Capítulo 6
Às considerações precedentes, acrescentaremos o exame de alguns efeitos de óptica, que deram origem ao singular sistema dos Espíritos glóbulos. Nem sempre o ar apresenta limpidez absoluta e há ocasiões em que as correntes das moléculas aeriformes são perfeitamente visíveis, assim como a agitação que nelas produz a ação do calor. Algumas pessoas tomaram isto por aglomerações de Espíritos a se agitarem no espaço. Basta-nos citar esta opinião, para que ela fique desde logo refutada. Há, porém, outra espécie de ilusão não menos estranha, contra a qual devemos estar igualmente prevenidos. O humor aquoso do olho apresenta pontos quase imperceptíveis, que perderam alguma coisa da sua natural transparência. Esses pontos são como corpos opacos em suspensão no líquido, cujos movimentos eles acompanham. Produzem no ar ambiente e a distância, por efeito do aumento e da refração, a aparência de pequenos discos, cujos diâmetros variam de um a dez milímetros e que parecem nadar na atmosfera. Vimos pessoas tomarem esses discos por Espíritos que as seguiam e acompanhavam a toda parte. No seu entusiasmo, elas tomavam como figuras os matizes da irisação, o que é quase tão racional como ver uma figura na Lua. Bastaria uma simples observação, feita por elas mesmas, para reconduzi-las ao terreno da realidade. Afirmam aquelas pessoas que esses discos, ou medalhões, não somente as acompanham, como seguem todos os seus movimentos: vão para a direita e para a esquerda, para cima e para baixo, ou então param, conforme o movimento que elas fazem com a cabeça. Isto nada tem de surpreendente. Como a sede da aparência é no globo ocular, ela tem que acompanhar todos os movimentos do olho. Se fossem Espíritos, seríamos forçados a admitir que o papel que desempenham é mecânico demais para seres inteligentes e livres, além de muito cansativo, mesmo para Espíritos inferiores. Portanto, e com mais forte razão, trata-se de um papel incompatível com a ideia que fazemos dos Espíritos superiores. É verdade que algumas pessoas tomam por Espíritos maus os pontos escuros ou moscas amauróticas. Esses discos, do mesmo modo que as manchas negras, têm um movimento ondulatório, cuja amplitude não vai além de um certo ângulo, concorrendo para a ilusão o fato de não acompanharem bruscamente os movimentos da linha visual. Sua razão é bem simples. Como dissemos, os pontos opacos do humor aquoso, causa primeira do fenômeno, se acham em suspensão e tendem sempre a descer. Sobem quando impelidos pelo movimento dos olhos, porém, chegados a certa altura, os discos descem por si mesmos e depois se imobilizam. A mobilidade deles é extrema, pois basta um movimento imperceptível do olho para fazê-los mudar de direção e percorrer rapidamente toda a amplitude do arco, no espaço em que se produz a imagem. Enquanto não se provar que uma imagem tem movimento próprio, espontâneo e inteligente, não se poderá ver no fato mais do que um simples fenômeno óptico ou fisiológico. Dá-se a mesma coisa com as centelhas que se produzem algumas vezes em feixes mais ou menos compactos, pela contração dos músculos do olho, e que são devidas, provavelmente, à eletricidade fosforescente da íris, pois geralmente se limitam à circunferência do disco desse órgão. Tais ilusões só podem resultar de uma observação incompleta. Quem quer que tenha estudado seriamente a natureza dos Espíritos, por todos os meios que a ciência prática faculta, compreenderá tudo o que elas têm de pueril. Do mesmo modo que combatemos as teorias arrojadas com que se atacam as manifestações, quando essas teorias decorrem da ignorância dos fatos, também devemos destruir as ideias falsas, que denotam mais entusiasmo do que reflexão e que, por isso mesmo, causam mais dano do que bem, com relação aos incrédulos, já naturalmente predispostos a buscar o lado ridículo das coisas.
TAG Valor
Parte Segunda
Nome do Capítulo Manifestações visuais
Tema Espíritos glóbulos¹³
Item 108