Biografia de Allan Kardec
“Abstendo-se das fórmulas abstratas da metafísica, o autor soube fazer-se ler sem fadiga, condição essencial para a vulgarização de uma idéia. Sobre todos os pontos de controvérsia, sua argumentação, de uma lógica firme, oferece pouco espaço à refutação e predispõe à convicção. As provas materiais que dá o Espiritismo da existência da alma e da vida futura tendem à destruição das idéias materialistas e panteístas. Um dos princípios mais fecundos dessa doutrina, e que decorre do precedente, é o da pluralidade das existências, já entrevisto por uma multidão de filósofos antigos e modernos, e nos últimos tempos por Jean Reynaud, Charles Fourier, Eugène Sue e outros; mas permanecia em estado de hipótese e desistema, enquanto que o Espiritismo demonstra-lhe a realidade e prova que é um dos atributos essenciais da humanidade. Desse princípio decorre a solução de todas as anomalias aparentes da vida humana, de todas as desigualdades intelectuais, morais e sociais; o homem sabe, desse modo, de onde vem, para onde vai, para que fim está na Terra e por que aí sofre.” “As idéias inatas explicam-se pelos conhecimentos adquiridos nas vidas anteriores; a marcha dos povos e da humanidade, pelos homens de antigamente que revivem depois de ter progredido; as simpatias e antipatias, pela natureza das relações anteriores; essas relações, que religam a grande família humana de todas as épocas, têm como base as mesmas leis da Natureza, e não mais uma teoria, os grandes princípios de fraternidade, de igualdade, de liberdade e de solidariedade universal.” “Ao invés do princípio: Fora da Igreja não há salvação, que mantém a divisão e a animosidade entre as diferentes seitas, e que fez derramar tanto sangue, o Espiritismo tem como máxima: Fora da Caridade não há salvação, quer dizer, a igualdade entre os homens diante de Deus, a tolerância, a liberdade de consciência e a indulgência mútua.” “Ao invés da fé cega que aniquila a liberdade de pensar, ele diz: “Não há fé inabalável senão a que pode encarar face a face a razão em todas as épocas da humanidade. A fé necessita de uma base, e essa base, é a inteligência perfeita daquilo em que se deve crer, para crer não basta ver, é preciso sobretudo compreender. A fé cega não é mais deste século; ora, é precisamente o dogma da fé cega que hoje faz o maior número de incrédulos, porque ela quer se impor e porque exige a abdicação de uma das mais preciosas faculdades do homem: o raciocínio e o livre-arbítrio.”(71) (O Evangelho Segundo o Espiritismo.) Trabalhador infatigável, sempre o primeiro a chegar e o último a sair, Allan Kardec sucumbiu, no dia 31 de março de 1869, em meio aos preparativos de uma mudança de local, necessitada pela extensão considerável de suas múltiplas ocupações. Numerosas obras que estava quase terminando, ou que aguardavam o tempo oportuno para surgir, virão um dia provar, ainda mais, a extensão e o poder de suas concepções. Morreu como viveu, trabalhando. Desde muitos anos, sofria de uma enfermidade do coração que só podia ser combatida através do repouso intelectual e uma certa atividade material; mas sempre inteiramente dedicado à sua obra, recusava-se a tudo o que pudesse absorver um de seus instantes, em detrimento de suas ocupações preferidas. Nele, como em todas as almas fortemente temperadas, a lâmina desgastou a capa. Seu corpo pesava e recusava-lhe seus serviços, mas seu espírito, mais vivo, mais enérgico, mais fecundo, estendia sempre muito mais o círculo de sua atividade. Nessa luta desigual, a matéria não podia resistir eternamente. Um dia, ela foi vencida; o aneurisma rompeu-se, e Allan Kardec caiu fulminado. Faltava um homem na Terra; porém um grande nome tomava o lugar entre as ilustrações deste século, um grande espírito iria se retemperar no infinito, onde todos aqueles que ele havia consolado e esclarecido aguardavam, impacientemente, sua vinda! “A morte, dizia ele recentemente ainda, a morte golpeia redobrado nas classes ilustres!... A quem ela virá agora libertar?” Ele veio, depois de tantos outros, retemperar-se no espaço, procurar novos elementos para renovar seu organismo desgastado por uma vida de labores incessantes. Partiu com aqueles que serão os faróis da nova geração, para retornar em breve com eles para continuar e terminar a obra deixada entre mãos devotadas. O homem não existe mais, porém, a alma permanecerá entre nós; é um protetor seguro, uma luz a mais, um trabalhador infatigável a que se acrescentaram as falanges do Espaço. Como na Terra, sem ferir ninguém, saberá fazer ouvir a cada um os conselhos convenientes; temperará o zelo prematuro dos ardentes, secundará os sinceros e os desinteressados, e estimulará os mornos. Ele vê, ele sabe hoje de tudo que havia previsto recentemente ainda! Não há mais razão nem para as incertezas, nem para os desfalecimentos, e ele nos fará repartir sua convicção, fazendo-nos tocar com o dedo o objetivo, designando-nos o caminho, nessa linguagem clara, precisa, que o caracteriza nos anais literários. O homem não existe mais, repetimos, mas Allan Kardec é imortal, e sua lembrança, seus trabalhos, seu espírito estarão sempre com aqueles que mantiverem firmemente e altamente a bandeira que ele sempre soube fazer respeitar. Uma individualidade poderosa constituiu a obra; era o guia e a luz de todos. A obra, na Terra, tomará o lugar do indivíduo. Não nos reuniremos em torno de Allan Kardec; reunir-nos-emos em torno do Espiritismo, tal como o constituiu, e através de seus conselhos, sob sua influência, avançaremos com passos seguros em direção às fases felizes prometidas à humanidade regenerada. (Revista Espírita, maio de 1869.)
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Tradutor Albertina Escudeiro Sêco
Editora CELD
Edição 1ª edição, 2008
ISBN 978-85-7297-421-9