Relanceou o olhar pelos ângulos da modesta residência e acrescentou:
— Se fosse possível receber maior cooperação dos amigos encarnados, ser-lhe-ia muito mais fácil o restabelecimento integral. No entanto, cada vez que os parentes se debruçam, em pranto, sobre os despojos, é chamado ao cadáver, com prejuízo para a restauração mais rápida.
— Lamentavelmente, porém, — tornou Fabriciano, — nossos irmãos encarnados não possuem a chave de reais conhecimentos para organizar ação adequada a esta hora.
— Em vista disso, — revidou a genitora, conformada, — insisto para que Dimas durma, embora o sono, que poderia ser calmo e doce, esteja povoado de pesadelos. Diante da surpresa que me absorvia, o companheiro apressou-se a esclarecer-me:
— As imagens contidas nas evocações das palestras incidem sobre a mente do desencarnado, mantido em repouso depois de rápido mergulho na contemplação dos fatos alusivos à existência finda. Não somente as imagens. Por vezes, nossos amigos presentes, fecundos nas conversações sem proveito, exumem, com tamanho calor, a lembrança de certos fatos, que trazem até aqui alguns dos protagonistas já desencarnados. As afirmações ouvidas incitaram-me a curiosidade. Fabriciano, entretanto, desejando prodigalizar-me experiência direta, aconselhou:
— Espere alguns minutos na sala contígua, onde os despojos recebem a visitação. Obedeci. O velório apresentava o aspecto usual. Flores perfumadas, semblantes sisudos e conversações discretas. Ao pé do cadáver, propriamente considerado, os amigos sustentavam reserva e circunspecção. A poucos passos, todavia, davam-se asas ao anedotário vibrante, em torno do amigo em trânsito para o “outro mundo”. Pequenas e grandes ocorrências da vida do “morto” eram lembradas com graça e vivacidade. Acerquei-me de roda compacta, em que se falava a respeito dele. Certo rapaz dirigiu-se a cavalheiro muito idoso, perguntando:
— Coronel, recebeu a conta?
— Por enquanto, não, — respondeu o velhote interpelado, preparando fumo de rolo para cigarro à moda antiga, — mas não me preocupo pela demora. Dimas foi sempre bom camarada e os filhos não olvidarão o compromisso paterno. Questão de tempo… Interessado em ressaltar as qualidades distintas do “falecido” e revelando suas boas disposições de historiador municipal, prosseguiu:
— Dimas era um homem interessante e excepcional. Sempre lhe invejei a serenidade. Em matéria de prudência, raras pessoas conheci semelhantes a ele. É verdade que nunca me dei a estudos espiritistas, mas confesso que, ao lhe observar a maneira de proceder, sempre desejei conhecer a doutrina que lhe formava o caráter. Até aí, tudo muito bem. Embora a invocação dos débitos do “morto”, o credor apenas pronunciava palavras de estímulo e paz. Todavia, no estado atual da educação humana é muito difícil alimentar, por mais de cinco minutos, conversação digna e cristalina, numa assembleia superior a três criaturas encarnadas. O comentarista modificou o diapasão de voz, olhou na direção do cadáver e observou, em tom confidencial:
— Poucos homens foram de boca segura como este. Conheci Dimas, faz muitos anos, e estou certo de que foi testemunha ocular de pavoroso crime, que nunca se desvendou para os juízes da Terra. Após ligeira pausa, acendeu o cigarro e perguntou, reaguçando a curiosidade dos ouvintes:
— Nunca souberam? Os presentes mostraram silenciosa negativa.
— Vai para trinta anos, — continuou o narrador, — Dimas residia ao lado de nobre família, que guardava consigo valiosos patrimônios da coletividade, relativamente à orientação pública. Desse agrupamento doméstico, superiormente conceituado na apreciação geral, emanavam ordens e benefícios da mais elevada expressão para o bem-estar de todos. Como não ignoram, há três decênios a vida no interior ainda conservava expressiva herança do Brasil imperial. A economia centralizada mantinha a “casa grande” simbólica, onde se traçavam roteiros para o serviço popular. Situado na vizinhança de residência feudal como essa, nosso amigo levava existência humilde de trabalhador, organizando o futuro de homem de bem. O cavalheiro, insciente dos problemas do espírito, enunciou nomes, relacionou datas e lembrou brejeiramente certos pormenores, prosseguindo com maliciosa jocosidade:
— Certa noite, pela madrugada, conhecido chefe político saía do palacete residencial pelos fundos, acompanhado de uma senhora que aparentava excessiva despreocupação consigo mesma, ao despedir-se com intempestiva manifestação de afeto. Terminado o estranho adeus e, vendo-se sozinho, o “Dom Juan” deu alguns passos para a retirada, espiou, cauteloso, em torno, e ia continuar a marcha, quando reparou que alguém lhe observara a intimidade com a esposa de respeitável amigo. Era modestíssimo operário, que talvez estivesse ali por força de circunstâncias inapreciáveis. O político alcançou-o, dum salto. Homem de compleição robusta e paixões violentas, aproximou-se do espectador inesperado e interpelou-o, brutalmente, ao que o mísero respondeu, humilde:
— Doutor, — não estou espreitando, juro-lhe!
