Todas as grandes épocas de renovação viram aparecer messias encarregados de dar impulso ao movimento regenerador e o dirigir. Sendo a época atual uma das de maiores transformações da Humanidade, terá também os seus messias, que a presidem já como Espíritos, e terminarão sua missão como encarnados. Sua vinda não será marcada por nenhum prodígio, e Deus, para os tornar conhecidos, não perturbará a ordem das leis da Natureza.
Nenhum sinal extraordinário aparecerá no céu, nem na Terra, e não serão vistos descendo das nuvens, acompanhados por anjos.
Nascerão, viverão e morrerão como o comum dos homens, e sua morte não será anunciada ao mundo nem por terremotos, nem pelo obscurecimento do Sol; nenhum sinal exterior os distinguirá, assim como o Cristo, em vida, não se distinguia dos outros homens.
Nada, pois, os assinalará à atenção pública, a não ser a grandeza de suas obras, a sublimidade de suas virtudes, e a parte ativa e fecunda que tomarão na fundação da nova ordem de coisas. A antiguidade pagã deles fez deuses; a História os colocará no Panteão dos grandes homens, dos homens de gênio, mas, sobretudo, entre os homens de bem, cuja memória será honrada pela posteridade.
Tais serão os messias do Espiritismo; grandes homens entre os homens, grandes Espíritos entre os Espíritos, marcarão sua passagem por prodígios da inteligência e da virtude, que atestam a verdadeira superioridade, muito mais que a produção de efeitos materiais que qualquer um pode realizar. Este quadro um pouco prosaico talvez faça caírem algumas ilusões; mas é assim que as coisas se passarão, muito naturalmente, e os seus resultados não serão menos importantes por não serem rodeados das formas ideais e um tanto maravilhosas, com que certas imaginações se comprazem em os cercar.
Dissemos os messias porque, com efeito, as previsões dos Espíritos anunciam que haverá vários, o que nada tem de admirável, segundo o sentido ligado a essa palavra, e em razão da grandeza da tarefa, pois que se trata, não do adiantamento de um povo ou de uma raça, mas da regeneração da Humanidade inteira.
Quantos serão? Uns dizem três, outros mais, outros menos, o que prova que a coisa está nos segredos de Deus. Um deles terá supremacia? É ainda o que pouco importa, o que até seria perigoso saber antecipadamente.
A vinda do Messias, como fato geral, está anunciada, porque era útil que dela se estivesse prevenido; é uma garantia do futuro e um motivo de tranqüilidade, mas as individualidades não devem revelar-se senão por seus atos. Se alguém deve abrigar a infância de um deles, o fará inconscientemente, como para o primeiro vindo; assisti-lo-á e o protegerá por pura caridade, sem a isto ser solicitado por um sentimento de orgulho, do qual talvez não pudesse defender-se, que mau grado seu resvalaria para o coração e lhe faria perder o fruto de sua ação. Seu devotamento talvez não fosse tão desinteressado moralmente quanto ele próprio o imaginasse.
Além disso, a segurança do predestinado exige que ele seja coberto por um véu impenetrável, porque ele terá seus Herodes. Ora, um segredo só é bem guardado quando ninguém o conhece. Portanto, ninguém deve conhecer sua família, nem o lugar de seu nascimento, e os próprios Espíritos vulgares não sabem.
Nenhum anjo virá anunciar sua vinda à sua mãe, porque esta não deve fazer diferença entre ele e os outros filhos; magos não virão adorá-lo em seu berço e lhe oferecer ouro e incenso, porque ele não deve ser saudado senão quando tiver dado suas provas. Será protegido pelos invisíveis, encarregados de velar por ele, e conduzido à porta onde deverá bater, e o dono da casa não reconhecerá aquele que receberá em seu lar.
Falando do novo Messias, disse Jesus: “Se alguém vos disser: o Cristo está aqui, ou está ali, não vades lá, porque lá não estará.” Deve-se, pois, desconfiar das falsas indicações que têm por fim ludibriar, com vistas a fazer procurá-lo onde ele não está. Uma vez que não é permitido aos Espíritos revelar o que deve ficar secreto, toda comunicação circunstanciada sobre este ponto deve ser tida por suspeita, ou como uma provação para quem a recebe.
Pouco importa, pois, o número dos messias; só Deus sabe o que é necessário. Mas o que é indubitável é que ao lado dos messias propriamente ditos, Espíritos superiores, em número ilimitado, encarnar-se-ão, ou já estão encarnados, com missões especiais, para os secundar. Surgirão em todas as classes, em todas as posições sociais, em todas as seitas e em todos os povos. Havê-los-á nas ciências, nas artes, na literatura, na política, nos chefes de estado, enfim por toda parte onde sua influência possa ser útil à difusão das idéias novas e às reformas que serão a sua conseqüência. A autoridade de sua palavra será maior ainda, porque fundada na estima e na consideração de que serão cercados.
Mas, interrogarão, nessa multidão de missionários de todas as categorias, como distinguir os messias? Que importa se os distinguirmos ou não? Eles não vêm à Terra para aí se fazerem adorar, nem para receber as homenagens dos homens. Não trarão, pois, nenhum sinal na fronte; mas, assim como pela obra se reconhece o artífice, dirão após a sua partida: Aquele que fez a maior quota de bem deve ser o maior.
Sendo o Espiritismo o principal elemento regenerador, importava que o instrumento estivesse pronto, quando vierem os que dele devem servir-se. É o trabalho que se realiza neste momento, e que os precede de pouco; mas, antes, é preciso que a grade tenha passado na terra para purgá-la das ervas parasitas que abafariam o bom grão.
É sobretudo o século vinte que verá florescerem os grandes apóstolos do Espiritismo, e que poderá ser chamado o século dos messias. Então a antiga geração terá desaparecido e a nova estará em toda a sua pujança; a Humanidade, livre de suas convulsões e formada de elementos novos ou regenerados, entrará definitivamente e pacificamente na fase do progresso moral, que deve elevar a Terra na hierarquia dos mundos.