Capítulo 22
A questão da mediunidade dos animais se acha completamente resolvida na dissertação seguinte, dada por um Espírito, cuja profundeza e sagacidade os leitores já tiveram oportunidade de apreciar, mediante citações que fizemos anteriormente. Para bem se captar o valor da sua demonstração, é essencial que se tenha em vista a explicação por ele dada sobre o papel dos médiuns nas comunicações, explicação que reproduzimos mais atrás neste livro. (Item 225.)⁵¹ Esta comunicação foi dada em seguida a uma discussão que tratava do assunto em questão, na Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas: “Explanarei hoje a questão da mediunidade dos animais, levantada e sustentada por um dos vossos mais fervorosos adeptos. Pretende ele, em virtude deste axioma: Quem pode o mais pode o menos, que podemos “mediunizar” os pássaros e os outros animais e servir-nos deles nas nossas comunicações com a espécie humana. É o que chamais em Filosofia, ou melhor, em Lógica, pura e simplesmente um sofisma. ‘Podeis animar’, diz ele, ‘a matéria inerte, isto é, uma mesa, uma cadeira, um piano; com mais razão ainda, deveis poder animar a matéria já animada e particularmente pássaros.’ Pois bem! No estado normal do Espiritismo, não é assim, não pode ser assim. “Em primeiro lugar, precisamos nos entender bem acerca dos fatos. O que é um médium? É o ser, o indivíduo que serve de traço de união aos Espíritos, a fim de que estes possam comunicar-se facilmente com os homens: Espíritos encarnados. Consequentemente, sem médium não há comunicações tangíveis, mentais, escritas e físicas, seja qual for a natureza de cada uma delas. Há um princípio que todos os espíritas admitem: o de que os semelhantes atuam com seus semelhantes e como seus semelhantes. Ora, quais são os semelhantes dos Espíritos, senão os Espíritos, encarnados ou não? Será preciso que repitamos isto incessantemente? Pois bem! vou repetir mais uma vez: o vosso perispírito e o nosso procedem do mesmo meio, são de natureza idêntica, são semelhantes, em suma. Possuem uma propriedade de assimilação mais ou menos desenvolvida, de magnetização mais ou menos vigorosa, que permite que nos ponhamos, Espíritos desencarnados e encarnados, muito pronta e facilmente em comunicação uns com os outros. Enfim, o que é peculiar aos médiuns, o que é da própria essência da individualidade deles, é uma afinidade especial e, ao mesmo tempo, uma força de expansão particular, que lhes suprimem toda refratariedade e estabelecem, entre eles e nós, uma espécie de corrente, uma espécie de fusão, que facilita as nossas comunicações. Aliás, é essa refratariedade da matéria que se opõe ao desenvolvimento da mediunidade, na maior parte dos que não são médiuns. “Os homens se mostram sempre propensos a tudo exagerar. Uns, e não me refiro aqui aos materialistas, negam a alma aos animais, enquanto outros querem lhes atribuir uma, semelhante, por assim dizer, à nossa. Por que querer confundir assim o perfectível com o imperfectível? Não, não, convencei-vos disso, o fogo que anima os irracionais, o sopro que os faz agir, mover e falar na linguagem que lhes é própria, não tem, quanto ao presente, nenhuma aptidão para se mesclar, unir ou fundir com o sopro divino, a alma etérea, o Espírito enfim, que anima o ser essencialmente perfectível: o homem, o rei da Criação. Ora, não é essa condição essencial de perfectibilidade que constitui a superioridade da espécie humana sobre as outras espécies terrestres? Pois bem! reconhecei então que não se pode assimilar ao homem, único ser perfectível em si mesmo e nas suas obras, nenhum indivíduo de outras raças que vivem na Terra. “O cão, cuja inteligência superior entre os animais fez dele amigo e comensal do homem, será perfectível por si mesmo, por sua iniciativa pessoal? Ninguém ousaria sustentar isso, porque o cão não faz progredir o cão, e o mais adestrado entre eles sempre foi ensinado pelo seu dono. Desde que o mundo é mundo, a lontra sempre construiu sua choça em cima da água, seguindo as mesmas proporções e uma regra invariável; os rouxinóis e as andorinhas jamais construíram ninhos de modo diferente do que