Enquanto nos entretínhamos com o vosso irmão, uma das pessoas aqui presentes orou por ele. Essa prece lhe foi proveitosa? – R. Ela não se perderá. Se ele agora recusa a graça, assim não agirá quando estiver em condições de recorrer a essa divina panaceia.⁸⁰
Aqui entrevemos um outro gênero de castigo, mas que não é o mesmo em todos os incrédulos. Para este Espírito, é independente do sofrimento a necessidade de reconhecer as verdades que repudiara quando encarnado. Suas ideias naturais denotam certo progresso, em comparação às de outros Espíritos que persistem na negação de Deus. Já é alguma coisa confessar o próprio erro, porque é premissa de humildade. Na sua próxima encarnação, é mais que provável que a incredulidade ceda lugar ao sentimento inato da fé.
Transmitimos o resultado destas evocações à pessoa que no-las havia solicitado, recebendo, por nossa vez, a seguinte resposta:
“Não podeis imaginar, meu caro senhor, o grande benefício advindo da evocação de meu sogro e de meu tio. Reconhecemo-los perfeitamente. A letra do primeiro, sobretudo, apresenta notável analogia com a que ele tinha em vida, tanto mais quanto, durante os últimos meses que passou conosco, essa letra era sofreada e indecifrável. Aí se verificam a mesma forma de “pernas”, da rubrica e de certas letras. Quanto às palavras, às expressões e ao estilo, a semelhança é ainda mais frisante; para nós a analogia é perfeita, apenas com maior conhecimento de Deus, da alma e da eternidade que ele tão formalmente negava outrora. Estamos perfeitamente convictos da sua identidade. Deus será glorificado pela maior firmeza das nossas crenças no Espiritismo, e os nossos irmãos encarnados e desencarnados se tornarão melhores. A identidade de seu irmão também não é menos evidente; a despeito da enorme diferença entre o ateu e o crente, reconhecemos-lhe o caráter, o estilo e a forma peculiar das frases. Uma palavra, sobretudo, nos chamou a atenção: panaceia, por quem tinha predileção e que a todo instante repetia.
Mostrei essas duas evocações a várias pessoas, que também se admiraram da sua veracidade, mas os incrédulos, os que partilham as mesmas opiniões dos meus parentes, desejariam respostas ainda mais categóricas. Queriam, por exemplo, que o Sr. D... indicasse o lugar em que foi enterrado, onde se afogou, como foi encontrado etc. A fim de os satisfazer e convencer, não poderíeis fazer nova evocação, perguntando onde e como se suicidou, quanto tempo esteve submerso, em que lugar acharam o cadáver, onde foi inumado, de que modo, se civil ou religiosamente, foi sepultado? Dignai-vos, caro senhor, responder categoricamente a essas perguntas, pois são essenciais para os que ainda duvidam. Estou convencido de que darão, nesse caso, imensos resultados. Dou-me pressa a fim de que esta carta vos seja entregue na sexta-feira de manhã, de modo a poder fazer-se a evocação na sessão da Sociedade desse mesmo dia... etc.”
Reproduzimos esta carta pelo fato da confirmação da identidade e aqui lhe anexamos a nossa resposta para ensino das pessoas não familiarizadas com as comunicações de além-túmulo.
“As perguntas que nos pediram para novamente endereçar ao Espírito de vosso sogro são, incontestavelmente, ditadas por intenção louvável, qual a de convencer incrédulos, considerando-se que não vos move qualquer sentimento de dúvida ou curiosidade. Todavia, um conhecimento mais aprofundado vos faria julgar supérfluas essas perguntas. Em primeiro lugar, solicitando-me conseguir resposta categórica, mostrais ignorar a circunstância de não podermos governar os Espíritos ao nosso bel-prazer. Eles nos respondem como e quando querem, e também como podem. Sua liberdade de ação é maior ainda do que quando encarnados, possuindo meios mais eficazes de escaparem ao constrangimento moral que por acaso queiramos exercer sobre eles. As melhores provas de identidade são as que eles dão espontaneamente, por si mesmos, ou então as oriundas das próprias circunstâncias, sendo quase sempre inútil provocá-las. Segundo afirmais, o vosso parente provou a sua identidade de modo incontestável; por conseguinte, é mais que provável a sua recusa em responder a perguntas que, com toda razão, podem por ele ser consideradas supérfluas, visando satisfazer à curiosidade de pessoas que lhe são indiferentes. Ele poderia responder como têm feito tantos outros em casos semelhantes: ‘Para que perguntais coisas que já sabeis?’.
A isto acrescentarei que o estado de perturbação e de sofrimentos em que ele se encontra deve agravar-se com as investigações desse gênero. É exatamente como se alguém quisesse constranger um doente, que mal consegue falar, a contar detalhes de sua vida, faltando-se assim às considerações devidas ao seu próprio estado.
Quanto ao resultado que esperais, ficai certo de que seria nulo. As provas de identidade fornecidas são bem mais valiosas por terem sido espontâneas, e não de antemão premeditadas. Ora, se os incrédulos não se deram por satisfeitos, muito menos se contentariam com interrogativas preestabelecidas, de cuja conivência poderiam suspeitar. Há pessoas a quem coisa alguma pode convencer. Mesmo que vissem o vosso parente, com os próprios olhos, continuariam a supor-se vítimas de uma alucinação.
Duas palavras ainda, senhor, quanto ao pedido que me fizestes de promover essa evocação no mesmo dia do recebimento de vossa carta. As evocações não se fazem assim de improviso e a toque de caixa. Os Espíritos nem sempre correspondem ao nosso apelo; é preciso que queiram e, também, que possam fazê-lo. É preciso ainda que encontrem um médium que lhes convenha, com as aptidões especiais necessárias e que esse médium esteja disponível em dado momento. É preciso, enfim, que o meio lhes seja simpático etc. São circunstâncias que nem sempre podem ser satisfeitas, importando muito conhecê-las quando se quer fazer a coisa com seriedade.”