Algumas Refutações
Pareceis ignorar uma coisa que é bom saibais. Os grupos espíritas não são absolutamente necessários; são simples reuniões onde se sentem felizes por encontrar-se pessoas que pensam do mesmo modo. E a prova disto é que hoje, na França, há mais de 600.000 espíritas, 99% dos quais não fazem parte de nenhum grupo e neles jamais puseram os pés; que eles não existem numa porção de cidades; que nem os grupos nem as sociedades abrem suas portas ao público para pregar suas doutrinas aos transeuntes; que o Espiritismo se prega por si mesmo e pela força das coisas, porque responde a uma necessidade da época; que as idéias espíritas estão no ar e são aspiradas por todos os poros da inteligência; que o contágio está no exemplo dos que são felizes com essas crenças e que são encontrados por toda parte, na sociedade, sem que se precise procurá-los nos grupos. Assim, não são os grupos que fazem a propaganda, pois não apelam ao primeiro que apareça; ela é feita pouco a pouco, de indivíduo a indivíduo. Se, portanto, admitíssemos a interdição de todas as reuniões, os espíritas ficariam livres para se reunirem em família, como já ocorre em milhares de lugares, sem que o Espiritismo nada sofra com isso; muito ao contrário, pois temos sempre condenado as grandes assembléias, que são mais prejudiciais que úteis; além disso, a intimidade é reconhecida como a condição mais favorável às manifestações. Interditaríeis as reuniões familiares? Colocaríeis um sargento à porta de um salão para vigiar o que se passa à lareira? Isto não se faz na Espanha, nem em Roma, onde há mais espíritas e médiuns do que pensais. Só faltava isso para aumentar ainda mais a importância do Espiritismo. Admitamos agora a interdição legal dos grupos. Sabeis o que fariam esses espíritas que acusais de semear a desordem? Eles diriam: Respeitamos a lei; dura lex, sed lex. Vamos dar o exemplo, mostrando que, se pregamos a união, a paz e a concórdia, não é para nos transformarmos em promotores de desordens. As sociedades organizadas não são necessárias à existência do Espiritismo; não há entre elas nenhuma solidariedade material que possa ser quebrada por sua supressão. O que os Espíritos aí ensinam, igualmente ensinam numa conversa particular entre duas pessoas, porque o Espiritismo tem o incrível privilégio de ter o seu foco de ensino por toda parte. Seu sinal de ligação é o amor de Deus e do próximo e, para o pôr em prática, não há necessidade de reuniões oficiais, pois ele tanto se estende sobre os amigos quanto sobre os inimigos. Qualquer um pode dizer o mesmo; e mais de uma vez a autoridade não tem encontrado resistência onde esperava encontrar a maior submissão? Se os espíritas fossem pessoas tão turbulentas e tão pervertidas quanto pretendeis, por que os funcionários encarregados da manutenção da ordem têm menos trabalho nos centros onde eles constituem maioria? Um funcionário chegou a dizer que se todos os seus administrados fossem espíritas, sua repartição podia ser fechada. Por que há menos penas disciplinares entre os militares espíritas? E, depois, não pensais que atualmente há espíritas em toda parte, de alto a baixo na escala social; que há reuniões e médiuns até em casa daqueles que invocais contra nós. Vede, pois, que o vosso meio é insuficiente; é preciso buscar outro. – Temos a condenação fulminante do púlpito. – Está bem; e vós a usais largamente. Mas não vedes que por toda parte onde lançam raios o número de espíritas aumenta? – Temos a censura da Igreja e a excomunhão. – É melhor; mas ainda uma vez bateis no vazio. Repetimos: o Espiritismo nem se dirige a vós nem aos que estão convosco; não os vai buscar e dizer-lhes: deixai a vossa religião e segui-me; sereis danados se não o fizerdes. Não; ele é mais tolerante que isso e deixa a cada um a liberdade de consciência. Como já dissemos, ele se dirige à massa inumerável dos incrédulos, aos que duvidam e aos indiferentes; estes não estão convosco e vossas censuras não os podem atingir. Eles vinham a vós, mas os repelíeis. Quanta inabilidade! Se alguns dos vossos os seguem, é que vossos argumentos não são bastante fortes para os reter e não é com rigor que o conseguireis. O Espiritismo agrada porque não se impõe e é aceito pela vontade e o livre-exame. Nisto ele é de nossa época. Agrada pela doçura, pelas consolações que prodigaliza nas adversidades, pela fé inabalável que dá no futuro, na bondade e na misericórdia de Deus. Além disso, ele se apóia em fatos patentes, materiais, irrecusáveis, que desafiam toda negação. Eis o segredo de sua tão rápida propagação. Que lhe opondes? Sempre a danação eterna, expediente ruim para os tempos que correm; depois a deturpação de suas doutrinas: vós o acusais de pregar o aborto, o adultério e todos os crimes. A quem pensais impor isto? Não aos espíritas, certamente. Aos que não o conhecem? Mas nesse número muitos querem saber o que é essa abominável doutrina; lêem, e vendo que ela diz exatamente o contrário do que lhe atribuem, vos deixam para a seguir. E isto sem que ele os vá procurar. A posição, bem o sei, é embaraçosa: Se falamos contra o Espiritismo – dizeis – recrutamos-lhe partidários; se nos calamos, ele marcha sozinho. Que fazer então? Outrora se dizia: Deixai passar a justiça do rei; agora é preciso dizer: Deixemos passar a justiça de Deus. (Continua no próximo número) Conversas Familiares de Além-Túmulo
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Mês Maio
Ano 1863