Na noite do dia seguinte, fomos inesperadamente visitados por Odila, que nos pedia socorro. A preocupada amiga, agora ciente do drama escuro que se desenrolara no passado próximo para melhor entender as inquietudes do presente, compreendia as necessidades de Amaro e Júlio, aos quais amava por esposo e filho do coração, e rogava assistência para Zulmira, novamente acamada. Atendendo a apelos de Evelina, tornara ao ambiente doméstico para soerguer o bom ânimo daquela que a sucedera na direção do lar, e voltara, aflita. Arrojara-se Zulmira a profundo abatimento. Recusava remédio e alimentação. Enfraquecia assustadoramente. Sabia agora que a permanência dela no mundo e na carne se revestia de excepcional importância para o seu grupo familiar e, atenta a isso, continuava intercedendo. A rápida informação da mensageira impressionava e comovia pelo tom de amorosa aflição em que era vazada. Não nos delongamos na resposta. Era mais de meia-noite, na cidade, quando atravessamos a porta acolhedora da casa do ferroviário que, desde muito, constituía para nós valioso ponto de ação. A dona da casa, de pensamento fixo nas derradeiras cenas da morte do pequenino, jazia no leito em prostração deplorável. Emagrecera de modo alarmante. Fundas olheiras roxas contrastavam com a acentuada palidez do rosto desfigurado. Recaíra na introversão em que a conhecêramos. Rememorava o afogamento do pequeno enteado e, longe de saber que o retivera nos braços como filho abençoado de sua ternura, sentia-se na condição de ré infortunada no banco da justiça. Decerto, — pensava, agoniada, — sofria a punição divina. Aquela morte do pequeno, quando tudo fazia crer que ele cresceria para a ventura do lar, correspondendo-lhe à expectativa, era dolorosa pena imposta ao seu maternal coração. Ah! Devia ter sido pronunciada perante os juízes da Sabedoria Celeste. No mundo, ninguém lhe conhecia o remorso de guardiã invigilante e cruel, mas fora sem dúvida identificada pelos tribunais de mil olhos do Direito Incorruptível.. Não amparara convenientemente o filhinho de Odila, relegando-o a intencional abandono… Agora, perdia inexplicavelmente o rebento que lhe definia a esperança no grande futuro. Valeria erguer-se e disputar aquilo que para ela representava a dor de viver? Reconhecia-se esmagada. O complexo de culpa retomara-lhe o cérebro e enfermara-lhe o coração. Reparamos que diversos medicamentos se alinhavam à cabeceira, mas nosso instrutor examinou-os, auscultou a doente e informou:
— O remédio de Zulmira é daqueles que a farmácia não possui. Virá dela mesma. Precisamos refazer-lhe a esperança e o gosto de viver. Descontrolou-se-lhe, de novo, a mente. Desinteressou-se da luta e a abstenção de alimentos acarreta-lhe a inanição progressiva.
— E o reencontro com o filhinho? — Perguntou Hilário, — não seria o melhor processo de restaurar-lhe o bom ânimo?
— É o que esperamos, — concordou o Ministro, — todavia, Júlio, na fase que atravessa, requisita, pelo menos, uma semana de absoluto repouso e, até lá, é indispensável entreter-lhe as energias. Em seguida, Clarêncio entrou em ação, aplicando-lhe recursos magnéticos, com o nosso humilde concurso. A tensão nervosa de Zulmira, porém, atingira o apogeu e apenas conseguimos sossegá-la, de alguma sorte, sem conduzi-la ao sono reparador que seria de desejar. Odila, fortalecida, tomava-a aos seus cuidados, quando fomos defrontados por imprevisto fenômeno. Mário Silva, desligado do corpo denso, com a rapidez de um relâmpago, penetrou o quarto, de olhos esgazeados, à maneira de louco, contemplou a doente por alguns instantes e afastou-se. Volvemos nossa indagadora atenção para o Ministro, que esclareceu, sem detença:
— É sabido que o criminoso habitualmente volta ao local do crime. O remorso é uma força que nos algema à retaguarda. E porque nos inclinássemos à procura do visitante inesperado, o instrutor aquietou-nos, recomendando:
— Aguardemos. Mário voltará. Com efeito, Silva, depois de alguns minutos, regressou ao aposento. Com a mesma expressão de dementado, fixou a pobre enferma e, dessa vez, rojou-se de joelhos, exclamando:
— Perdão! Perdão!… Sou um assassino! Um assassino!… Levantamo-nos, instintivamente, com o propósito de socorrê-lo, mas tocado de longe pela nossa influência magnética, qual se fora alcançado por um raio, o enfermeiro projetou-se para fora.
— Infortunado amigo! — Falou o Ministro, contristado.
— Sofre muito. Ajudemo-lo a soerguer-se. Num átimo, ganhamos o domicílio de Mário, encontrando-o em pesadelo aflitivo, contido no leito à custa de poderosos anestésicos. Com surpresa para nós, uma freira desencarnada rezava, junto dele. Interrompeu as preces, a fim de saudar-nos, acolhendo-nos com simpatia.
