Capítulo 13
Não sou teu juiz, sou teu amigo da eternidade. Não terei o consolo de ouvir-te? A enferma desejava falar; entretanto, os suaves raios de luz, emitidos por Márcio, cercavam-na toda, sufocando-lhe a garganta, no êxtase daqueles instantes inesquecíveis. Ele, porém, desejando evidentemente proporcionar-lhe oportunidade a mais amplo desabafo, levantou-a, cuidadoso, e insistiu: — Fala!… Animada, Antonina balbuciou, tímida: — Estou exausta… — Contudo, jamais foste esquecida. Recebeste mil recursos diversos da Providência, indispensáveis ao valioso serviço de redenção. O corpo terreno, as bênçãos do Sol, as oportunidades de trabalho, as maravilhas da Natureza, os laços afetivos e as próprias dores da experiência humana não serão inestimáveis dons do Divino Suprimento? Ignoras, querida, a felicidade do sacrifício, renegas a possibilidade de amar? Foi então que vi a jovem mulher contemplá-lo mais confiadamente. Sentindo-se forte, ante a insofismável demonstração de carinho, abriu-se com franqueza fraternal: — Tenho sonhado com a posse de um lar…, desejo viver para um homem que, a seu turno, me auxilie a levar a existência…, idealizo receber de Deus alguns filhinhos que eu possa acariciar! Será pecado, celeste mensageiro, anelar tais coisas? Será delinquente a mulher que busca santificar os princípios naturais da vida? Depois de mourejar anos a fio pela felicidade dos que me são caros, noto que o destino escarnece de minhas esperanças. Será virtude viver entre pessoas alegres e felizes, quando nosso coração queda morto? Márcio ouviu-a fraternalmente, afagando-lhe as mãos, e, evidenciando suas altas aquisições de verdadeiro amor, acrescentou, mais compreensivo e mais terno: — “Abnegada amiga, não permitas que a sombra de algumas horas te empane a luz dos séculos porvindouros. É possível, Antonina, que te sintas tão lamentavelmente só, quando o Supremo Senhor te concedeu o sublime lar do mundo inteiro? A Humanidade é nossa família, os filhinhos da dor nos pertencem. Reconheço que transitórias humilhações do sentimento te laceram a alma, que desejarias arrimar-te ao carinhoso braço de um companheiro digno e fiel. No entanto, querida, é da Vontade Superior que recebas, por enquanto, as vantagens que podem ser encontradas na solidão. Se há períodos de florescimento nos vales humanos, dentro dos quais nos inebriamos em plena primavera da Natureza, existências se verificam, aparentemente isoladas e desditosas, nas culminâncias da meditação e da renúncia, a cuja luz nos preparamos para novas jornadas santificadoras. “Não suponhas que a fatal passagem do sepulcro nos abra portas à liberdade: segue-nos a Lei, a toda parte, e o Supremo Senhor, se exerce a infinita compaixão, não despreza a justiça inquebrantável. Dá-nos, invariavelmente, a Eterna Sabedoria o lugar onde possamos ser mais úteis e mais felizes. “Declaras-te deserdada e infeliz, e, no entanto, ainda não recenseaste as possibilidades sublimes que te rodeiam. Dizes-te incapacitada de abraçar os pequeninos de Deus, mas, porque tamanho exclusivismo para os rebentos consanguíneos? Não enxergaste, até hoje, as crianças abandonadas, nunca viste os filhinhos da miséria e da privação? Se não podes ser mãe de flores da própria carne, por que motivo não te fazes tutora espiritual dos pequenos necessitados e sofredores? Acreditas, Antonina, que possamos ser absolutamente felizes, escutando gemidos à nossa porta? Haverá perfeita alegria num coração que pulsa ao lado de um coro de lágrimas? O mundo não é propriedade nossa. Nós, os filhos do Altíssimo, é que fomos trazidos a cooperar nas obras que nos cercam. É verdadeira infelicidade acreditar-se alguém favorito dos Céus, como se o Pai Compassivo e Sábio não passasse de frágil e parcial ditador! Sacode a consciência adormecida… Lembra-te de que o Todo Poderoso não se adstringe ao nosso particularismo de criaturas falíveis, e não te esqueças de que nos pesam, perante a universalidade d’Ele, inalienáveis deveres de trabalho, exercitando os preciosos recursos que nos concedeu, a fim de alcançarmos, um dia, a perfeição da sabedoria e do amor. “Sofres em tua organização, que orientaste para o personalismo, porque um homem, cujo padrão psíquico se harmonizou com o teu em muitos aspectos, modificando depois seu rumo de vida, te relegou ao esquecimento. Choras, porquanto esperavas encontrar em sua companhia algo da Divina Presença, que traria serenidade às tuas angustiosas esperanças de mulher delicada e sensível… As inquietações do sexo tomaram vulto na intimidade do teu santuário, e padeces longo assédio de tribulações. Mas… dar-se-á que presumas no sexo a fonte exclusiva do amor? Serás também vítima desse fatal engano? O amor é sol divino a irradiar-se através de todas as magnificências da