Não persigas o respeito humano que te faça aparecer melhor que és, mas busca, em todo tempo e lugar, a bênção divina na aprovação da própria consciência. Não procures destacada posição, diante dos outros; antes de tudo, aperfeiçoa os teus sentimentos, cada vez mais, sem propaganda de tuas virtudes vacilantes e problemáticas. Age corretamente e esquece as frases vazias ou venenosas da maledicência contumaz. Em te socorrendo das diretrizes alheias, desconfia das palavras que te lisonjeiem a fantasiosa superioridade pessoal ou que te inclinem à dureza de coração. Diante da fartura ou da escassez, recorda o serviço que o Senhor te convocou a realizar e produze o bem em seu nome, onde estiveres. Lembra-te de que a experiência na carne é demasiadamente breve e que a tua cabeça deve permanecer tão cheia de ideais santificantes, quanto as mãos repletas de trabalho salutar. Para que atendas, porém, a semelhante programa, é imprescindível abras o coração ao sol renovador do Sumo Bem. De alma cerrada ao interesse pela felicidade do próximo, jamais encontrarás a própria felicidade. A alegria que improvisares, em torno dos pés alheios, te fará mais rica de júbilo. Na paz que semeares, encontrarás a colheita da paz que desejas. Estes, são princípios da vida radiante. No insulamento, ninguém recolherá a suprema alegria. Para a sabedoria divina, tão infortunado é o pastor que perdeu o rebanho, quanto a ovelha que perdeu o pastor. A desistência de ajudar é tão escura quanto o relaxamento de extraviar-se. O egoísmo conseguirá criar um oásis, mas nunca edificará um continente. É indispensável, Margarida, aprenderes a sair de ti mesma, auscultando a necessidade e a dor daqueles que te cercam. Nesse ínterim, calou-se a voz da protetora e, sentindo-se banhada na infinita luz daqueles momentos inesquecíveis, a esposa de Gabriel indagou, embriagada de ventura:
— Ó Deus! Pai Misericordioso, a que devo atribuir a graça inolvidável desta hora? Matilde, pretendendo talvez imprimir ampla familiaridade à cena a que assistíamos, levantou-se, abraçada à filha espiritual, e, caminhando ao nosso encontro, apresentou-nos a ela, por particulares amigos. Confraternizadora palestra estabeleceu-se, extinguindo-se a onda de lágrimas que nos visitava, indistintamente, ante a conversação comovedora e inesquecível. Chegou, entretanto, o momento em que a benfeitora se revelou interessada em despedir-se. Antes, porém, cravou o olhar muito lúcido na ex-obsidiada e falou-lhe, resoluta:
— Margarida, agora que reténs, tanto quanto possível, regular consciência de ti mesma em nossa Esfera de ação, ouve o apelo que te endereçamos. Não suponhas que te visito pelo simples prazer de consolar-te, o que seria talvez induzir-te ao caminho da despreocupação irresponsável que nunca nos dirige à verdadeira paz. A finalidade divina há de ser, em tudo, a alma de nossa ação. O lavrador que amanha o solo e o socorre com irrigação confortadora, algo espera da sementeira que lhe reclama o esforço diário. O amparo do Alto, direto ou indireto, reservado ou ostensivo, não é apenas mera exibição de poder celestial. Os moradores dos Círculos mais elevados não se arriscariam a descer, sem objetivos de ordem superior, ao domicílio da mente encarnada, assim como os artistas da inteligência não se animariam a movimentar espetáculos de cultura intelectual, sem fins educativos, junto aos irmãos de raciocínios e sentimentos ainda rudimentares ou inferiores. O tempo é valioso, minha filha, e não podemos menoscabá-lo, sem grave prejuízo para nós mesmos. Ante a expressão de surpresa que a tutelada de Gúbio estampava no semblante inquieto, Matilde continuou:
— Em breves anos, voltarei também ao círculo de lutas em que te debates.
— Tu?
— Gritou Margarida, apalermada, ante a perspectiva de renascimento carnal para o ser iluminado que se mantinha à nossa vista, — porque te seria imposta semelhante pena?
