O trabalho mediúnico oferece insuspeitadas condições de aprendizado. Cada sessão traz as suas surpresas; cada manifestação suas lições e ensinamentos. A contínua observação desse vaivém de companheiros desencarnados, o desfile trágico de problemas, angústias, dores e ódios, a força irresistível do amor, as maravilhas da prece, o poder do passe, constituem experiência inesquecível para aqueles que, ao longo dos anos, entregam-se a essas tarefas redentoras.
Uma pergunta poderá ser colocada agora. Que papel representam as mulheres, nesses dramas que se desenrolam entre os dois mundos? Há mulheres obsessoras? Há mulheres que se vingam, que perseguem, que odeiam? Sim, mas em número bem mais reduzido que os homens.
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Antes de prosseguir, talvez sejam convenientes algumas observações de caráter doutrinário.
O Espiritismo ensina que o Espírito não tem sexo, podendo encarnar-se como homem ou como mulher, em diferentes existências, mas que costuma escolher, preferentemente, um ou outro sexo, renascendo continuamente como homem ou mulher (questões números 200 a 202, de O LIVRO DOS ESPÍRITOS).
Ao comentar as respostas, Kardec escreveu o seguinte: “Os Espíritos encarnam como homens ou como mulheres, porque não têm sexo. Visto que lhes cumpre progredir em tudo, cada sexo, como cada posição social, lhes proporciona provações e deveres especiais e, com isso, ensejo de ganharem experiência. Aquele que só como homem encarnasse só saberia o que sabem os homens.” Dessa forma, não são muito precisas as expressões Espírito feminino e Espírito masculino, que são usadas à falta de outras. A questão é bem mais complexa do que parece à superfície.
Certa vez, perguntei a um amigo espiritual por que difere tanto, na sua estrutura psíquica, o Espírito encarnado como homem, daquele que se encarna como mulher. O homem é mais agressivo, dado a gestos de coragem física, menos sentimental, ao passo que a mulher inclina-se mais à compassividade, à renúncia, ao recato, sendo, portanto, mais acessível à emoção e aos sentimentos. Por que isso, se, não tendo sexo, os Espíritos deveriam ser assemelhados?
Disse-me ele, coerente com os postulados doutrinários, que, como Espíritos, conservam características em comum, mas, ao se reencarnarem, aceitam condições que lhes facultam desenvolvimento de certas faculdades, em detrimento de outras; ou melhor, optam pelo aprimoramento de alguns aspectos espirituais em que estejam particularmente interessados.
Assim é, realmente. Como a perfeição deverá resultar, um dia, do desenvolvimento harmonioso de todas as faculdades possíveis ao ser humano, é natural que este tenha que ir por
etapas, cultivando-as em buques, até que, alcançando o ponto desejado, possa encetar outras realizações.
Tentemos, não obstante, ampliar um pouco mais a questão, na esperança de alcançar uma visão mais clara de suas dificuldades. Ao responderem à pergunta formulada por Kardec (Têm sexos os Espíritos?), os instrutores informaram o seguinte: “Não como o entendeis, pois que os sexos dependem da organização. Há entre eles amor e simpatia, mas baseados na concordância dos sentimentos.”
Certamente que sentiram, esses instrutores, que não era tempo, ainda, de aprofundar mais a questão, mas disseram o bastante para compreendermos alguns pontos essenciais. De fato, a Doutrina nos ensina, alhures, que o ser encarnado resulta de um “arranjo” entre três componentes distintos: espírito, perispírito e corpo físico. Ao declararem que o sexo depende da organização, deixaram bem entendido que a diferenciação sexual não alcança o núcleo da individualidade, representado pelo Espírito imortal, pois fica contida nos limites extremos da organização perispiritual. Por outro lado, Emmanuel informa, em resposta à pergunta número 30: “Há órgãos no corpo espiritual?”,21 que sim, pois o corpo físico “é uma exteriorização aproximada do corpo perispiritual”, e prossegue acrescentando que tal exteriorização “subordina (-se) aos imperativos da matéria mais grosseira, no mecanismo das heranças celulares, as quais, por sua vez, se enquadram nas indispensáveis provações ou testemunhos de cada individuo”.
Essa interdependência entre corpo físico e perispírito é acentuada por André Luiz22 ao declarar que: “Os cromossomos, estruturados em grânulos infinitesimais de natureza fisiopsicossomática, partilham do corpo físico pelo núcleo da célula em que se mantêm, e do corpo espiritual pelo citoplasma em que se implantam.”
