“Sabemos perfeitamente que, em nos vendo colocar em cena os Espíritos, mais de um leitor sorrirá de piedade. Sem falar dos que, verdadeiros materialistas, não acreditam na existência dos Espíritos e rejeitam como fábula tudo quanto não seja matéria ponderável e palpável, como também aqueles que, admitindo que existem Espíritos, negam-lhes qualquer influência ou intervenção no que diz respeito ao nosso mundo; há, em nossos dias, muitas criaturas que, concedendo aos Espíritos o que nenhum bom católico lhes poderia recusar, isto é, a existência e a faculdade de intervir nos fatos da vida humana, de maneira oculta ou patente, ordinária ou extraordinária, parecem todavia desmentir sua fé na prática, e considerar como uma vergonha, como um excesso de credulidade, como uma superstição de mulher velha, admitir a ação dos mesmos Espíritos em certos casos especiais, contentando-se, em geral, em não negá-la. Em verdade, há um século zombou-se tanto da simplicidade da Idade Média, acusando-a de ver Espíritos, sortilégios e feiticeiros por toda parte, e tanto se invectivou a esse respeito, que não é de admirar que tantas cabeças fracas, querendo parecer fortes, experimentem agora repugnância e uma espécie de vergonha em crer na intervenção dos Espíritos. Mas esse excesso de incredulidade não é menos despropositado do que em outras épocas o foi o excesso contrário; se, em semelhante matéria, crer em demasia leva a vãs superstições, por outro lado, nada querer admitir conduz diretamente à impiedade do naturalismo. O homem sábio, o cristão prudente deve, pois, do mesmo modo, evitar esses dois extremos e manter-se firme na linha intermediária: aí estão a verdade e a virtude.
Agora, nessa questão das mesas falantes, para que lado nos fará inclinar uma fé prudente?
“A primeira, a mais sábia das regras que nos impõe essa prudência ensina-nos que, para explicar os fenômenos que oferecem um caráter extraordinário, somente se deve recorrer às causas sobrenaturais se as pertencentes à ordem natural não forem suficientes para os explicar. Em compensação, daí resulta a obrigação de admitir as primeiras, quando as segundas são insuficientes; é justamente o nosso caso. Com efeito, entre os fenômenos de que falamos, há aqueles para os quais nenhuma teoria, nenhuma causa puramente natural poderia dar razão. Assim, pois, não só é prudente, mas necessário mesmo procurar sua explicação na ordem sobrenatural ou, em outras palavras, atribuí-los a Espíritos puros, visto que, fora e acima da Natureza, outra causa possível não existe.
“Eis uma segunda regra, um criterium infalível para se afirmar, a respeito de um fato qualquer, se pertence à ordem natural ou à sobrenatural: examinar-lhe bem os caracteres e, conforme eles, determinar a natureza da causa que o produziu. Ora, os fatos mais maravilhosos desse gênero, os que nenhuma outra teoria pode explicar, apresentam caracteres tais que não só demonstram uma causa inteligente e livre, mas ainda dotada de uma inteligência e de uma vontade que nada têm de humano; portanto, não pode essa causa deixar de ser senão um Espírito puro.
“Assim, por dois caminhos, um indireto e negativo, que procede por exclusão, o outro direto e positivo, fundado sobre a própria natureza dos fatos observados, chegaremos a essa mesma conclusão, a saber: que entre os fenômenos da necromancia moderna há pelo menos uma categoria de fatos que, sem nenhuma dúvida, são produzidos pelos Espíritos. Somos levados a essa conclusão por um raciocínio tão simples, tão natural que, aceitando-o, longe do temor de ceder a uma imprudente credulidade, julgamos, ao contrário, fazer prova de uma fraqueza e de uma incoerência de espírito indesculpável, caso o recusemos.
Para confirmar a nossa asserção, não nos faltam argumentos, mas, sim, espaço e tempo para desenvolvê-los aqui. O que dissemos até o momento é suficiente e pode resumir-se nas quatro seguintes proposições: “1º Entre os fenômenos em questão, deixando de lado os que podem razoavelmente ser atribuídos à impostura, às alucinações e aos exageros, grande número ainda existe, cuja realidade não pode ser posta em dúvida sem que se violem todas as leis de uma crítica sadia.
“2 o Todas as teorias naturais que expusemos e discutimos acima são impotentes para dar uma explicação satisfatória de todos esses fatos; se explicam algumas, deixam um grande número – e estes são os mais difíceis – totalmente inexplicados e inexplicáveis.
“3o Os fenômenos dessa última ordem, por implicarem a ação de uma causa inteligente estranha ao homem, só podem ser explicados pela intervenção dos Espíritos, seja qual for, aliás, o caráter desses Espíritos, questão de que logo nos ocuparemos.
“4 o Pode-se dividir todos esses fatos em quatro categorias: muitos deles devem ser rejeitados como falsos ou como produtos da fraude; quanto aos outros, os mais simples, os mais fáceis de conceber, tais como as mesas girantes, em certas circunstâncias admitem uma explicação puramente natural: a do impulso mecânico, por exemplo; uma terceira classe compõe-se de fenômenos mais extraordinários e mais misteriosos sobre a natureza dos quais se fica em dúvida, porque, se bem que pareçam ultrapassar as forças da Natureza, não apresentam, entretanto, caracteres tais que, evidentemente, para os explicar, se deva recorrer a uma causa sobrenatural. Enfim, agrupamos na quarta categoria os fatos que, oferecendo de maneira evidente esses caracteres, devem ser atribuídos à operação invisível dos Espíritos puros.
“Mas, que são esses Espíritos? Bons ou maus? Anjos ou demônios? Almas bem-aventuradas ou almas condenadas? A resposta a esta última parte de nosso problema não pode suscitar dúvida, por pouco que se considere, de uma parte, a natureza desses Espíritos e, de outra, o caráter de suas manifestações. É o que nos falta demonstrar.”