faziam seus pais. Um ninho de pardais de antes do dilúvio, como um ninho de pardais dos tempos modernos, é sempre um ninho de pardais, feito nas mesmas condições e com o mesmo sistema de entrelaçamento de palhinhas e de fragmentos recolhidos na primavera, na época dos amores. As abelhas e as formigas, em suas pequenas repúblicas bem administradas, jamais mudaram seus hábitos de abastecimento, sua maneira de proceder, seus costumes, suas produções. A aranha, finalmente, tece a sua teia sempre do mesmo modo. “Por outro lado, se procurardes as cabanas de folhagens e as tendas das primeiras idades da Terra, encontrareis em seu lugar os palácios e os castelos da civilização moderna. O ouro e a seda substituíram as vestes de peles brutas. Enfim, a cada passo achais a prova da marcha incessante da Humanidade pela senda do progresso. “Desse progresso constante, invencível, irrecusável do Espírito humano, e desse estacionamento indefinido das outras espécies animais, haveis de concluir comigo que, se é certo que existem princípios comuns a tudo o que vive e se move na Terra: o sopro e a matéria, não é menos certo que somente vós, Espíritos encarnados, estais submetidos à inevitável lei do progresso, que vos impele fatalmente para diante e sempre para diante. Deus colocou os animais ao vosso lado como auxiliares, para vos alimentarem, para vos vestirem e vos ajudarem. Deu-lhes certa dose de inteligência porque, para vos auxiliarem, precisavam compreender, porém limitou essa inteligência aos serviços que devem prestar. Mas, em sua sabedoria, não quis que estivessem sujeitos à mesma lei do progresso. Tais como foram criados, se conservaram e se conservarão até a extinção de suas raças. “Dizem que os Espíritos ‘mediunizam’ a matéria inerte e fazem que se movam cadeiras, mesas, pianos. Fazem que se movam, sim, ‘mediunizam’, não! Porque, repito mais uma vez, sem médium, nenhum desses fenômenos se produz. Que há de extraordinário em fazermos que a matéria inerte e passiva se mova, quando auxiliados por um ou por muitos médiuns, visto que é justamente em virtude da sua passividade e da sua inércia que ela se torna apropriada a executar os movimentos e as impulsões que lhe desejamos imprimir? Para isso, precisamos de médiuns, é claro, embora não seja necessário que o médium esteja presente ou tenha consciência do fato, pois podemos atuar com os elementos que ele nos fornece, mesmo à sua revelia e estando ausente, sobretudo para produzir os fenômenos de tangibilidade e de transportes. O nosso envoltório fluídico, mais imponderável e mais sutil do que o mais sutil e o mais imponderável dos vossos gases, unindo-se, casando-se, combinando-se com o envoltório fluídico mais animalizado do médium, cuja propriedade de expansão e de penetrabilidade escapa aos vossos sentidos grosseiros, fenômeno quase inexplicável para vós, nos permite imprimir movimentos a móveis e até quebrá-los em aposentos desabitados. “É certo que os Espíritos podem tornar-se visíveis e tangíveis para os animais. Muitas vezes, o súbito terror que deles se apodera, sem que percebais a causa, é provocado pela visão de um ou de muitos Espíritos, mal-intencionados com relação aos indivíduos presentes ou aos donos dos animais. Muito frequentemente vos deparais com cavalos que se negam a avançar ou a recuar, ou que se empinam diante de um obstáculo imaginário. Pois bem! Tende como certo que o obstáculo imaginário é quase sempre um Espírito ou um grupo de Espíritos que se comprazem em impedir que os animais avancem. Lembrai-vos da mula de Balaão que, vendo um anjo diante de si e temendo sua espada flamejante, se obstinava em não dar um passo. É que, antes de manifestar-se visivelmente a Balaão, o anjo quisera tornar-se visível somente para o animal. Mas, repito, não mediunizamos diretamente nem os animais nem a matéria inerte. Necessitamos sempre do concurso consciente ou inconsciente de um médium humano, porque precisamos da união de fluidos similares, o que não encontramos nem nos animais nem na matéria bruta.
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Parte Segunda
Nome do Capítulo Mediunidade nos animais
Item 236