Vamos ver que, por um encadeamento lógico e rigoroso, esses fenômenos levam-nos à possibilidade de despertarmos experimentalmente, na parte permanente do ser, as recordações anteriores ao nascimento, o que verificaremos nas experiências de F. Colavida, E. Marata, Coronel de Rochas, etc.
O estado de febre, o delírio, o sono anestésico, provocando a separação parcial, podem também abalar, dilatar as camadas profundas da memória e despertar conhecimentos e lembranças antigas. Todos, sem dúvida, se lembram do célebre caso de Ninfa Filiberto, de Palermo. Com febre, falava várias línguas estrangeiras que há muito tempo esquecera. Eis outros fatos relatados por médicos práticos.
O Dr. Henri Frieborn (128) cita o caso de uma mulher de 70 anos de idade que, gravemente doente de uma bronquite, foi acometida de delírio, de 13 a 16 de março de 1902. Depois, pouco a pouco, foi-lhe voltando a razão:
“Na noite de 13 para 14 percebeu-se que ela falava uma língua desconhecida das pessoas que a rodeavam. Parecia, às vezes, que recitava versos e, outras, que conversava. Por várias vezes repetiu a mesma composição em verso; acabou-se por descobrir que a língua era a indostânica.
Na manhã de 14 começou a misturar-se com o indostânico algum inglês; conversava dessa maneira com parentes e amigos de infância ou então falava deles.
No dia 15 havia, por sua vez, desaparecido o indostânico e a doente dirigiu-se a amigos, que mais tarde conhecera, servindo-se do inglês, do francês e do alemão. A senhora de que se trata nascera na Índia, donde saiu aos três anos de idade, a fim de ir para a Inglaterra, aonde chegou depois de quatro meses de viagem. Até ao dia do desembarque na Inglaterra fora confiada a serviçais hindus e não falava absolutamente nada do inglês.
No dia 13 revivia, no delírio, seus primeiros dias e falava a primeira linguagem que ouvira. Reconheceu-se que a poesia era uma espécie de cantiga com que os ayahs costumavam adormecer as crianças. Quando conversava, dirigia-se, sem dúvida, aos fâmulos hindus; assim, entre outras coisas, compreendeu-se que ela pedia que a levassem ao bazar para comprar doces.
Podia-se reconhecer que havia uma ligação seguida em toda a marcha do delírio. A princípio, foram conhecimentos com que a doente estivera em relação durante a primeira infância; depois, passou em revista toda a sua existência, até chegar, em 16 de março, à época em que se casou e teve filhos que cresceram.
É curioso verificar que, depois de um período de 66 anos, durante o qual ela nunca falara o indostânico, o delírio lhe relembrasse a linguagem da sua primeira infância. Atualmente, a doente fala com facilidade o francês, o alemão e o inglês; mas, posto que conheça ainda algumas palavras do indostânico, é absolutamente incapaz de falar essa língua ou mesmo de compor nela uma única frase.” O Dr. Sollier, na sua obra Phénomènes d'autoscopie (pág.
105), menciona as experiências seguintes, do Dr. Bain. Trata-se
de uma doente de 29 anos de idade, morfinômana e submetida ao
“método de ressensibilização sucessiva pela hipnose”:
“Depois de terminarmos o que tínhamos a fazer com o corpo, procedemos ao despertar da cabeça Assistimos a uma regressão da personalidade, não numa única sessão, mas em muitas, há 17 anos. A doente tornava a encontrar-se na idade de 12 anos; revivia todos os períodos de sua vida movimentada, com desdobramento completo da personalidade. Levar-nos-ia muito longe darmos, mesmo em escorço, a história da doente, história à qual assistíamos como se tivéssemos na mão o auscultador de um telefone e escutássemos a um só interlocutor. Eram as cenas de uma pobre operária que se prostituiu para viver e que, doente, se entrega à morfina; implicada em roubos, é julgada duas vezes e cumpre em Saint-Lazare, depois em Nanterre, a pena de um ano de prisão; cenas de família, cenas de oficina, cenas com amantes, horas de prosperidade passageiras, horas de miséria consecutivas, a vida em Saint-Lazare e Nanterre. Em janeiro de 1902, deixava a doente o asilo, a seu pedido; muito melhor, tinha engordado muito, dormia espontaneamente de noite, era ativa e trabalhava. Redigiu, a pedido nosso, uma nota expondo todos os incidentes da sua vida. Essa nota concordava com todas as informações que nos dera na hipnose, ao encontrar outra vez a sensibilidade cerebral.”
Os Annales des Sciences Psychiques, de março de 1906, registraram um caso interessante de amnésia em vigília, referido pelo Dr. Gilbert-Ballet, do hospital de Paris.
