Channing – Discurso Sobre a Vida Futura
“Incorreríamos em erro se crêssemos que os habitantes do céu se limitam à comunicação recíproca de suas idéias; ao contrário, os que atingem esse mundo entram em novo estado de atividade, de vida e de esforços. Somos levados a pensar que o estado futuro seja de tal modo feliz que ninguém ali necessite de auxílio, que o esforço cesse, que os bons nada tenham a fazer senão gozar. A verdade, entretanto, é que toda ação na Terra, mesmo a mais intensa, não passa de jogo infantil, comparado à atividade, à energia desdobrada nessa vida mais elevada. E deve ser assim, porquanto não há princípio mais ativo que a inteligência, a beneficência, o amor da verdade, a sede da perfeição, a piedade pelos sofrimentos e o devotamento à obra divina, que são os princípios expansivos da vida de além-túmulo. É, então, que a alma tem consciência de suas capacidades, que a verdade infinita se manifesta diante de nós, que sentimos que o Universo é uma esfera sem limites para a descoberta, para a Ciência, para a caridade e para a adoração. Esses novos objetivos da vida, que reduzem a nada os interesses atuais, manifestam-se constantemente. Não se deve, pois, imaginar que o céu seja composto de uma comunidade estacionária. Eu o concebo como um mundo de planos e de esforços prodigiosos para o seu próprio melhoramento. Considero-o como uma sociedade a atravessar fases sucessivas de desenvolvimento, de virtudes, de conhecimentos, de poder, pela energia de seus próprios membros. “O gênio celeste está sempre ativo a explorar as grande leis da Criação e os princípios eternos do espírito, a desvendar o belo na ordem do Universo e a descobrir os meios de avanço para cada alma. Lá, como aqui, há inteligências de diversas graus, e os Espíritos mais evoluídos encontram a felicidade e o progresso educando os mais atrasados. Lá o trabalho de educação, como na Terra, progride sempre, e uma filosofia mais divina que a ensinada entre nós revela ao Espírito a sua própria essência, estimulando-o a esforços alegres para a sua própria perfeição. “O céu encontra-se em relação com outros mundos; seus habitantes são os mensageiros de Deus em toda a Criação; eles têm grandes missões a cumprir e, pelo progresso de sua existência sem-fim, pode Deus lhes confiar o cuidado de outros mundos.” ...................................................................................................................... Este discurso foi pronunciado em 1834. Nessa época não se cogitava de manifestações de Espíritos na América. Channing, portanto, não as conhecia; do contrário teria afirmado o que em certos pontos apenas admitiu como hipótese. Mas não é notável ver esse homem pressentir com tanta precisão aquilo que só deveria ser revelado alguns anos mais tarde? Porque, salvo poucas exceções, sua descrição da vida futura concorda perfeitamente. Só falta a reencarnação; aliás, se a examinarmos bem, vemos que dela ele se aproxima, como chega perto das manifestações, sobre as quais se cala, porque não as conhece. Com efeito, admite o mundo invisível que nos rodeia, em meio a nós, cheio de solicitude por nós, auxiliando-nos a progredir. Daí às comunicações diretas não há senão um passo. Não admite no mundo celeste a contemplação perpétua, mas a atividade e o progresso; aceita a pluralidade dos mundos corpóreos, mais ou menos adiantados. Se tivesse dito que os Espíritos podiam realizar o seu progresso passando por esses diferentes mundos, teríamos aí a reencarnação. Sem esta, a idéia desses mundos progressivos é mesmo inconciliável com a criação das almas no momento do nascimento dos corpos, a menos que se admita tenham as almas sido criadas mais ou menos perfeitas; neste caso, seria necessário justificar essa preferência. Não é mais lógico dizer que se as almas de um mundo são mais avançadas que as de um outro, é que já viveram em mundos inferiores? O mesmo se pode dizer dos habitantes da Terra, comparados entre si, desde o selvagem até o homem civilizado. Seja como for, perguntamos se um tal retrato da vida de além-túmulo, por suas deduções lógicas, acessíveis às inteligências mais vulgares e aceita pela mais severa razão, não é cem vezes mais adequada para infundir a convicção e a confiança no futuro, do que a horrível e inadmissível descrição das torturas sem-fim, tomadas de empréstimo do Tártaro do paganismo? Os que pregam essas crenças não fazem a menor idéia do número de incrédulos que geram, nem dos recrutas que arregimentam para a falange dos materialistas. Notemos que Milton, citado nesse discurso, emite sobre o mundo invisível ambiente uma opinião em tudo conforme à de Channing, que é também a dos espíritas modernos. É que Milton, como Channing e como tantos outros homens eminentes, eram espíritas por intuição. É por isso que não cessamos de afirmar que o Espiritismo não é uma invenção moderna; é de todos os tempos, porque houve almas em todos os tempos e em todos os tempos a massa de homens acreditou na alma. Assim, encontram-se traços dessas idéias numa multidão de escritores, antigos e modernos, sagrados e profanos. Essa intuição das idéias espíritas é de tal modo geral que vemos todos os dias uma porção de pessoas que, delas ouvindo falar pela primeira vez, absolutamente não se admiram: não faltava senão uma sistematização para a sua crença.
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Mês Junho
Ano 1861