Bibliografia – História dos calvinistas das Cevenas
“Só um pequeno número era verdadeiramente inspirado. O desprendimento fluídico que deles saía, como de certos seres superiores e privilegiados, agia sobre essa multidão profundamente perturbada que os cercava, mas sem poder desenvolver na maior parte deles, outra coisa senão os fenômenos grosseiros e largamente falíveis da alucinação. Inspirados e alucinados, todos tinham a pretensão de profetizar, mas estes últimos emitiam uma porção de erros, em meio dos quais não se podia mais discernir as verdades que o Espírito realmente soprava aos primeiros. Essa massa de alucinados por sua vez reagia sobre os inspirados e lançava a perturbação no meio de suas manifestações... “Diz o abade Pluquet que eram necessários auxílios extraordinários e prodígios, para sustentarem a fé dos restos dispersos do protestantismo. Eles explodiram de todos os lados entre os reformados, durante os quatro primeiros anos que se seguiram à revogação do Edito de Nantes. Ouviram-se nos ares, nas cercanias dos lugares onde outrora existiram templos, vozes tão perfeitamente semelhantes aos cantos dos salmos, tal como os protestantes os cantam, que não podiam ser tomados por outra coisa. Essa melodia era celeste e essas vozes angélicas cantavam os salmos conforme a versão de Clément Marot e Théodore de Bèze. Essas vozes foram ouvidas no Béarn, nas Cevenas, em Vassy, etc. Ministros fugitivos foram escoltados por essa divina salmodia e até a trombeta só os abandonou depois de haverem transposto as fronteiras do reino. Jurieu reuniu com cuidado as testemunhas dessas maravilhas e daí concluiu que ‘Deus, tendo feito bocas no meio dos ares, era uma censura indireta que a Providência fazia aos protestantes da França por se terem calado muito facilmente.’ Ousou predizer que em 1689 o calvinismo seria restabelecido na França... “O Espírito do Senhor estará convosco, havia dito Jurieu; falará pela boca das crianças e das mulheres, em vez de vos abandonar.” “Era mais que o necessário para que os protestantes perseguidos se comovessem em ver as mulheres e as crianças se pondo a profetizar. “Um homem mantinha em sua casa, numa vidraria oculta no topo da montanha de Peyrat, no Dauphiné, uma verdadeira escola de profecia. Era um velho gentil-homem, chamado Du Serre, nascido na aldeia de Dieu-le-Fit. Aqui as origens são um pouco obscuras. Diz-se que tinha sido iniciado em Genebra, nas práticas de uma arte misteriosa, cujo segredo era transmitido a um pequeno número de pessoas. Reunindo em casa alguns rapazes e moças, cuja natureza impressionável e nervosa por certo tinha observado, submetia-os previamente a jejuns austeros; agia poderosamente sobre sua imaginação, estendia as mãos para eles, como que para lhes impor o Espírito de Deus, soprava sobre suas frontes e os fazia cair como inanimados à sua frente, olhos fechados, adormecidos, os membros rígidos pela catalepsia, insensíveis à dor, não vendo, não ouvindo mais nada do que se passava ao seu redor, embora parecessem escutar vozes interiores, que lhes falavam, e vissem espetáculos esplêndidos, cujas maravilhas contavam. Porque, nesse estado bizarro, falavam, escreviam; depois, voltando ao estado ordinário, não se lembravam mais de nada do que tinham feito, do que tinham dito, do que tinham escrito. “Eis o que conta Brueys desses ‘pequenos profetas adormecidos’, como os chama. Aí encontramos os processos, hoje bem conhecidos, do magnetismo, e quem o quiser poderá, em muitas circunstâncias, reproduzir os milagres do velho gentil-homem vidreiro... “Em 1701 houve uma nova explosão de profetas. Choviam do céu, brotavam da terra e, das montanhas do Lozère até a costa do Mediterrâneo, eram contados aos milhares. Os católicos haviam tomado os filhos dos calvinistas: Deus se serviu dos filhos para protestar contra essa prodigiosa iniqüidade. O governo do grande rei só conhecia a violência. Prendiam em massa, ao acaso, esses profetas-mirins; açoitavam impiedosamente os menores, queimavam a planta dos pés dos maiores. Nada se fez, e havia mais de trezentos deles nas prisões de Uzès, quando a faculdade de Montpellier recebeu ordem de se transportar àquela cidade, para examinar o seu estado. Após maduras reflexões, a douta faculdade os declarou ‘atingidos de fanatismo.’ “Esta bela solução da ciência oficial, que ainda hoje não poderia dizer muito mais sobre a questão, não pôs termo a essa onda transbordante de inspirações. Então Bâville publicou um decreto (setembro de 1701) para tornar os pais responsáveis pelo fanatismo de seus filhos. “Puseram soldados à vontade em casa de todos quantos não haviam podido desviar seus filhos desse perigoso ofício e os condenaram a penas arbitrárias. Por isto mesmo, tudo repercutia os lamentos e clamores desses pais infortunados. A violência foi levada tão longe que, para dela se livrarem, houve várias pessoas que denunciaram os próprios filhos, ou os entregaram aos intendentes e aos magistrados, dizendo-lhes: ‘Ei-los; nós nos desobrigamos deles; vós mesmos fazei-os perder, se possível, a vontade de profetizar.’ “Vãos esforços! Acorrentavam, torturavam o corpo, mas o Espírito permanecia livre e os profetas se multiplicavam. Em novembro, retiraram mais de duzentos das Cevenas ‘que condenaram a servir ao rei, uns nos seus exércitos, outros nas galeras.’ (Corte de Gébelin). Houve execuções capitais, que não pouparam nem mesmo as mulheres. Em Montpellier enforcaram uma profetisa do Vivarais, porque lhe saía sangue dos olhos e do nariz, que ela chamava lágrimas de sangue e chorava os infortúnios de seus correligionários, os crimes de Roma e dos papistas... “Uma surda irritação, uma onda de cólera há muito contida rebentava em todos os peitos ao cabo desses vinte anos de intoleráveis iniqüidades. A paciência das vítimas não esgotava o furor dos carrascos. Pensou-se, enfim, em repelir a força pela força... “Era, sem dúvida, diz Brueys, um espetáculo deveras extraordinário e muito novo; via-se marchar gente de guerra para ir combater pequenos exércitos de profetas.” (Tomo I, página 156.) “Espetáculo estranho, com efeito, porque os mais perigosos entre esses pequenos profetas se defendiam a pedradas, refugiados em alturas inacessíveis. Mas na maioria das vezes não tentavam senão defender sua vida. Quando as tropas avançavam para os atacar, marchavam corajosamente contra elas, soltando grandes gritos: ‘Tartara! tartara! Para trás, Satã!’ Diziam que acreditavam que a palavra tartara, como um exorcismo, devia pôr os inimigos em fuga, que eles próprios eram invulneráveis, ou que ressuscitariam ao cabo de três dias, se viessem a sucumbir na refrega. Suas ilusões não foram de longa duração nesses vários pontos e logo opuseram aos católicos armas mais eficazes. “Em dois confrontos na montanha de Chailaret, não longe de Saint-Genieys, mataram algumas centenas, prenderam um bom número e o resto pareceu dispersar-se. Bâville julgava os cativos, mandava prender alguns e enviava o resto para as galeras; e como nada de tudo isto parecia absolutamente desencorajar os reformados, continuaram a procurar as assembléias no deserto, a degolar sem piedade os que se rendiam, sem que estes pensassem ainda em opor uma séria resistência aos seus algozes. Segundo o depoimento de uma profetisa chamada Isabel Charras, consignado no Teatro sagrado das Cevenas, esses infelizes mártires voluntários entregavam-se, previamente advertidos pelas revelações dos extáticos, da sorte que os aguardava. Aí se lê: “O chamado Jean Héraut, de nossa vizinhança, e, com ele, quatro ou cinco de seus filhos, tinham inspirações. Os dois mais novos tinham, um sete anos, o outro cinco anos e meio, quando receberam o dom; eu os vi muitas vezes em seus êxtases. Um outro vizinho nosso, chamado Marliant, também tinha dois filhos e três filhas no mesmo estado. A mais velha era casada. Estando grávida de cerca de oito meses, foi a uma assembléia, em companhia dos irmãos e das irmãs, levando consigo o filhinho de sete anos. Ali foi massacrada com o dito menino, um dos irmãos e uma das irmãs. O irmão que não foi morto foi ferido, mas se curou, e a mais nova das irmãs foi deixada como morta, debaixo de corpos massacrados, sem ter sido ferida. A outra irmã, ainda viva, foi levada para a casa dos pais, mas morreu dos ferimentos, alguns dias depois. Eu não estava na assembléia, mas vi o espetáculo desses mortos e desses feridos. “O que há de mais notável é que todos esses mártires tinham sido avisados pelo Espírito do que lhes devia acontecer. Tinham-no dito a seu pai, dele se despedindo e lhe tomando a bênção, na tardinha em que saíram de casa para ir à assembléia, que devia realizar-se na noite seguinte. Quando o pai viu todas esses lamentáveis insucessos, não sucumbiu à sua dor, mas, ao contrário, disse com piedosa resignação: ‘O Senhor mos deu, o Senhor mos tirou; bendito seja o nome do Senhor.’ Foi do irmão, do genro, dos dois filhos feridos e de toda a família que eu soube que tudo isto tinha sido predito.” Eugène Bonnemère Allan Kardec
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Mês Fevereiro
Ano 1869