“Trata-se de um doente que, em conseqüência de um choque violento, esquecera completamente um trecho considerável de sua vida passada. Lembrava-se muito bem da infância e dos fatos muito remotos, mas se produzira uma lacuna para uma parte da sua existência mais próxima, e não podia lembrar-se dos acontecimentos passados durante esse período da vida. É a isto que se chama amnésia retrógrada. O doente chama-se Dada e tem 50 anos de idade, Desde o dia 4 até ao dia 7 de outubro precedente, operara-se em sua memória um vácuo absoluto. Empregado como jardineiro numa propriedade perto de Nevers, deixara os seus amos no dia 4, e no dia 7 achou-se, sem saber como, em Liège, junto às portas da exposição. De que maneira fez essa longa viagem? Ignora-o e, apesar de todos os esforços, não pôde conseguir a mínima recordação.”
Mas, eis que esse doente é mergulhado na hipnose e para logo se reconstituem todos os incidentes dessa viagem em suas menores particularidades, com a recordação das pessoas encontradas. O senhor Dada está na quarta crise de amnésia nervosa. Recorda-se, adormecido, daquilo que esquecera no estado de vigília, simplesmente porque se encontra de novo na condição anterior, isto é, no estado em que se achava no momento do ataque de amnésia. Esse caso põe-nos também no rastro das leis e condições que regem os fenômenos de renovação da memória das vidas anteriores.
Em resumo, todo estudo do homem terrestre fornece-nos a prova de que existem estados distintos da consciência e da personalidade. Vimos, na primeira parte desta obra, que a coexistência, em nós, de um “mental duplo”, cujas duas partes se juntam e fazem fusão na morte, é atestada não só pelo hipnotismo experimental, mas também por toda a evolução psíquica.
O simples fato dessa dualidade intelectual, considerada nas suas relações com o problema das reencarnações, explica-nos como toda uma parte do “eu”, com seu imenso cortejo de impressões e recordações antigas, pode ficar imersa na sombra durante a vida atual.
Sabemos que a telepatia, a clarividência e a previsão dos acontecimentos são poderes atinentes ao “eu” profundo e oculto. A sugestão facilita o seu exercício; é um apelo da vontade, um convite às almas fracas e incapazes para que saiam do cárcere e tornem temporariamente a entrar na posse das riquezas, das potências que nelas dormitam. Os passes magnéticos desfazem os laços que prendem a alma ao corpo físico, provocam o desprendimento. A partir daí começa a sugestão, pessoal ou estranha, a pôr-se em ação, a exercer-se com mais intensidade. Esse movimento não é somente aplicável ao despertar dos sentidos psíquicos; acabamos de ver que pode também reconstituir o encadeamento das recordações gravadas nas profundezas do ser.
Parece que, em certos casos excepcionais, essa ação pode exercer-se mesmo no estado de vigília. F. Myers (129) fala da faculdade do “subliminal” de evocar estados emocionais desaparecidos da consciência normal e de reviver no passado. Esse fato, diz ele, encontra-se freqüentes vezes nos artistas, cujas emoções revivescidas podem exceder em intensidade as emoções originais.
O mesmo autor emite a opinião de que a teoria mais verossímil para explicar o gênio é a das reminiscências de Platão, com a condição de baseá-las nos dados científicos estabelecidos em nossos dias.(130)
Esses mesmos fenômenos reaparecem com outra forma numa ordem de fatos já assinalados. São as impressões de pessoas que, depois de acidentadas, puderam escapar à morte. Por exemplo, afogados salvos antes da asfixia completa e outros que sofreram quedas graves. Muitos contam que, entre o momento em que caíram e aquele em que perderam os sentidos, todo o espetáculo de sua vida se lhes desenrolou no cérebro de maneira automática, em quadros sucessivos e retrógrados, com rapidez vertiginosa, acompanhados do sentimento moral do bem e do mal, assim como da consciência das responsabilidades em que incorreram.
Th. Ribot, líder do Positivismo francês, na sua obra Les Maladies de la Mémoire, cita numerosos fatos que estabelecem a possibilidade do despertar espontâneo, automático, de todas as cenas ou imagens que povoam a memória, particularmente em caso de acidente.
Lembremos, a esse respeito, o caso do almirante Beaufort, extraído do Journal de Médecine, de Paris.(131) Ele caiu ao mar e perdeu, durante dois minutos, o sentido da consciência física. Bastou esse tempo à sua consciência transcendental para resumir toda a sua vida terrestre em quadros reduzidos de uma nitidez prodigiosa. Todos os seus atos, inclusive as causas, as circunstâncias contingentes e os efeitos, desfilaram em seu pensamento. Lembrava-se das próprias reflexões do momento sobre o bem e o mal que deles haviam resultado.
Apresentamos aqui um caso da mesma natureza, relatado pelo Sr. Cottin, aeronauta:
“Em sua última ascensão, o balão Le Montgolfier levava o Sr. Perron, presidente da Academia de Aerostação, como chefe, e F. Cottin, agente administrativo da Associação Científica Francesa.