“Para ser por todos compreendido, é preciso falar como todo o mundo. Ora, é evidente que se tivéssemos qualificado os fenômenos espíritas de miraculosos, o público se teria equivocado quanto ao seu verdadeiro caráter, a menos que, de cada vez, se empregasse um circunlóquio e dissesse que há milagres que não são milagres, como geralmente se entende. Visto que a generalidade a isto liga a idéia de uma derrogação das leis naturais, e que os fenômenos espíritas não passam da aplicação dessas mesmas leis, é muito mais simples e sobretudo mais lógico dizer sem rodeios: Não, o Espiritismo não faz milagres. Desta maneira, não há engano, nem falsa interpretação. Assim como o progresso das ciências físicas destruiu uma multidão de preconceitos e faz entrar na ordem dos fatos naturais um grande número de efeitos outrora considerados miraculosos, o Espiritismo, pela revelação de novas leis, vem ainda restringir o domínio do maravilhoso; dizemos mais: dá-lhe o último golpe, razão por que não é malvisto em parte alguma, como também não o são a astronomia e a geologia.”
Aliás, a questão dos milagres é tratada de maneira completa, e com todos os desenvolvimentos que comporta, na segunda parte da nova obra que publicamos sob o título de A Gênese, os milagres e as predições, segundo o Espiritismo. A causa natural dos fatos reputados miraculosos, no sentido vulgar da palavra, é explicada. Se o autor do artigo acima se der ao trabalho de a ler, verá que as curas do Sr. Jacob e todas as do mesmo gênero não são um problema para o Espiritismo que, desde muito tempo, sabe como proceder neste ponto. É uma questão quase elementar.
A acepção da palavra milagre, no sentido de fato extranatural, está consagrada pelo uso. A Igreja a reivindica por sua conta, como parte integrante de seus dogmas; parece-nos, pois, difícil fazer esta palavra voltar à sua acepção etimológica, sem se expor a qüiproquós. Seria preciso, diz o autor, uma palavra nova.
Ora, como tudo o que não está fora das leis da Natureza é natural, não vemos outra podendo abarcá-los todos senão a de fenômenos naturais.
Mas os fenômenos naturais, reputados miraculosos, são de duas ordens: uns dependem de leis que regem a matéria, outros de leis que regem a ação do princípio espiritual. Os primeiros são da alçada da Ciência propriamente dita, os segundos estão mais especialmente no domínio do Espiritismo. Quanto a estes últimos, como são, na maior parte, uma conseqüência dos atributos da alma, a palavra existe: são chamados fenômenos psíquicos; e quando combinados com os efeitos da matéria, poderiam ser chamados psíquicos-materiais ou semipsíquicos.
O autor critica a expressão elemento espiritual, pela razão, diz ele, de que o único elemento espiritual é Deus. A resposta para isto é muito simples. A palavra elemento não é aqui tomada no sentido de corpo simples, elementar, de moléculas primitivas, mas no de parte constituinte de um todo. Neste sentido, pode dizer-se que o elemento espiritual tem uma parte ativa na economia do Universo, como se diz que o elemento civil e o elemento militar figuram em tal proporção na cifra de uma população; que o elemento religioso entra na educação; que na Argélia há o elemento árabe e o elemento europeu, etc. Por nossa vez, diremos ao autor que, por falta de uma palavra especial para esta última acepção do vocábulo elemento, é-se forçado a dele se servir. Aliás, como essas duas acepções não representam idéias contraditórias, como a do vocábulo milagre, não há confusão possível, pois a idéia radical é a mesma.
Se o autor se der ao trabalho de estudar o Espiritismo, contra o qual constatamos com prazer que ele não tem uma idéia preconcebida de negação, nele encontrará a resposta às dúvidas que parecem exprimir algumas partes de seu artigo, quanto à maneira de encarar certas coisas, salvo, todavia, no que concerne à ciência das concordâncias numéricas, da qual jamais nos ocupamos, e sobre a qual, por conseguinte, não poderíamos ter opinião formada.
O Espiritismo não tem a pretensão de dizer a última palavra sobre todas as leis que regem o Universo, razão por que jamais falou: Nec plus ultra. Por sua própria natureza abre caminho a todas as novas descobertas, mas até que um princípio novo seja constatado, não o aceita senão a título de hipótese ou de probabilidade.