alma. “Por vezes, somos privados de sensações que ansiáramos, inibidos de usar as energias criadoras das formas físicas, a fim de buscarmos patrimônios mais altos do ser; nem por isso, contudo, tais percalços nos impedem a exteriorização do sublime sentimento; represar-lhe o curso redundaria em extinguir o Universo. O que tortura a mente humana, em tais ocasiões é o clima do cárcere organizado por nós mesmos; amurados no egoísmo feroz, não sabemos perder por alguns dias, para ganhar na eternidade, nem ceder valores transitórios, para conquistar os dons definitivos da vida.” Ante a moça que o contemplava, embevecida, através de espesso véu de lágrimas, o mensageiro prosseguiu: — “Efetivamente, se não podes partilhar a experiência do homem escolhido, em face das circunstâncias que te compelem à renúncia, porque não lhe consagrar o puro amor fraternal, que eleva sempre? Estaríamos, acaso, impedidos de transformar em irmãos os seres que admiramos? Não deves outrossim esquecer que o noivo perjuro, atualmente belo na figura fisiológica, vestirá também, mais tarde, o puído traje do cansaço e da velhice, se em breve não afivelar ao rosto a máscara da enfermidade e da morte. Conhecerá o desencanto da carne e estimará no silêncio a procura do espírito. Se o amas, em verdade, porque torturá-lo com o sarcasmo do suicídio, ao invés de cobrar forças para esperá-lo, ao fim do dia da existência mortal? Se não podes ser o cântaro de água pura para o viajor querido, porque não ser o oásis que o aguardará no deserto das desilusões inevitáveis? Além disto, como chegaste a sentir tão clamoroso desamparo, se também te aguardamos, ávidos aqui de tua afeição e de teu carinho?” Antonina sorriu, em êxtase, a despeito do pranto que lhe rolava a flux. Observando o salutar efeito de suas palavras animadoras, Márcio acariciou-lhe os cabelos, murmurando: — “Por que razão esperar os rebentos da carne para exemplificar o verdadeiro amor? Jesus não os teve, e, no entanto, todos nos sentimos tutelados de sua infinita abnegação. Prometes, Antonina, modificar as disposições mentais doravante? A mulher digna e generosa, excelsa e cristã, olvida o mal e ama sempre…” Comovidos, vimos a interlocutora ajoelhar-se de novo, e exclamar solenemente: — Comprometo-me a modificar minha atitude, em nome de Deus. Nesse instante, o emissário espalmou as mãos sobre a fronte da enferma, envolvendo-a em jactos de luz que não tocaram tão somente a matéria perispirítica, mas se estenderam além, até no corpo denso, fixando-se particularmente nas zonas do encéfalo, do tórax e dos órgãos feminis. Logo após, Antonina, empolgada pela mãezinha e pelo companheiro da Espiritualidade superior, afastou-se para agradável e repousante excursão. Incumbiu-se Calderaro de auxiliá-la a retomar o veículo pesado nas primeiras horas da manhã clara. Edificado com as observações da noite, regressei, em companhia dele, ao quarto da senhorita quase suicida. Entre as seis e sete horas, a genitora desencarnada trouxe a filha, em cuja fisionomia fulgurava ignota e incompreensível felicidade. O instrutor ajudou-a reapossar-se do envoltório fisiológico, cercando-lhe o cérebro de emanações fluídicas anestesiantes, para que lhe não fosse permitido o júbilo de recordar, em todas as suas particularidades, a experiência da noite; se guardasse a lembrança integral, disse Calderaro, provavelmente enlouqueceria de ventura. Destarte, as alegrias por ela intensamente vividas seriam arquivadas em seu organismo sob forma de forças novas, estímulos desconhecidos, coragem e satisfação de procedência ignorada. Com efeito, daí a minutos Antonina despertou, como que outra criatura; sentia-se inexplicavelmente reanimada, quase feliz. Um dos pequenos sobrinhos penetrou o aposento, chamando-a. A generosa tia contemplou-o, enlevada. Alguma energia prodigiosa, que lhe não era dado conhecer, religara-a ao interesse pela vida. Achou indizível contentamento no Sol que atravessava a vidraça, bendizia o quarto humilde onde lutava por atender aos desígnios de Deus, e sorria-se de haver, na véspera, pensado em fugir, sem razão, ao aprendizado do mundo. Não fora aquinhoada pela Providência com maravilhoso número de bênçãos? Contemplou a encantadora criança pobremente vestida, a solicitar-lhe a companhia para descerem ao pequeno jardim, onde flores novas desabrochavam. Que importava insignificante malogro do coração diante dos trabalhos sublimes que poderia executar, na sua posição de mulher culta e jovem? Os filhinhos da irmã não lhe pertenciam igualmente? Não seria mais nobre viver para ser útil, esperando sempre na Inesgotável Misericórdia? — Titia Antonina! Titia Antonina, vamos! Vamos ver a roseira nova!
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Nome do Capítulo Psicose afetiva