XI
Assim, a Natureza nos mostra, em toda a beleza da vida, o prêmio do esforço paciente e corajoso e a imagem dos nossos destinos sem-fim. Ela nos diz que tudo está em seu lugar no Universo; mas também que tudo evolve e se transforma, Almas e coisas. A morte é apenas aparente; aos tristes invernos, sucedem os dias primaveris, cheios de vida e de promessas. A lei de nossas existências não é diferente das estações. Depois dos dias de sol, do verão, vem o inverno da velhice e, com ele, a esperança dos renascimentos e de nova mocidade. A Natureza, tal quais os seres, ama e sofre. Por toda parte, sob a onda de amor que transborda no Universo, encontra-se a corrente de dor; mas esta é salutar, pois que, purificando a sensibilidade do ser, desperta nele qualidades latentes de emoção, de ternura, e lhe proporciona, assim, um acréscimo de vida. A floresta é o adorno da Terra e a verdadeira conservadora do globo. Sem ela, o solo, arrastado pelas chuvas, cedo voltaria aos abismos do mar imenso. Ela retém as largas gotas da tempestade em seus tapetes de relva, no enredamento de suas raízes; ela as economiza para as fontes e as entrega, pouco a pouco, transformadas, tornadas fertilizantes e não devastadoras. Por toda parte em que as árvores desaparecem, a terra se empobrece, perde sua beleza. Gradualmente, chegam à monotonia, à aridez e depois à morte. Regeneradora por excelência, a respiração de seus milhares de folhas (26) destila o ar e purifica a atmosfera. No ponto de vista psíquico, já o vimos, o papel da floresta não é menos considerável. Ela foi sempre o asilo do pensamento recolhido e sonhador. Quantas obras delicadas e fortes têm sido meditadas em sua sombra fresca e mutável, na paz de suas potentes e fraternais ramadas! Quem quer que possua alma de artista, de escritor, de poeta, saberá haurir nessa fonte viva e transbordante a inspiração fecunda. Com seu ritmo majestoso, a floresta embalou a infância das religiões. A arquitetura sagrada, em suas mais altivas audácias, não tem feito mais que a copiar. As naves góticas de nossas catedrais são algumas coisas além da imitação pela pedra, das mil colunatas e das abóbadas imponentes dos bosques? A voz dos órgãos não é o frêmito do vento, que, segundo a hora, suspira nos rosais, ou faz gemer os grandes pinheiros? A floresta serviu de modelo às manifestações mais altas da idéia religiosa em sua expansão estética. Nas primeiras idades, ela cobria a superfície quase inteira do globo. Nada mais impressionante para nossos pais, que a antiga e profunda selva dos gauleses, em sua grandeza misteriosa, com seus santuários naturais, onde se consumavam os ritos sagrados, seus retiros por vezes cheios de horror, quando os rumores da tempestade faziam ressoar o eco dos bosques e, do seio das touceiras, subiam o grito das feras; cheia de encanto e de poesia, quando, vindo à calma, o céu azul, a cristalina luz aparecia através da ramada e o canto dos pássaros celebrava a festa eterna da vida. De século em século, a alma céltica guardou o forte cunho da floresta primitiva e o amor de seus santuários, moradas dos Espíritos tutelares que Vercingétorix e Joana d'Arc veneraram, dos quais ouviram, na verde solidão, as vozes inspiradoras. O espírito céltico é ávido de claridade e de espaço, apaixonado da liberdade; possui intuição profunda das coisas da alma que reclamam revelação direta, comunhão pessoal com a Natureza visível e invisível. Eis por que ele estará sempre em oposição à Igreja Romana, desconfiada dessa Natureza e cuja doutrina é toda cheia de compressão e de autoridade. Os druidas e os bardos lhe foram rebeldes. Apesar das conquistas romanas e das invasões bárbaras que facilitaram a expansão do Cristianismo, a alma céltica, por uma espécie de instinto, sempre se sentiu herdeira de uma fé mais larga e mais livre que a de Roma. Inutilmente os monges procurarão impor-lhe a idéia de ascetismos e de renúncia, a submissão a dogmas rígidos, a uma concepção lúgubre da morte e do Além; o espírito céltico, em sua sede ardente de saber, de viver e de agir, escapará a esse círculo estreito. A idéia fundamental do druidismo é a evolução, a idéia do progresso e do desenvolvimento na liberdade. Essa idéia é tomada, até certa medida, à Natureza e completada pela Revelação. Com efeito, a impressão geral que ressalta do espetáculo do mundo é um sentimento de harmonia, uma noção de encadeamento, uma idéia de fim e de lei, isto é, relações eternas dos seres e das coisas. A concepção evolutiva emana do estudo dessas leis. Há uma direção, uma finalidade na evolução, e esse rumo traz o conjunto das vidas, por gradações insensíveis e seculares, para um estado sempre melhor. O Cristianismo, ou antes, o Catolicismo afastou essa idéia, mas a Ciência nos torna a levar para ela. Primeiramente, esta espiritualiza a matéria, reduzindo-a a centros de força e nos mostra o sistema nervoso, complicando-se cada vez mais na escala dos seres, para chegar ao homem. As espécies bravias tendem a desaparecer diante da superioridade do homem. Com o desenvolvimento do cérebro, o pensamento triunfa. A consciência executa sua ascensão paralela. Há aproximação entre as leis morais e as certezas físicas e biológicas. A ordem que se manifesta nos dois domínios chega a conclusões análogas. A Natureza é plástica, móvel quanto elas, e sofre a influência do Espírito Divino. Sendo essa evolução a lei central do Universo, o principal papel da ordem social é facilitá-la a todos os seus componentes. A vida é, pois, boa, útil e fecunda. Diante das perspectivas infinitas que ela nos abre, todos os sentimentos deprimentes, pessimismo, dúvida, tristeza, desespero, desaparecem para dar lugar às inspirações imortais, à esperança imperecível. É esse gênio de nossa raça, sobrenadando a onda das invasões, sobrevivendo a todas as vicissitudes da História, reaparecendo sobre vinte formas diversas, depois de períodos de eclipse e de silêncio, que explica a grande missão e a irradiação da França na obra da civilização. Mais que qualquer outra raça, os celtas, cujas origens se perdem no longínquo vertiginoso dos tempos, se aproximam, pelo instinto hereditário, do mundo das causas e das fontes da vida. Tanto na Ciência quanto na Filosofia, eles conseguiram muitas vezes aplicar o pensamento desnorteado ao sentimento da Natureza e de suas leis reveladoras, a uma concepção mais clara dos princípios eternos. Se o entusiasmo e a lei célticos pudessem extinguir-se, haveria menos luz e alegria no mundo, menos transportes apaixonados para a Verdade e o Bem. Desde mais de um século, o materialismo alemão entenebreceu o pensamento, paralisou seu surto; podemos verificar por toda parte, em torno de nós, os resultados funestos de sua influência. Mas, eis que o gênio céltico reaparece sob a forma do espiritualismo moderno, para esclarecer de novo a Alma humana em sua ascensão; ele oferece, a todos aqueles cujos lábios estão dessecados pelo áspero vento da vida, a taça de esperança e de imortalidade.
TAG Valor
Título A floresta
Parte Segunda
Título da Parte O Livro da Natureza