Se analisarmos com cuidado os casos apontados, reconheceremos que o gênio dos jovens prodígios lhes é muito pessoal; a aplicação dele é regulada por sua própria vontade. Suas obras, por mais originais e admiráveis que pareçam, ressentem-se sempre da idade de seus autores e não têm o cunho que apresentariam se emanassem de uma alta Inteligência estranha. Há em sua maneira de trabalhar e proceder ensaios, perplexidades, tateamentos, que não se produziriam se eles fossem os instrumentos passivos de uma vontade superior e oculta; foi o que verificamos nomeadamente em Pepito, de cujo caso nos ocupamos mais largamente.
Seria também admissível, sem daí advir enfraquecimento para a doutrina da reencarnação, que em certos indivíduos a aquisição pessoal e a inspiração exterior se combinem e completem uma pela outra.
É sempre a essa doutrina que se deve ir buscar armas quando se trata de atacar, por qualquer lado que seja, o problema das desigualdades. As almas humanas estão mais ou menos desenvolvidas segundo suas idades e, principalmente, segundo o emprego que fizeram do tempo que têm vivido; não fomos todos lançados no mesmo instante ao turbilhão da vida; não temos caminhado todos a passo igual, não temos desfiado todos do mesmo modo o rosário de nossas existências. Percorremos uma estrada infinita. Daí procede a razão pela qual tão diferentes nos parecem as nossas situações e os nossos valores respectivos; mas para todos o alvo é o mesmo. Sob o açoite das provas, o aguilhão da dor, sobem todos, todos se elevam. A alma não é feita de uma vez só; a si mesma se faz, se constrói através dos tempos. Suas faculdades, suas qualidades, seus haveres intelectuais e morais, em vez de se perderem, capitalizam-se, aumentam, de século para século. Pela reencarnação cada qual vem para prosseguir nesse trabalho, para continuar a tarefa de ontem, a tarefa de aperfeiçoamento que a morte interrompeu. Daí a brilhante superioridade de certas almas que têm vivido muito, granjeado muito, trabalhado muito. Daí os seres extraordinários que aparecem aqui e ali na História e projetam vivos clarões no caminho que a humanidade percorre. Sua superioridade vem somente da experiência e dos labores acumulados.
Considerada sob esse aspecto, a marcha da humanidade reveste aspecto grandioso. A humanidade vai, vagarosamente, saindo da escuridão das idades, emerge das trevas da ignorância e da barbaria e avança pausadamente no meio dos obstáculos e das tempestades; sobe pela via áspera e, a cada volta do caminho, lobriga melhor os altos cimos: as cumeadas luminosas onde imperam a sabedoria, a espiritualidade, o amor.
Essa marcha coletiva é também a marcha individual, a de cada um de nós, porque essa humanidade somos nós mesmos, são os mesmos seres que, depois de certo tempo de descanso no espaço, voltam, de século a século, até que estejam preparados para uma sociedade melhor, para um mundo mais belo. Fizemos parte das gerações extintas e havemos de pertencer às gerações futuras. Formamos, na realidade, uma imensa família humana em marcha para realizar o plano divino nela escrito, o plano dos seus magníficos destinos.
Para quem quer prestar atenção, um passado inteiro vive e freme em nós. Se a História, se todas as coisas antigas têm tantos atrativos a nossos olhos, se avivam em nossas almas tantas impressões profundas, às vezes dolorosas, se nos sentimos viver a vida dos homens de outrora, sofrer os seus males, é porque essa história é a nossa. A solicitude com que estudamos, com que agasalhamos a obra de nossos antepassados, as impulsões súbitas que nos levam para tal causa ou tal crença, não têm outra razão de ser. Quando percorremos os anais dos séculos, apaixonando-nos por certas épocas, quando todo o nosso ser se anima e vibra às recordações heróicas da Grécia ou da Gália, da Idade Média, das Cruzadas, da Revolução, é o passado que sai da sombra, que se anima e revive. Através da teia urdida pelos séculos, tornamos a encontrar as próprias angústias, as aspirações, os dilaceramentos de nosso ser. Momentaneamente essa recordação está em nós coberta por um véu; mas se interrogássemos nossa subconsciência, ouviríamos sair das suas profundezas vozes, às vezes vagas e confusas, outras vezes estridentes. Essas vozes falar-nos-iam de grandes epopéias, de migrações de homens, de cavalgadas furiosas que passam como furacões, arrebatando tudo para a escuridão e para a morte, entreter-nos-iam também com as vidas humildes, despercebidas, com as lágrimas silenciosas, com os sofrimentos esquecidos, com as horas pesadas e monótonas passadas a meditar, a produzir, a orar no silêncio dos claustros ou com a vulgaridade das existências pobres e desgraçadas.
Em certas horas, um mundo inteiro obscuro, confuso, misterioso, acorda e vibra em nós, um mundo cujos murmúrios, cujos rumores nos comovem e nos inebriam. É a voz do passado. No transe do sonambulismo é ela que nos fala e nos conta as vicissitudes da nossa pobre alma, errante através do mundo; diz-nos que o nosso “eu” atual é feito de numerosas personalidades, que nele se vão juntar como os afluentes num rio; que o nosso princípio de vida animou muitas formas, cuja poeira repousa entre os destroços dos impérios, sob os restos das civilizações extintas. Todas essas existências deixaram, no mais profundo de nós mesmos, vestígios, lembranças, impressões indeléveis.
O homem que se estuda e observa, sente que tem vivido e que há de viver; herda de si mesmo, colhendo no presente o que semeou no passado e semeando para o futuro.
Assim se afirmam a beleza e a grandeza da concepção das vidas sucessivas, que vêm completar a lei de evolução entrevista pela Ciência. Exercendo sua ação simultaneamente em todos os domínios, ela distribui a cada um segundo suas obras e mostra-nos, acima de tudo, essa majestosa lei do progresso, que rege o universo e dirige a vida para estados cada vez mais belos, cada vez melhores.