— Pois morrerá, de qualquer modo, — adiantou o atlético agressor, em voz sumida de cólera. Agarrou-o pelo paletó e acentuou, de dentes cerrados:
— Vermes que perturbam, devem morrer.
— Não me mate, doutor! Não me mate! Rogou o infeliz, — tenho mulher e filhos! Saberei respeitá-lo!… Não valeu à vítima dobrar-se de joelhos, na súplica, porque o homem terrível, cego de fúria, tomou a arma e desfechou-lhe certeiro tiro no coração, afastando-se precípite. Dimas, tendo observado os fatos a curta distância, gritou, fazendo-se ouvir pelo assassino, que o reconheceu pelas exclamações, e correu no sentido de amparar o ferido, mas, em verdade, a vítima nem chegou a gemer. Avançando para o assassinado, quando outras pessoas, em roupas brancas, acorriam igualmente à pressa, por verificar o ocor- rido, manteve-se a cavaleiro de qualquer atitude suspeitosa; no entanto, chamado a esclarecimento pelas autoridades, ele, que tudo sabia, nada revelou. Protegeu o morto nos funerais, dispensou-lhe extremos cuidados, extensivos à família, portou-se como cristão fiel, esquivando-se, contudo, ao fornecimento de quaisquer indícios para que o criminoso fosse capturado, alegando desconhecer qualquer minúcia dos fatos que deram motivo ao acontecimento. E o caso policial foi encerrado, na suposição de latrocínio. A única testemunha, que era ele, considerava preferível o silêncio ao escândalo que traria enormes dissidências domésticas e sociais. O narrador fixava os despojos e acentuava:
— Boca segura! Não conheci homem mais discreto… Certo ouvinte indagou, brejeiro:
— Mas, coronel, como veio a saber das particularidades, se Dimas não chegou a denunciar? O interpelado fez um gesto de franca satisfação e acrescentou:
— Vantagem da boa amizade com os sacerdotes. Meu velho amigo, o padre F…, que Deus guarde, contou-me o fato, sumamente impressionado. Ouviu o assassino, em confissão, antes da morte dele e obteve todos os pormenores da obscura ocorrência. O homicida, cuidadoso na exposição das faltas, não se esqueceu de nomear Dimas ao vigário, como exclusiva testemunha do pecado mortal cometido. O padre, contudo, excelente amigo, cheio de experiência do mundo, não trouxe o caso a público. As pessoas envolvidas no drama deixaram descendência distinta e seria crueldade rememorar acontecimento tão triste. O narrador estampou curiosa expressão no rosto e rematou, apagando o cigarro:
— Tudo passa… Morreram a vítima, a adúltera, o assassino, o confessor e, agora, a testemunha. Certo, haverá lugar, fora deste mundo, para fazer-se a justiça. Nesse momento, horrível figura, seguida de outras, não menos monstruosas, surgiu de inesperado. Acercando-se do leviano comentador, ouviu-lhe, ainda, as últimas palavras, sacudiu-o e gritou:
— Sou eu o assassino! Que quer você de mim? Porque me chama? É juiz?! O narrador não enxergara o que eu via, mas seu corpo foi atingido por involuntário estremeção, que arrancou abafado riso dos presentes. Logo após, o homicida desencarnado, atraído talvez pelo cheiro forte das flores reunidas na eça improvisada, teve a perfeita noção do velório. Abalou-se, precipitado, pondo-se na contemplação do morto. Reconheceu-o, estampou um gesto de profunda surpresa, ajoelhou-se e gritou:
— Dimas, Dimas, pois também tu vens para a verdade?! Onde estás, bom amigo, que me velaste a falta com o véu da caridade sem limites? Socorre-me! Estou desesperado! Onde encontrarei minha vítima para suplicar o perdão de que necessito? Ajuda-me, ainda! Tem compaixão! Deves saber o que ignoro! Socorre-me, socorre-me!… Ao lado do infeliz, em rogativa, diversas entidades sofredoras permaneciam extáticas. Mas Fabriciano surgiu inesperadamente e ordenou aos invasores afastamento imediato. Limpa a câmara, o novo amigo dirigiu-se a mim, observando:
— Garanto que este grupo entrou nesta casa por invocação direta. Narrei-lhe, impressionado, o que vira. Ouviu-me calmamente e ponderou:
— A observação, feita por nós mesmos, é sempre mais valiosa. Dimas, não obstante dedicado à causa do bem e compelido a grande esforço de cooperação na obra coletiva, descuidou-se de incentivar a prática metódica da oração em família, no santuário doméstico. Por isso tem defesas pessoais, mas a residência conserva-se à mercê da visitação de qualquer classe. A elucidação era significativa. Comecei a compreender a razão do sentimentalismo prejudicial da família inconformada.