É bastante compreensível, pois, que os seres que trazem o perispírito ainda espesso, regressem ao mundo póstumo, pela desencarnação, com uma pesada carga fluídica, profundamente impregnada de materialidade e, por conseguinte, de sensações e necessidades bem semelhantes às que experimentava na carne. Isto é confirmado pelos relatos mediúnicos, sendo a série André Luiz bastante rica em informações desse tipo. Para não alongar demais esta digressão, sugiro a releitura do capítulo 99 de NOSSO LAR, sob o título “Problema da alimentação”. Informa Lísias que, há cerca de um século, a questão alimentar era muito séria ali na colônia. Muitos dos recém-chegados da carne “duplicavam exigências”. Queriam mesas lautas, bebidas excitantes, “dilatando velhos vícios terrenos”. Quando a direção da colônia tomou providências mais enérgicas para coibir os abusos, estabeleceu-se um comércio clandestino com os representantes das trevas que, agindo, como sempre, através das brechas que as nossas paixões inferiores lhes abrem, utilizavam-se desse lamentável intercâmbio como instrumento de infiltração e assalto à vasta organização regeneradora intitulada “Nosso Lar”. Foram implantadas severas medidas de correção e reajuste, mas os alimentos não foram totalmente abolidos, em virtude da condição perispiritual, ainda bastante densa, da grande maioria dos que habitam aquela colônia. No capítulo 18 dessa mesma obra, Laura informa que: — “Afinal, nossas refeições aqui são muito mais agradáveis que na Terra. Há residências, em Nosso Lar, que as dispensam quase por completo; mas, nas zonas do Ministério do Auxílio, não podemos prescindir dos concentrados fluídicos, tendo em vista os serviços pesados que as circunstâncias impõem. Despendemos grande quantidade de energias. É necessário renovar provisões de força.” Portanto, a alimentação com substâncias concentradas é ainda indispensável,
21 O CONSOLADOR. FEB, 4ª edição, capítulo 1 — “Ciências Fundamentais: Biologia”.
22 EVOLUÇÃO EM DOIS MUNDOS, 3ª edição, capitulo 6º, página 50.
mesmo para aqueles Espíritos mais esclarecidos, que se entregam a tarefas redentoras, ainda que mais humildes.
Assim, da mesma forma que os problemas alimentares, os de sexo não ficam totalmente eliminados por um passe de mágica, simplesmente porque se deu a desencarnação. Espíritos enredados nas tramas da sensualidade, tombam em situações calamitosas no mundo póstumo.
Somente os mais purificados conseguem libertar-se dos apelos da carne.
— “Entre os casais mais espiritualizados — informa Laura a André —, o carinho e a confiança, a dedicação e o entendimento mútuos permanecem muito acima da união física, reduzida, entre eles, a realização transitória”. “Inútil é supor — diz um elevado instrutor23 — que a morte física ofereça solução pacífica aos espíritos em extremo desequilíbrio, que entregam o corpo aos desregramentos passionais. A loucura, em que se debatem, não procede de simples modificações do cérebro: dimana da desassociação dos centros perispiríticos, o que exige longos períodos de reparação.” E, mais adiante: “Convictos desta realidade universal (a aquisição gradativa das virtudes) não podemos esquecer que nenhuma exteriorização do instinto sexual na Terra, qualquer que seja sua forma de expressão, será destruída, senão transmudada no estado de sublimação.”
Não resta dúvida, portanto, do estudo doutrinário e das observações colhidas, por Espíritos credenciados, no imenso laboratório da vida, que o sexo persiste no mundo póstumo, até que seja sublimado. A sublimação há de marchar, por isso, junto com a sutilização progressiva do Espírito, pois que, chegado à condição de pureza, o sexo será, para o Espírito, apenas a lembrança de uma experiência valiosa que, entre outras, lhe serviu de degrau para a sua escalada.
Retomando, porém, nossas perguntas iniciais, poderemos responder que, infelizmente, Espíritos que passaram por experiências no sexo feminino também odeiam, perseguem, obsidiam.
Alguns são mesmo particularmente agressivos, rancorosos e violentos. É que; levando para o Além as suas frustrações, seus desvios, suas ânsias, recaem, fatalmente, em faixas desarmonizadas, onde se consorciam com outros seres igualmente desarvorados, para darem prosseguimento ao exercício das paixões incontroladas. Nesse estado, continuam mulheres, sentindo e agindo como tais.
Exercem seus poderes de sedução sobre outros seres, ganham “vestimentas”, “jóias”, “sapatos” e “perfumes”, a troco de favores. Prestam serviços tenebrosos junto a companheiros encarnados, mancomunados aos seus comparsas das sombras, que lhes asseguram uma “boa vida” de prazeres e proteção contra a dor que as espera fatalmente, para o reencontro, um dia, lá na frente. De outras vezes, são escravizadas, reduzidas à condição mais abjeta, e seviciadas, perambulando, dementadas, em andrajos imundos, por vales de sombras espessas, até que, desgastadas pelo sofrimento, tenham um impulso de arrependimento que lhes possibilite o socorro de que tanto necessitam.
Temos tido algumas experiências com espíritos femininos. Já lembrei, noutro ponto deste livro, o caso da irmã que se empenhava em perturbar uma família, tentando destruir um lar, para o que contava com o apoio de um sacerdote desencarnado, que a incentivava, e a isentava de culpa, “absolvendo-a”, provavelmente no confessionário, da responsabilidade, sob a alegação de que, em encarnação anterior, ela também fora traída.