Terceira Conversação
— O Padre(44) — Um abade: — O senhor me permite, por minha vez, fazer-lhe algumas perguntas? A.K.: — À vontade, reverendo, mas, antes de lhe responder, creio que lhe será útil tomar conhecimento da posição em que pretendo me colocar perante o senhor. Devo inicialmente declarar que não procurarei, de forma alguma, convertê-lo para as nossas idéias. Se o senhor quiser conhecê-las detalhadamente, irá encontrá-las nos livros em que estão expostas; neles poderá estudá-las à vontade, e estará livre para aceitá-las ou recusá-las. O Espiritismo tem por objetivo combater a incredulidade e suas funestas conseqüências, dando provas evidentes da existência da alma e da vida futura. Ele, portanto, se destina àqueles que não crêem em nada ou que duvidam, e o senhor sabe que o número dessas pessoas é grande. Aqueles que têm uma fé religiosa, e a quem essa fé é suficiente, não precisam dele. Àquele que diz: “eu creio na autoridade da Igreja, e me limito ao que ela ensina, sem nada procurar além,” o Espiritismo responde que não se impõe a ninguém e não vem forçar nenhuma convicção. A liberdade de consciência é uma conseqüência da liberdade de pensar, que é um dos atributos da criatura humana; o Espiritismo estaria em contradição com os seus princípios de caridade e de tolerância, se não a respeitasse. Aos seus olhos, toda crença, desde que seja sincera e não induza a fazer mal ao semelhante, é respeitável, ainda que seja errada. Se alguém conscientemente se empenhasse em crer, por exemplo, que é o Sol que gira em volta da Terra, nós lhe diríamos: se isso lhe agrada, acredite, porque sua crença não vai impedir a Terra de girar; mas, assim como não procuramos violentar a sua consciência, não procure violentar a dos outros. Se, de uma crença, inocente em si mesma, se fizer um instrumento de perseguição, ela se tornará nociva e pode ser combatida. Esta é, senhor abade, a linha de conduta que eu tenho mantido com os ministros dos diversos cultos que me têm procurado. Quando me questionam sobre alguns pontos da Doutrina, eu lhes dou as explicações necessárias, sempre me abstendo de discutir certos dogmas com os quais o Espiritismo não tem de se preocupar, sendo cada pessoa livre nas suas apreciações, mas eu jamais fui procurá-los com o intuito de enfraquecer a sua fé por uma pressão qualquer. Aquele que nos procura como um irmão, nós o acolhemos como um irmão, aquele que nos repudia, nós o deixamos em paz. Este é o conselho que dou incessantemente aos espíritas, visto que jamais aprovei aqueles que se atribuem a missão de converter o clero. Eu sempre lhes digo: semeiem no campo dos incrédulos, porque lá existe uma imensa colheita para fazer. O Espiritismo não se impõe, porque, como eu já disse, ele respeita a liberdade de consciência; ele sabe, aliás, que toda crença imposta é superficial e só dá as aparências da fé, não a fé sincera. Ele expõe seus princípios aos olhos de todos, de maneira que cada um possa formar a sua opinião com conhecimento de causa. Aqueles que os aceitam, padres ou leigos, o fazem livremente, e porque os acham racionais; mas nós não queremos isso, de maneira alguma, daqueles que não são da nossa opinião. Se hoje existe luta entre a Igreja e o Espiritismo nós temos consciência de não a haver provocado. O padre: — Se a Igreja, vendo surgir uma nova doutrina, nela encontra princípios que, em sua consciência, acredita que deve condenar, o senhor lhe contestaria o direito de discuti-los e combatê-los, de prevenir os fiéis contra o que ela considera como erros? A. K.: — De maneira alguma contestamos um direito que reclamamos para nós mesmos. Se a Igreja tivesse se encerrado nos limites da discussão, nada melhor, mas leia a maioria dos escritos emanados dos seus membros ou publicados em nome da religião, os sermões que têm sido pregados, e verá neles a injúria e a calúnia transbordarem de todos os lugares, e os princípios da doutrina indigna e perversamente desfigurados em toda parte. Não se tem ouvido, do alto dos púlpitos, os adeptos do Espiritismo serem qualificados de inimigos da sociedade e da ordem pública? E aqueles a quem a Doutrina reconduziu para a fé, serem amaldiçoados e rejeitados pela Igreja com a alegação de que ainda é preferível ser incrédulo a acreditar em Deus e na própria alma pelo Espiritismo? Não se tem ouvido também ser lastimada a ausência das fogueiras da inquisição para os espíritas? Em certas localidades, os espíritas não têm sido marcados pelo ódio dos seus concidadãos, até o ponto de serem perseguidos e injuriados pelas ruas? Não se tem ordenado, a todos os fiéis, que se afastem deles como de pestíferos, e impedido que as pessoas entrem a seu serviço? As mulheres, não têm sido solicitadas a se separarem de seus maridos, e os maridos de suas mulheres por causa do Espiritismo? Não se tem feito os empregados perderem o seu lugar, retirando de operários o pão do trabalho e dos necessitados a caridade, porque eles eram espíritas? Não se tem retirado, de certos asilos, até cegos porque eles não querem abjurar a sua crença? Diga-me, senhor abade, será isso uma discussão leal? Os espíritas responderam a injúria com a injúria e o mal com o mal? Não. A tudo eles opuseram a calma e a moderação. A consciência pública já lhes fez a justiça de reconhecer que eles não foram os agressores. O padre: — Todo homem sensato deplora esses excessos, mas a Igreja não poderia ser responsável pelos abusos cometidos por alguns de seus membros pouco esclarecidos. A. K.: — Eu concordo, mas são membros pouco esclarecidos os príncipes da Igreja? Veja a pastoral do bispo de Argel(45) e alguns outros. Não foi um bispo que ordenou o auto-de-fé de Barcelona?