Estudo sobre os Possessos de Morzine – 2o artigo
Se estivéssemos bem persuadidos do objetivo essencial e sério do Espiritismo; se nos preparássemos sempre para o exercício da mediunidade por um fervoroso apelo ao nosso anjo-da-guarda e aos Espíritos protetores; se nos estudássemos, esforçando-nos por nos purificarmos de nossas imperfeições, os casos de obsessão mediúnica seriam ainda mais raros. Infelizmente, muitos vêem apenas o fato das manifestações. Não contentes com as provas morais que sobejam em seu redor, querem a todo custo permitir-se a satisfação de se comunicarem eles mesmos com os Espíritos, forçando o desenvolvimento de uma faculdade que muitas vezes não existe, guiados mais pela curiosidade do que pelo desejo sincero de se melhorarem. Disso resulta que, em vez de se envolverem numa atmosfera fluídica salutar; de se cobrirem com as asas protetoras de seus anjos-da-guarda; de buscarem o domínio de suas fraquezas morais, abrem a porta de par em par aos Espíritos obsessores, que provavelmente os teriam atormentado de outra maneira e em outra ocasião, mas que aproveitam o ensejo que se lhes oferece. Que dizer, então, daqueles que fazem das manifestações um jogo, nelas não vendo senão um motivo para distração ou curiosidade, procurando meios de satisfazer a ambição, a cupidez ou os interesses materiais? É neste sentido que se pode dizer que o exercício da mediunidade pode provocar a invasão dos Espíritos maus; sim, é perigoso brincar com estas coisas. Quantas pessoas lêem O Livro dos Médiuns unicamente para saber como agir, uma vez que a receita ou a maneira de proceder é a coisa que mais lhes interessa. O lado moral da questão é acessório. Assim, não se deve imputar ao Espiritismo o que resulta da imprudência das criaturas. Voltemos aos possessos de Morzine. Aquilo que um Espírito pode fazer a um indivíduo, vários Espíritos o podem sobre diversos, simultaneamente, e dar à obsessão um caráter epidêmico. Uma nuvem de Espíritos maus pode invadir uma localidade e aí se manifestar de várias maneiras. Foi uma epidemia de tal gênero que transtornou a Judéia, ao tempo do Cristo e, em nossa opinião, é de uma epidemia semelhante que padece Morzine. É o que procuraremos estabelecer num próximo artigo, no qual destacaremos os caracteres essencialmente obsessivos dessa afecção. Analisaremos os relatórios dos médicos que a observaram, entre outros o do Dr. Constant, bem como os meios curativos empregados, quer pela Medicina, quer através de exorcismos.
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Mês Janeiro
Ano 1863