Estatística do Espiritismo – Apreciação pelo jornal Solidarité
A categoria dos aflitos, dos despreocupados, dos felizes do mundo, dos sensualistas, fornece ao autor do artigo a seguinte reflexão: “É pena que isto seja pura fantasia. Nada de sensualistas, compreende-se; Espiritismo e materialismo se excluem; sessenta aflitos em cem espíritas ainda se compreende. É para os que choram que as relações com um mundo melhor são preciosas. Mas trinta pessoas despreocupadas em cem, é demais! Se o Espiritismo operasse tais milagres, faria muitas outras conquistas. Fá-las-ia sobretudo entre os felizes do mundo, que também são, quase sempre, os mais inquietos e os mais atormentados.” Há aqui um erro manifesto, pois pareceria que esse resultado é devido ao Espiritismo, ao passo que é ele que colhe, nessas categorias, mais ou menos adeptos conforme as predisposições que aí encontra. Essas cifras significam simplesmente que encontra mais adeptos entre os aflitos, um pouco menos entre as pessoas despreocupadas, menos ainda entre os felizes do mundo, e de modo algum entre os sensualistas. Antes de mais, é preciso entender-se quanto às palavras. Materialismo e sensualismo não são sinônimos e nem sempre marcham lado a lado, já que se vêem pessoas, espiritualistas por profissão e por dever, que são muito sensuais, ao passo que há muitos materialistas bastante moderados em sua maneira de viver; para eles o materialismo não passa de uma opinião, que abraçaram em falta de outra mais racional. Eis por que, quando reconhecem que o Espiritismo enche o vazio feito em sua consciência pela incredulidade, aceitam-no com felicidade; os sensualistas, ao contrário, são os mais refratários. Uma coisa muito bizarra é que o Espiritismo encontra mais resistência entre os panteístas em geral, do que entre os que são francamente materialistas. Provavelmente isto se deve a que o panteísta quase sempre cria um sistema; possui algo, ao passo que o materialista nada tem, e esse vazio o inquieta. Pelos felizes do mundo entendemos os que passam como tais aos olhos da multidão, porque se podem permitir largamente todos os prazeres da vida. É verdade que muitas vezes são os mais inquietos e os mais atormentados. Mas, por quê? pelas preocupações que lhes causam a fortuna e a ambição. Ao lado dessas preocupações incessantes, das ansiedades da perda ou do ganho, da azáfama dos negócios para uns, dos prazeres para outros, resta-lhes muito pouco tempo para se ocuparem do futuro. Não podendo ter a paz da alma senão com a condição de renunciar ao que constitui o objeto de sua cobiça, o Espiritismo pouco os afeta, filosoficamente falando. Com exceção das penas do coração, que não poupam a ninguém, a não ser os egoístas, quase sempre os tormentos da vida estão para eles nas decepções da vaidade, no desejo de possuir, de brilhar, de mandar. Pode-se, pois, dizer que atormentam a si mesmos. Ao contrário, a calma e a tranqüilidade se encontram mais particularmente nas posições modestas, quando assegurado o bem-estar da vida. Aí quase não há ambição; contentam-se com o que têm, sem se atormentarem em o aumentar, correndo os riscos aleatórios da agiotagem ou da especulação. São os que chamamos despreocupados, falando relativamente; por pouco haja neles elevação de pensamento, ocupam-se de bom grado das coisas sérias; o Espiritismo lhes oferece um atraente assunto de meditação, e o aceitam mais facilmente do que aqueles a quem o turbilhão do mundo suscita uma febre contínua. Tais são os motivos dessa classificação que, como se vê, não é tão fantasiosa quanto supõe o autor do artigo. Nós lhe agradecemos por nos ter ensejado ocasião de apontar erros que outros poderiam ter cometido, por não termos sido bastante explícitos. Em nossa estatística, omitimos duas funções importantes por sua natureza, e porque contam um número bastante grande de adeptos sinceros e devotados; são os prefeitos e os juízes de paz, que estão na quinta classe, com os meirinhos e os comissários de polícia. Uma outra omissão, contra a qual ele reclamou com justiça, e que insistem que reparemos, é a dos poloneses, na categoria dos povos. Ela é tanto mais fundada quanto o Espiritismo conta, nessa nação, numerosos e fervorosos adeptos, desde a origem. Como classe, a Polônia vem em quinto lugar, entre a Rússia e a Alemanha. Para completar a nomenclatura, seria preciso incluir outros países, como a Holanda, por exemplo, que viria após a Inglaterra; Portugal depois da Grécia; as províncias do Danúbio, onde também há espíritas, mas sobre as quais não temos dados bastante positivos para lhes assinalar a classe. Quanto à Turquia, a quase totalidade dos adeptos se compõe de franceses, italianos e gregos. Uma classificação mais racional e mais exata do que pelas nações territoriais, seria pelas raças ou nacionalidades, que não estão confinadas em limites circunscritos, apresentando, por toda parte onde se espalham, maior ou menor aptidão para assimilar as idéias espíritas. Deste ponto de vista, numa mesma região, muitas vezes se teria que fazer várias distinções. A comunicação seguinte foi dada num grupo de Paris, a propósito da classe que ocupam os alfaiates entre as profissões industriais. (Paris, 6 de janeiro de 1869 – Grupo Desliens – Médium: Sr. Leymarie) Criastes categorias, caro mestre, no início das quais colocastes certas profissões. Sabeis o que, em nossa opinião, arrasta certas pessoas a se tornarem espíritas? São as mil perseguições que sofrem em suas profissões. Os primeiros de que falais devem ter ordem, economia, cuidado, gosto, ser um pouco artistas e, depois, ser ainda pacientes, saber esperar, escutar, sorrir e saudar com certa elegância; mas, após todas essas pequenas convenções, mais sérias do que se pensa, ainda é preciso calcular, ordenar sua caixa pelo ativo e pelo passivo e sofrer, sofrer continuamente. Em contato com homens de todas as classes, comentando as queixas, as confidências, os enganos, os rostos falsos, aprendem muito! Levando essa vida múltipla, sua inteligência se abre por comparação; seu espírito se fortifica pela decepção e pelo sofrimento. E eis por que certas categorias compreendem e aclamam todos os progressos; amam o teatro francês, a bela arquitetura, o desenho, a filosofia; muitos amam a liberdade e todas as suas conseqüências. Sempre à frente e à espreita do que consola e faz esperar, elas se dão ao Espiritismo, que lhes é uma força, uma promessa ardente, uma verdade que engrandece o sacrifício e, mais do que acreditais, a parte classificada como a no 1 vive de sacrifícios. Sonnet
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Mês Fevereiro
Ano 1869