— Estava certa, — disse delicada e confiante, — de que Nosso Senhor nos enviaria o socorro justo. Desde algumas horas, ocupo aqui o serviço de vigilância. A posição do nosso amigo, — e indicou Mário estendido na cama, — é francamente anormal e temo a intromissão de Espíritos diabólicos. Clarêncio assumiu o aspecto de simples visitante, vulgarizando-se ao olhar da religiosa, que se sentia evidentemente encorajada com a nossa presença.
— É enfermeira? — Perguntou nosso instrutor, cortês.
— Não sou propriamente do serviço de saúde, — replicou a interpelada, — mas colaboro no hospital onde Silva trabalha. Fitou o moço semi-adormecido e aduziu, piedosa:
— É um cooperador devotado às crianças doentes e a cuja assiduidade e carinho muito passamos a dever. E, numa linguagem genuinamente católica romana, rematou:
— Muitas almas benditas têm descido do Céu para testemunhar-lhe agradecimento. Isso tem acontecido tantas vezes que, com alguns médicos e assistentes, fez-se credor das melhores atenções de nossa Irmandade. Usando o tato que lhe era característico, nosso orientador indagou:
— Como soube a irmã que o nosso amigo se achava assim tão conturbado?
— Não recebemos qualquer notificação direta, contudo, ele não compareceu hoje às tarefas habituais e isso foi suficiente para indicar-nos que algo de grave estava acontecendo. Nossa superiora designou-me para verificar o que havia. Desde então, estou presa, de vez que não supunha a existência de tantos Espíritos das trevas na vizinhança. A palavra da freira saturava-se de tanta bondade espontânea e evidenciava uma fé pura tão encantadoramente ingênua, que a curiosidade me espicaçou o íntimo. A tentação de pesquisar o fascinante problema daquele caridoso esforço assistencial me constrangia a interferir no assunto, mas um olhar de Clarêncio bastou para que Hilário e eu nos mantivéssemos em respeitoso silêncio.
— É comovente pensar na sublimidade de sua missão, depois de ausentar-se do corpo terrestre, — falou o Ministro, bondoso, talvez provocando alguma elucidação direta, capaz de satisfazer-nos.
— Sim, trabalhamos sob a direção de Madre Paula, — informou a interlocutora, sincera, — que nos explica ser a enfermagem nas casas públicas de tratamento uma forma de purgatório benigno, até que possamos merecer novas bênçãos de Deus.
— Mas, irmã, vê-se de pronto que o seu coração está comungando a paz do Senhor. Ela baixou humildemente os olhos e ponderou:
— Não penso assim. Sou uma pobre religiosa, em trabalho para resgatar os próprios pecados. No leito, Mário gemia inquieto. O Ministro pareceu despreocupar-se da palestra de ordem pessoal e passou a afagar a fronte do enfermo, dando-nos a ideia de que só ele devia atrair-nos o interesse. A freira acercou-se respeitosamente de nosso instrutor e disse, calma:
— Irmão, Madre Paula costuma dizer-nos que os ouvidos de Deus vivem no coração das grandes almas. Estou certa de que escutastes minhas rogativas. Tenho-vos por emissários da Corte Celeste. Acredito que, desse modo, me compete a obrigação de confiar-vos nosso doente. Clarêncio agradeceu o carinho que transparecia daquelas palavras e expôs que a nossa passagem por ali era rápida, o bastante para ministrar o socorro preciso. A interlocutora encareceu a necessidade de comunicar-se com o hospital, quanto ao cooperador em agitada prostração, e, prometendo voltar em breves minutos, ausentou-se à pressa. A sós conosco, o orientador, embora de atenção ligada ao enfermeiro, explicou, atenciosamente:
— Nossa irmã pertence à organização espiritual de servidores católicos, dedicados à caridade evangélica. Temos diversas instituições dessa natureza, em cujos quadros de serviço inúmeras entidades se preparam gradualmente para o conhecimento superior.
— Sob a direção de autoridades ainda ligadas à Igreja Católica? — Perguntou Hilário, admirado.
— Como não? Todas as escolas religiosas dispõem de grandes valores na vida espiritual. Como acontece à personalidade humana, as crenças possuem uma região clara e luminosa e uma outra ainda obscura. Em nossa alma, a zona lúcida vive alimentada pelos nossos melhores sentimentos, enquanto que, no mundo sombrio de nossas experiências inferiores, habitam as inclinações e os impulsos que ainda nos encadeiam à animalidade. Nas religiões, o campo da sublimação está povoado pelos Espíritos generosos e liberais, conscientes de nossa suprema destinação para o bem, ao passo que, nas linhas escuras da ignorância, ainda enxameiam as almas pesadas de ódio e egoísmo. E, sorrindo, o Ministro acentuou:
— Achamo-nos em evolução e cada um de nós respira no degrau em que se colocou.
— Ela, porém, terá penetrado a verdade com que fomos surpreendidos, depois da morte? — Perguntei, intrigado.