O autor teria feito uma obra incompleta se tivesse negligenciado o lado moral da questão. Seu objetivo não é excitar a curiosidade com fatos extraordinários, mas lhes deduzir as conseqüências úteis e práticas. Entre outros, um episódio prova que ele compreendeu perfeitamente esta parte de seu programa.
A jovem vidente descobre num subterrâneo importantes papéis, que devem pôr termo a um grave processo de família. Descreve os lugares e as circunstâncias com minúcias. As escavações, feitas conforme suas indicações, provam que viu muito bem. Encontram os papéis e o processo é anulado. Notemos de passagem que ela fez essa descoberta espontaneamente, atraída pelo interesse que liga à família e não por solicitações. O título principal consistia de uma carta em estilo antigo, da qual faz a leitura textual e completa com tanta facilidade quanto se a tivesse sob os olhos. É aí, sobretudo, que sua faculdade nos parece um pouco exagerada.
Mais adiante ela vê outro subterrâneo, onde estão imensos tesouros, cuja origem explica. Para lá chegar é preciso atravessar outro jazigo, cheio de restos humanos, restos mortais de numerosas vítimas dos tempos do feudalismo. Até aí, nada que não seja provável; o que não o é absolutamente, é que as almas dessas vítimas aí tenham ficado encerradas há séculos e possam erguer-se ameaçadoras ante os que viessem perturbar seu sombrio repouso, à busca de um tesouro; aí está o fantástico. Se fossem os carrascos, nada de surpreendente. Sabemos, por numerosos exemplos, que tal é, muitas vezes, o castigo temporário dos culpados condenados a ficar no mesmo lugar e em presença de seus crimes, até que, tocados pelo arrependimento, elevem o pensamento a Deus, para implorar sua misericórdia. Mas aqui são as vítimas inocentes que seriam punidas, o que não é racional.
O proprietário do castelo, velho avarento, atraído pela descoberta dos papéis, quer continuar as escavações. Elas são difíceis, perigosas para os operários, mas nada o detém. Em vão a vidente lhe suplica que renuncie; prediz que, se persistir, sobrevirá desgraça. Aliás, acrescenta ela, não o conseguireis. – Então esses tesouros não existem? diz o avarento. – Existem tais quais os descrevi, garanto; mas, ainda uma vez, lá não chegareis. – E quem mo impedirá? – As almas que estão no jazigo que é preciso atravessar.
O velho avarento, céptico endurecido, admitia perfeitamente a vista extracorpórea da moça, mesmo sem compreender bem, porque acabava de ter uma prova à sua custa: a dos papéis encontrados, embora não correspondessem às suas pretensões no processo; mas acreditava mais no dinheiro que nas forças invisíveis. E continua: Com que direito se oporão? Esses tesouros me pertencem, já que estão em minha propriedade. – Não; um dia serão facilmente descobertos por quem deve desfrutá-los; mas não é a vós que estão destinados. Por isso não o conseguireis. Repito: se persistirdes, sobrevirá uma desgraça.
Eis o lado essencialmente moral, instrutivo e verdadeiro do relato. Essas palavras parecem tomadas de O Livro dos Médiuns, no artigo sobre o concurso dos Espíritos para a descoberta dos tesouros: “Se a Providência destina tesouros ocultos a alguém, esse os achará naturalmente; de outra forma, não.”
(Capítulo XXVI, no 295.) Com efeito, não há exemplo de que Espíritos ou sonâmbulos tenham facilitado tais descobertas, assim como a recuperação de heranças, e todos os que, embalados por esta esperança, fizeram semelhantes tentativas, perderam tempo e dinheiro. Tristes e cruéis decepções aguardam os que firmam a esperança de enriquecimento por semelhantes meios. Não é missão dos Espíritos favorecer a cupidez e nos proporcionar riqueza sem trabalho, o que não seria justo nem moral. Sem dúvida o sonâmbulo lúcido vê, mas o que lhe é permitido ver, e os Espíritos podem, conforme as circunstâncias e por ordem superior, obliterar a sua lucidez, ou interpor obstáculos à realização das coisas que não estão nos desígnios da Providência. No caso de que se trata, foi permitido encontrar os papéis, que deviam pôr um termo às dissensões de família, e não para achar tesouros, que só serviriam para a satisfação da cupidez. Eis por que o velho avarento pereceu, vítima de sua obstinação.
As terríveis peripécias do drama imaginado pelo Sr. Élie Berthet não são tão fantásticas quanto se poderia imaginar.
Lembram as mais reais, sofridas pelo Sr. Borreau, de Niort, em pesquisas da mesma natureza, e cujo emocionante relato se acha em sua brochura, intitulada: Como e por que me tornei espírita. (Vide nosso relato na Revista de dezembro de 1864.)
Uma outra instrução, não menos importante, ressalta do livro do Sr. Élie Berthet. A moça viu coisas positivas, e em outra circunstância grave engana-se, atribuindo um crime a uma pessoa inocente. Que conseqüência daí tira o autor? É a negação da faculdade? Não, pois que, ao lado disto, ele a prova e chega a esta conclusão, justificada pela experiência: a mais comprovada lucidez não é infalível e nela não se poderia confiar de maneira absoluta, sem controle. A visão, pela alma, de coisas que o corpo não pode ver, prova a existência da alma; já é um resultado muito importante. Mas ela não é dada para a satisfação das paixões humanas.
Por que, então, a alma, em seu estado de emancipação, não vê sempre certo? É que, sendo o homem ainda imperfeito, sua alma não pode gozar das prerrogativas da perfeição. Conquanto isolada, ela participa das influências materiais, até sua completa depuração. Sendo assim com as almas desencarnadas ou Espíritos, com mais forte razão com as que ainda estão ligadas à vida corporal. Eis o que faz conhecer o Espiritismo aos que se dão ao trabalho de o estudar.