Num dos grupos espíritas de Paris um médium recebeu, ultimamente, a seguinte comunicação do Espírito de sua avó: “Meu caro filho, vou falar-te um instante das questões de caridade que te preocupavam esta manhã quando ias ao trabalho.
“As crianças que são entregues a amas mercenárias; as mulheres pobres que são forçadas, abdicando do pudor que lhes é caro, a servir nos hospitais de material experimental aos médicos e aos estudantes de Medicina, são duas grandes chagas que todos os bons corações devem aplicar-se em curar, e isto não é impossível.
Que os espíritas façam como os católicos, contribuindo com alguns centavos por semana e capitalizando esses recursos, de modo a chegarem a fundações sérias, grandes e verdadeiramente eficazes. A caridade que alivia um mal presente é uma caridade santa, que encorajo com todas as minhas forças; mas a caridade que se perpetua nas fundações imortais, destinada a aliviar as misérias, é a caridade inteligente e que me tornaria feliz ao vê-la posta em prática.
“Gostaria que um trabalho fosse elaborado visando a criar, inicialmente, um primeiro estabelecimento de proporções restritas. Quando se tivesse visto o bom resultado dessa primeira criação, passar-se-ia a outra, que seria aumentada pouco a pouco, como Deus quer que seja aumentada, porque o progresso se realiza em marcha lenta, sábia, calculada. Repito que o que proponho não é difícil; não haveria um só espírita verdadeiro que ousasse faltar ao apelo para o alívio de seus semelhantes, e os espíritas são bastante numerosos para formar, pelo acúmulo de algumas moedas por semana, um capital suficiente para um primeiro estabelecimento destinado a mulheres doentes, que seriam cuidadas por mulheres e que então deixariam de ocultar seus sofrimentos para salvar o seu pudor.
“Entrego estas reflexões às meditações das pessoas benevolentes que assistem à sessão e estou bem convicta de que elas darão bons frutos. Os grupos da província se congregariam prontamente a uma idéia tão bela e, ao mesmo tempo, tão útil e tão paternal. Aliás seria um monumento do valor moral do Espiritismo, tão caluniado, hoje e ainda por muito tempo, encarniçadamente.
“Eu disse que a caridade local é boa, aproveita a um indivíduo mas não eleva o espírito das massas como uma obra durável. Não seria belo que se pudesse repelir a calúnia, dizendo aos caluniadores: ‘Eis o que fizemos. Reconhece-se a árvore pelo fruto; uma árvore má não dá bons frutos e uma boa árvore não os dá maus.’
“Pensai também nas pobres crianças que saem dos hospitais e que vão morrer em mãos mercenárias, dois crimes simultâneos: o de entregar a criança desarmada e fraca, e o crime daquele que a sacrificou sem piedade. Que todos os corações elevem seus pensamentos para as tristes vítimas da sociedade imprevidente, e que se esforcem por encontrar uma boa solução para as salvar de suas misérias. Deus quer que se tente, e dá os meios de o alcançar; é preciso agir. Triunfa-se quando se tem fé, e a fé transporta montanhas. Que o Sr. Kardec trate a questão em seu jornal e vereis como será aclamada com calor e entusiasmo.
“Eu disse que era preciso um monumento material que atestasse a fé dos espíritas, como as pirâmides do Egito atestam a vaidade dos faraós; mas, em vez de fazer loucuras, fazei obras que levem o selo do próprio Deus. Todo mundo deve compreender-me; não insisto.
“Retiro-me, meu caro filho. Como vês, tua boa avó ama sempre os seus filhotes, como te amava quando eras pequenino.
Quero que tu os ames como eu, e que penses em encontrar uma boa organização. Poderás, se o quiseres; e, se necessário, nós te ajudaremos. Eu te abençôo.”
Marie G...
A idéia de uma caixa central e geral de socorro, formada entre os espíritas, já foi concebida e manifestada por homens animados de excelentes intenções. Mas não basta que uma idéia seja grande, bela e generosa; antes de tudo é preciso que seja exeqüível. Certamente temos dado mostras suficientes de nosso devotamento à causa do Espiritismo, para não ser suspeito de indiferença a seu respeito. Ora, é precisamente em razão de nossa própria solicitude que procuramos nos resguardar contra o entusiasmo que cega. Antes de empreender uma coisa, é preciso friamente calcular-lhe os prós e os contras, a fim de evitar reveses sempre deploráveis, que não deixariam de ser explorados por nossos adversários. O Espiritismo só deve marchar com segurança, e quando põe o pé num lugar deve estar seguro de pisar terreno firme. Nem sempre a vitória é do mais apressado, mas com muito mais probabilidade daquele que sabe esperar o momento propício.