(46) A autoridade superior eclesiástica não tem todo o poder sobre os seus subordinados? Se ela tolera sermões indignos do púlpito evangélico, se ela favorece a publicação de escritos injuriosos e difamatórios contra uma classe de cidadãos, se ela não se opõe às perseguições exercidas em nome da religião, é porque ela as aprova. Em resumo, a Igreja, repelindo sistematicamente os espíritas que retornavam a ela, forçou-os a refletirem; pela violência e natureza de seus ataques, ela ampliou a discussão e levou-a para um novo terreno. O Espiritismo era uma simples doutrina filosófica, foi a própria Igreja que o ampliou, apresentando-o como um inimigo perigoso; foi ela, enfim que o proclamou nova religião. Foi uma falta de habilidade, mas a paixão não raciocina. Um livre pensador: — O senhor proclamou, há pouco tempo, a liberdade do pensamento e da consciência e declarou que toda crença sincera é respeitável. O materialismo é uma crença como outra qualquer, porque ele não pode gozar da liberdade que o senhor concede a todas as outras crenças? A. K.: — Certamente cada um é livre para crer no que lhe agrada, ou de não crer em nada, e nós não perdoa ríamos mais uma perseguição contra aquele que crê no nada após a morte do que contra um cismático(47) de uma religião qualquer. Combatendo o materialismo, nós atacamos, não os indivíduos, mas uma doutrina que, se é inofensiva para a sociedade, quando se encerra no foro íntimo da consciência de pessoas esclarecidas, é um flagelo social se ela se generaliza. A crença de que, após a morte, tudo se acaba para o homem, e de que toda solidariedade cessa juntamente com a vida, leva-o a considerar o sacrifício do bemestar presente em proveito de outros, como um absurdo, daí a máxima: “Cada um por si durante a vida, já que não há nada além dela.” A caridade, a fraternidade, a moral, em uma palavra, não têm nenhuma base, nenhuma razão de ser. Por que nos constrangermos, nos incomodarmos, sofrer privações hoje, quando amanhã, talvez, não seremos mais nada? A negação do porvir, a simples dúvida sobre a vida futura, são os maiores estimulantes do egoísmo que é a fonte da maioria dos males da humanidade. É preciso muita virtude para não escorregar pela ladeira do vício e do crime, sem outro freio além da força de vontade. O respeito humano pode moderar o homem do mundo, mas não aquele para quem o temor da opinião não existe. A crença na vida futura, mostrando a perpetuidade das relações entre os homens, estabelece entre eles uma solidariedade que não cessa no túmulo, ela muda, assim, o curso das idéias. Se essa crença fosse um simples espantalho não duraria muito tempo, mas como a sua realidade é incontestável pela experiência, é dever propagá-la e combater a crença contrária, no próprio interesse da ordem social. É o que faz o Espiritismo, e o faz com sucesso porque dá as provas e porque, definitivamente, o homem prefere a certeza de viver, e poder viver feliz em um mundo melhor, como compensação das misérias deste mundo, a crer estar morto para sempre. A idéia de se ver para sempre destruído, de ter seus filhos e os seres que lhe são caros perdidos sem retorno, sorri a um número muito pequeno, de pessoas, acredite; é por isso que os ataques dirigidos contra o Espiritismo em nome da incredulidade têm tão pouco sucesso e não o abalaram um só instante. O padre: — A religião ensina tudo isso; até hoje ela foi suficiente, portanto, qual a necessidade de uma nova doutrina? A. K: — Se a religião tem sido suficiente por que há tantos incrédulos, religiosamente falando? A religião nos ensina, é verdade, ela nos diz para crer, mas há muitas pessoas que não acreditam em palavras. O Espiritismo prova, e faz ver o que a religião ensina pela teoria. Aliás, de onde vêm essas provas? Da manifestação dos espíritos. Ora, é provável que os espíritos só se manifestem com a permissão de Deus; portanto, se Deus, em sua misericórdia, envia aos homens esse socorro para tirá-los da incredulidade, é uma impiedade recusá-lo. O padre: — Entretanto, o senhor há de convir que o Espiritismo não está de acordo com a religião em todos os pontos. A. K.: — Meu Deus, senhor abade, todas as religiões dirão o mesmo: os protestantes, os judeus, os muçulmanos, do mesmo modo que os católicos!
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Título O Padre
Capítulo I
Título do Capítulo Pequena Conferência Espírita
Tradutor Albertina Escudeiro Sêco
Editora CELD
Edição 1ª edição, 2008
ISBN 978-85-7297-421-9