados em suas formas e em seus efeitos, segundo a natureza e o grau das aptidões.
Isto posto, não seria impossível que certas pessoas, dotadas espontânea e acidentalmente dessa faculdade, sofressem, sem que o soubessem, a influência magnética de objetos exteriores, sobre os quais maquinalmente fixam os olhos. Por que o reflexo da água, de um lago, de um pântano, de um ribeirão, mesmo de um astro, não produziria o mesmo efeito que um copo ou uma garrafa, sobre certas organizações convenientemente predispostas? Mas isto não passa de uma hipótese que precisa da confirmação da experiência.
Aliás, este fenômeno não é uma descoberta moderna. É encontrado, mesmo em nossos dias, nos povos mais atrasados, tanto é certo que o que está na Natureza tem o privilégio de ser de todos os tempos e lugares. A princípio aceitam-no como um fato: a explicação vem depois, com o progresso, e à medida que o homem avança no conhecimento das leis que regem o mundo.
Tais as conseqüências que parecem decorrer logicamente dos fatos observados.