Há resultados que não podem ser senão obra do tempo e da infiltração da idéia no espírito das massas. Saibamos, pois, esperar que a árvore esteja formada, antes de lhe pedir uma colheita abundante.
Desde muito tempo nós vos propúnhamos tratar a fundo esta questão, para a colocar em seu verdadeiro terreno e premunir contra as ilusões de projetos mais generosos do que sensatos, e cujo insucesso teria conseqüências lamentáveis. A comunicação relatada acima, e sobre a qual houveram por bem pedir a nossa opinião, nos fornece uma ocasião muito natural.
Examinaremos, pois, tanto o projeto de centralização dos recursos, quanto o de algumas outras instituições e estabelecimentos especiais para o Espiritismo.
Antes de tudo convém dar-se conta do estado real das coisas. Sem dúvida os espíritas são muito numerosos, e seu número cresce sem cessar. Sob esse aspecto oferece um espetáculo único, o de uma propagação inaudita na história das doutrinas filosóficas, porque não há uma só, sem excetuar o Cristianismo, que tenha congregado tantos partidários em tão poucos anos. Isto é um fato notório, que confunde os próprios antagonistas. E o que não é menos característico, é que essa propagação, em vez de fazer-se num centro único, opera-se simultaneamente em toda a superfície do globo e em milhares de centros. Disso resulta que os adeptos, a despeito de serem muito numerosos, ainda não formam uma aglomeração compacta.
Essa dispersão, que à primeira vista parece uma causa de fraqueza, é, ao contrário, um elemento de força. Cem mil espíritas disseminados numa região fazem mais pela propagação da idéia do que se estivessem amontoados numa cidade. Cada individualidade é um foco de ação, um germe que produz rebento; por sua vez, cada rebento produz mais ou menos e os ramos se reúnem pouco a pouco e cobrem a região mais prontamente do que se a ação partisse de um ponto único; é absolutamente como se um punhado de grãos fosse lançado ao vento, em vez de serem postos todos juntos no mesmo buraco. Além disso, por esta quantidade de pequenos centros a doutrina é menos vulnerável do que se tivesse um só, contra o qual seus inimigos poderiam assestar todas as suas forças. Um exército primitivamente compacto, dispersado pela força ou por outra causa qualquer, é um exército perdido. Aqui o caso é completamente diferente: a disseminação dos espíritas não é um caso de dispersão, mas um estado primitivo tendendo à concentração, para formar uma vasta unidade. A primeira está no fim; a segunda no seu nascimento.
Àqueles, pois, que se queixam do seu isolamento numa localidade, respondemos: Ao contrário, agradecei ao céu por vos haver escolhido como pioneiros da obra em vossa região. Cabe a vós lançar as primeiras sementes; talvez não germinem imediatamente; talvez não recolhereis os frutos; talvez mesmo tenhais de sofrer em vosso labor, mas pensai que não se prepara uma terra sem trabalho e ficai certos de que, mais cedo ou mais tarde, o que tiverdes semeado frutificará. Quanto mais ingrata a tarefa, mais mérito tereis, ainda que somente abrísseis caminho aos que vierem depois de vós.
Certamente, se os espíritas devessem ficar sempre no estado de isolamento, seria uma causa permanente de fraqueza; mas a experiência prova a que ponto a doutrina é vivaz e sabe-se que por um ramo abatido há dez que renascem. Sua generalização, pois, é uma questão de tempo. Ora, por mais rápida que seja a sua marcha, ainda é preciso tempo suficiente e, enquanto se trabalha a obra, é preciso saber esperar que o fruto esteja maduro antes de o colher.
Esta disseminação momentânea dos espíritas, essencialmente favorável à propagação da doutrina, é um obstáculo à execução de obras coletivas de certa importância, pela dificuldade, se não mesmo pela impossibilidade, de reunir num mesmo ponto elementos suficientemente numerosos.
Dirão que é precisamente para remediar esse inconveniente, para apertar os laços de confraternidade entre os membros isolados da grande família espírita, que se propôs a criação de uma caixa central de socorro. Na verdade é um pensamento grande e generoso, que seduz à primeira vista; mas já se refletiu nas dificuldades de execução?
Uma primeira questão se apresenta. Até onde se estenderia a ação dessa caixa? Limitar-se-ia à França, ou compreenderia os outros países? Há espíritas em todo o globo. Não são nossos irmãos os de todos os países, de todas as castas e de todos os cultos? Se, pois, a caixa recebesse contribuições de espíritas estrangeiros, o que aconteceria infalivelmente, teria o direito de limitar sua assistência a uma única nacionalidade?