Mediunidade no Copo d’Água
“O médium só vê com os olhos abertos; quando os fecha, está na escuridão. Pelo menos é o que notamos, e isto denota uma variedade na mediunidade vidente. O médium não fecha os olhos senão para repousar, o que lhe acontece duas ou três vezes por sessão. Vê tão bem de dia quanto de noite, mas à noite é preciso luz. “A imagem das pessoas vivas se apresenta no copo tão facilmente quanto a das pessoas mortas. Tendo perguntado a razão disto ao meu Espírito familiar, ele me respondeu: ‘São suas imagens que vos apresentamos; os Espíritos são tão hábeis para pintar quanto para viajar.’ Entretanto, os médiuns distinguem sem esforço o Espírito de uma pessoa viva; há qualquer coisa de menos material. “O médium do copo d’água difere do sonâmbulo pelo fato de o Espírito deste último se destacar; é-lhe necessário um fio condutor para ir procurar a pessoa ausente, enquanto o primeiro tem a sua imagem sob os olhos, que é o reflexo de sua alma e de seus pensamentos. Fatiga-se menos que o sonâmbulo, e está também menos exposto a se deixar intimidar pela visão dos Espíritos maus que podem apresentar-se. Esses Espíritos podem bem o fatigar, porque procuram magnetizá-lo, mas ele pode, à vontade, subtrair-se ao seu olhar, deles recebendo, aliás, uma impressão menos direta. “Dá-se nesta mediunidade como em todas as outras: o médium atrai a si os Espíritos que lhe são simpáticos; ao médium impuro apresentam-se de bom grado Espíritos impuros. O meio de atrair os Espíritos bons é estar animado de bons sentimentos, só perguntar coisas justas e razoáveis, não se servir desta faculdade senão para o bem, e não para coisas fúteis. Se dela fizermos um objeto de distração, de curiosidade ou de tráfico ilegal, cairemos inevitavelmente na turba de Espíritos levianos e enganadores, que se divertem em apresentar imagens ridículas e falaciosas.” Observação – Como princípio, esta mediunidade certamente não é nova. Mas aqui se desenha de maneira mais precisa, sobretudo mais prática, e se mostra em condições particulares. Pode-se, pois, considerá-la como uma das variedades que foram anunciadas. Do ponto de vista da ciência espírita, ela nos faz penetrar mais adiante o mistério da constituição íntima do mundo invisível, cujas leis conhecidas confirma, ao mesmo tempo que nos mostra suas novas aplicações. Ela ajudará a compreender certos fenômenos ainda incompreendidos da vida diária e, por sua vulgarização, não deixará de abrir novo caminho à propagação do Espiritismo. Quererão ver, experimentarão; quererão compreender, estudarão, e muitos entrarão no Espiritismo por esta porta. Este fenômeno oferece uma particularidade notável. Até agora se compreendia a visão direta dos Espíritos em certas condições, a visão a distância de objetos reais: é hoje uma teoria elementar; mas aqui não são os próprios Espíritos que são vistos, e que não podem vir alojar-se num copo d’água, do mesmo modo que aí não se alojam casas, paisagens e pessoas vivas. Aliás, seria erro acreditar que aí estivesse um meio melhor que outro de saber tudo o que se deseja. Os médiuns videntes, por este processo ou qualquer outro, não vêem à vontade; não vêem senão o que os Espíritos lhes querem fazer ver, ou têm a permissão de lhes fazer ver quando a coisa é útil. Não se pode forçar a vontade dos Espíritos, nem a faculdade dos médiuns. Para o exercício de uma faculdade mediúnica qualquer, é preciso que o aparelho sensitivo, se assim nos podemos exprimir, esteja em condições de funcionar. Ora, não depende do médium fazê-lo funcionar à sua vontade. Eis por que a mediunidade não pode ser uma profissão, já que poderia faltar no momento em que fosse necessária para satisfazer o cliente. Daí a incitação à fraude, para simular a ação do Espírito. Prova a experiência que os Espíritos, sejam quais forem, jamais estão ao capricho dos homens, não mais do que e menos ainda, do que quando estavam neste mundo; e, por outro lado, diz o simples bom-senso que, com mais forte razão, os Espíritos sérios não poderiam vir ao apelo do primeiro que viesse para coisas fúteis e representar o papel de saltimbancos e de ledores de buena-dicha. Só o charlatanismo pode pretender a possibilidade de manter aberta uma banca de comércio com os Espíritos. Os incrédulos riem dos espíritas, porque imaginam que estes acreditam em Espíritos confinados numa mesa ou numa caixa, e que os manobram como marionetes. Acham isto ridículo e estão cheios de razões; onde estão errados é quando crêem que o Espiritismo ensine semelhantes absurdos, quando ele diz exatamente o contrário. Se, por vezes, no mundo, encontraram alguns de uma credulidade muito fácil, não foi entre os espíritas esclarecidos. Ora, nesse número, há necessariamente os que o são mais ou menos, como em todas as ciências. Os Espíritos não se alojam no copo d’água; eis o que é positivo. Que há, pois, no copo? Uma imagem, e não outra coisa; imagem tirada da Natureza, daí por que muitas vezes é exata. Como é produzida? Eis o problema. O fato existe, portanto tem uma causa. Embora ainda não se lhe possa dar uma solução completa e definitiva, o artigo seguinte, parece-nos, lança uma grande luz sobre a questão.
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Mês Junho
Ano 1868