Embora jovem e dividida pelas necessidades de território, de distância, de clima, a humanidade começou a ter consciência de si mesma. Acima e fora dos antagonismos políticos e religiosos, constituem-se agrupamentos de inteligências. Homens preocupados com os mesmos problemas, aguilhoados pelos mesmos cuidados, inspirados pelo Invisível, trabalham numa obra comum e procuram as mesmas soluções. Pouco a pouco vão aparecendo, fortificando-se, aumentando, os elementos de uma ciência psicológica e de uma crença universais. Um grande número de testemunhas imparciais vê nisso o prelúdio de um movimento do pensamento, tendendo a abranger todas as sociedades da Terra.(12)
A idéia religiosa acaba de percorrer o seu ciclo inferior e se vão desenhando os planos de uma espiritualidade mais elevada. Pode-se dizer que a Religião é o esforço da humanidade para comunicar com a Essência eterna e divina. É essa a razão pela qual haverá sempre religiões e cultos, cada vez mais liberais e conformes às leis superiores da Estética, que são a expressão da harmonia universal. O belo, nas suas regras mais elevadas, é uma lei divina e as suas manifestações em relação com a idéia de Deus revestirão forçosamente um caráter religioso.
À proporção que o pensamento se vai aperfeiçoando, missionários de todas as ordens vêm provocar a renovação religiosa no seio da humanidade. Assistimos ao prelúdio de uma dessas renovações, maior e mais profunda que as precedentes. Já não tem somente homens por mandatários e intérpretes, o que tornaria a nova dispensação tão precária como as outras. São os Espíritos inspiradores, os gênios do espaço, que exercem ao mesmo tempo a sua ação em toda a superfície do Globo e em todos os domínios do pensamento. Sobre todos os pontos aparece um novo espiritualismo.
Imediatamente surge a pergunta: “Que és tu, ciência ou religião? Espíritos de pouco alcance, credes então que o pensamento há de seguir eternamente os carreiros abertos pelo passado?!”
Até aqui todos os domínios intelectuais têm permanecido separados uns dos outros, cercados de barreiras, de muralhas – a Ciência de um lado, a Religião do outro. A Filosofia e a Metafísica estão eriçadas de sarças impenetráveis. Quando tudo é simples, vasto e profundo no domínio da alma como no do universo, o espírito de sistema tudo complicou, apoucou, dividiu. A Religião foi emparedada no sombrio ergástulo dos dogmas e dos mistérios; a Ciência foi enclausurada nas mais baixas camadas da Matéria. Não é essa a verdadeira religião, nem a verdadeira ciência. Bastará nos elevemos acima dessas classificações arbitrárias para compreendermos que tudo se concilia e reconcilia numa visão mais alta.
A nossa ciência, posto que elementar, quando se entrega ao estudo do espaço e dos mundos, não provoca, desde logo e imediatamente, um sentimento de entusiasmo, de admiração quase religiosa? Lede as obras dos grandes astrônomos, dos matemáticos de gênio. Dir-vos-ão que o universo é um prodígio de sabedoria, de harmonia, de beleza, e que já na penetração das leis superiores se realiza a união da Ciência, da Arte e da Religião, pela visão de Deus na sua obra. Chegado a essas alturas, o estudo converte-se em contemplação e o pensamento em prece!
O Espiritualismo moderno vai acentuar, desenvolver essa tendência, dar-lhe um sentido mais claro e mais rigoroso. Pelo lado experimental, ainda não é mais do que uma ciência; pelo objetivo das suas investigações, penetra nas profundezas invisíveis e eleva-se até aos mananciais eternos, donde dimanam toda a força e toda a vida. Por essa forma une o homem ao Poder Divino e torna-se uma doutrina, uma filosofia religiosa. É, além disso, o laço que reúne duas humanidades. Por ele, os Espíritos prisioneiros na carne e os que estão livres chamam e respondem uns aos outros. Entre eles estabelece-se uma verdadeira comunhão.
Cumpre, pois, não ver nele uma religião, no sentido restrito, no sentido atual dessa palavra. As religiões do nosso tempo querem dogmas e sacerdotes e a doutrina nova não os comporta; está patente a todos os investigadores. O espírito de livre crítica, exame e verificação preside às suas investigações.
Os dogmas e os sacerdotes são necessários e sê-lo-ão por muito tempo ainda às almas jovens e tímidas, que todos os dias penetram no círculo da vida terrestre e não se podem reger por si, nem analisar as suas necessidades e sensações.
O Espiritualismo moderno dirige-se principalmente às almas desenvolvidas, aos espíritos livres e emancipados, que querem por si mesmos achar a solução dos grandes problemas e a fórmula do seu Credo. Oferece-lhes uma concepção, uma interpretação das verdades e das leis universais baseada na experiência, na razão e no ensino dos Espíritos. Acrescentai a isso a revelação dos deveres e das responsabilidades, única condição que dá base sólida ao nosso instinto de justiça; depois, com a força moral, as satisfações do coração, a alegria de tornar a encontrar, pelo menos com o pensamento, algumas vezes até com a forma,(13) os seres amados que julgávamos perdidos. À prova da sua sobrevivência junta-se a certeza de irmos ter com eles e com eles reviver vidas inumeráveis, vidas de ascensão, de felicidade ou de progresso.
Assim, esclarecem-se gradualmente os problemas mais obscuros, entreabre-se o Além; o lado divino dos seres e das coisas se revela. Pela força desses ensinamentos, a alma humana cedo ou tarde subirá e, das alturas a que chegar, verá que tudo se liga, que as diferentes teorias, contraditórias e hostis na aparência, não são mais do que aspectos diversos de um mesmo todo. As leis do majestoso universo resumir-se-ão para ela numa lei única, força ao mesmo tempo inteligente e consciente, modo de pensamento e ação. Por ela achar-se-ão ligados numa mesma unidade poderosa todos os mundos, todos os seres, associados numa mesma harmonia, arrastados para um mesmo fim.
Dia virá em que todos os pequenos sistemas, acanhados e envelhecidos, fundir-se-ão numa vasta síntese, abrangendo todos os reinos da idéia. Ciências, filosofias, religiões, divididas hoje, reunir-se-ão na luz e será então a vida, o esplendor do espírito, o reinado do Conhecimento.
Nesse acordo magnífico, as ciências fornecerão a precisão e o método na ordem dos fatos; as filosofias, o rigor das suas deduções lógicas; a Poesia, a irradiação das suas luzes e a magia das suas cores; a Religião juntar-lhes-á as qualidades do sentimento e a noção da estética elevada. Assim, realizar-se-á a beleza na força e na unidade do pensamento. A alma orientar-se-á para os mais altos cimos, mantendo ao mesmo tempo o equilíbrio de relação necessário para regular a marcha paralela e ritmada da inteligência e da consciência na sua ascensão para a conquista do bem e da verdade.