— Não te guardes em tamanha incompreensão da lei do trabalho, — ajuntou a mensageira, sorrindo; — a reencarnação nem sempre é simples processo regenerativo, embora, na maioria das vezes, constitua recurso corretivo de Espíritos renitentes na desordem e no crime. A Crosta da Terra é comparável a imenso mar onde a alma operosa encontra valores eternos aceitando os imperativos de serviço que a Bondade Divina nos oferece. Além disso, todos temos doces laços do coração, que se demoram, por muitos séculos, retidos ao fundo do abismo. É indispensável buscar as pérolas perdidas para que o paraíso não permaneça vazio de beleza ao nosso olhar. Depois de Deus, o amor é a força gloriosa que alimenta a vida e move os mundos. A benfeitora fitou a jovem senhora, enlevada, fez pequena pausa e aduziu:
— Em razão disto, espero não desconheças a santidade do ministério maternal, na orientação dos Espíritos renascentes. Nossas melhores possibilidades se perdem na “esfera do recomeço”, por falta de braços decididos e conscientes que nos guiem através dos labirintos do mundo. Carinho, quase sempre, não falta no santuário familiar, onde a alma se habilita à recapitulação de valiosa aventura; entretanto, a ternura absoluta é tão nociva quanto a absoluta aspereza. Não ignoras, filha amada, que a entidade mais enobrecida, em retomando o veículo de carne, é compelida a sofrer-lhe os regulamentos. As leis fisiológicas, que dominam na Crosta, não fazem exceção. Impõem-se sobre os justos com o mesmo rigor dentro do qual funcionam para os pecadores. O anjo que desça ao fundo da mina de carvão continuará naturalmente a ser um anjo na vida íntima; entretanto, não escapará ao clima deprimente do subsolo. O esquecimento temporário me acompanhará, nos abafadores das células físicas, mas o êxito desejável somente me felicitará se eu puder contar com a tua orientação robusta e vigilante. Bem sei que, depois, regressando por tua vez ao envoltório que te liga ao Círculo comum da luta terrestre, olvidarás, igualmente, a nossa conversação desta hora. No entanto, a saúde e a harmonia que te inundarão a estrada doravante, aliadas ao otimismo e à esperança, que persistirão em teu espírito por recordações indeléveis e vagas destes instantes divinos, não te deixarão esquecer de todo. Defende o teu corpo, como quem preserva um recipiente sagrado para o serviço do Senhor e espera-me em tempo breve. Viveremos mais juntas, na peregrinação meritória. Nos abençoados elos do sangue seremos mãe e filha, de maneira a aprendermos, mais intensamente, a ciência da fraternidade universal. Realmente, Margarida, o meu retorno ser-te-á sacrifício doloroso ao corpo frágil e delicado; todavia, ajuda-me na sementeira renovada para que eu te seja útil na colheita infalível. Não me recebas, nos braços, por boneca mimosa e impassível. Adornos externos nunca trazem felicidade legítima ao coração, e, sim, o caráter edificado e cristalino, base segura de que se expande a boa consciência. A estufa pode alimentar as flores mais lindas da Terra, mas não produz os melhores frutos. A árvore benfeitora não prescindirá do carinho e da assistência constante do pomicultor. É imperioso reconhecer, porém, que somente se fortalecerá sob a temperatura atormentadora da canícula, debaixo de aguaceiros salutares ou aos golpes da ventania forte. A luta e o atrito são bênçãos sublimes, através das quais realizamos a superação de nossos velhos obstáculos. É necessário não menosprezá-los, identificando neles o ensejo bendito de elevação. Compreende-me as necessidades para que eu te possa entender no momento justo. As conveniências humanas são respeitáveis, mas as conveniências espirituais são divinas. Auxilia-me a conquistar equilíbrio nas primeiras, a fim de atender aos imperativos celestiais do Espírito eterno. Logo que me sintas nos braços, não me relegues à garridice e à inutilidade, a pretexto de guardar-me em maternal proteção. Não é com enfeites exteriores que ajudaremos o vegetal precioso a crescer e frutificar, mas, sim, com o esforço perseverante da enxada, com a vigilância na defesa, com o adubo estimulante e com a poda benfeitora. Não me percas de vista, para que o amor e a gratidão a Deus perdurem para sempre em minha memória frágil. Socorre-me em tempo para que eu seja útil, no momento oportuno. Edificados com a lição indireta que se nos administrava, reparamos que Margarida, em copioso pranto, prometia tudo quanto lhe era solicitado. A doce palestra interessava-nos a todos e, por nossa vontade, seria indefinidamente alongada no tempo; porém, Matilde agora revelava no olhar a preocupação de ausentar-se. Dirigiu, ainda, brandas frases de reconforto à filha querida, envolveu-a em operações magnéticas, reajustando-lhe os centros perispiríticos, carinhosamente, e rogou o auxílio de Elói para que a esposa de Gabriel regressasse ao envoltório carnal. Despedindo-se em definitivo, a grande mentora acrescentou algumas recomendações de adeus.
— Margarida, — disse, bondosa, — não te esqueças do reino de beleza que podes improvisar no santuário doméstico. Foge, resoluta, dos perigosos fantasmas do ciúme e da discórdia. Aprende a renunciar, nas questões pequeninas, para recolheres com facilidade a luz que emana do sacrifício. Não comprometas, por bagatelas, o êxito espiritual que a experiência te pode oferecer. Estás livre dos males exteriores, mas ainda te não libertaste dos males próprios. Confia no Divino Poder e não desfaleças, ainda mesmo quando a tempestade te açoite as fibras mais íntimas do coração.