Este fundamento desafia o tempo e a Ciência, porque o tempo e a Ciência virão sancioná-la. A tese do Sr. Guizot leva diretamente à conclusão de que, num tempo dado, não haverá mais religião possível, nem mesmo a cristã, se se demonstrar como natural o que é tomado como sobrenatural. Foi isto que ele quis provar? Não; mas é a conseqüência de seu argumento e para ela marchamos a largos passos. Porque, por mais que se faça, por mais que se amontoem raciocínios, não se chegará a manter a crença que um fato é sobrenatural, quando ficou provado que não o é.
Sob esse aspecto somos muito menos cépticos que o Sr. Guizot e dizemos que Deus não é menos digno de nossa admiração, do nosso reconhecimento e do nosso respeito por não haver derrogado suas leis, grandes, sobretudo, por sua imutabilidade, e que não há necessidade do sobrenatural para lhe render o culto que lhe é devido e, conseguintemente, por ter uma religião que encontrará tanto menos incrédulos quanto mais for, em todos os pontos, sancionada pela razão. Em nosso modo de ver, nada tem o Cristianismo a perder com esta sanção; ele não pode senão lucrar. Se, na opinião de muitos, algo o prejudicou, foi precisamente o abuso do maravilhoso e do sobrenatural. Fazei vejam os homens a grandeza e o poder de Deus em todas as suas obras; mostrai a eles a sua sabedoria e a sua admirável previdência, desde a germinação da plantinha até o mecanismo do Universo: maravilhas não faltarão. Substituí em seu espírito a idéia de um Deus ciumento, colérico, vingativo e implacável, pela de um Deus soberanamente justo, bom e misericordioso, que não condena a suplícios eternos e sem esperanças por faltas temporárias; que, desde a infância, seja nutrido por essas idéias, que crescerão com a razão, e os fareis crentes mais firmes e sinceros do que se os embalásseis com alegorias, impostas ao pé da letra e que, mais tarde repelidas, conduzi-lo-iam a duvidar de tudo, e mesmo à negação total. Se quiserdes manter a religião pelo só prestígio do maravilhoso, não haverá senão um meio: manter os homens na ignorância. Vede se isso é possível. À força de mostrar a ação de Deus somente nos prodígios e nas exceções, deixamos de mostrá-la nas maravilhas que espezinhamos.
Certamente objetarão com o nascimento miraculoso do Cristo, que não poderia ser explicado pelas leis naturais, e que é uma das provas mais retumbantes de seu caráter divino. Não cabe aqui examinar esta questão. Mas, ainda uma vez, não contestamos a Deus o poder de derrogar suas leis. O que questionamos é a necessidade absoluta dessa derrogação para o estabelecimento de uma religião qualquer.
Dirão que o magnetismo e o Espiritismo, reproduzindo fenômenos tidos por miraculosos, são contrários à religião atual, porque tendem a retirar desses fatos o seu caráter sobrenatural.
Mas, que fazer, se os fatos são reais? Não os impedirão, visto que tais fatos não constituem privilégio de um homem, mas se repetem no mundo inteiro. Outro tanto se poderia dizer da Física, da Química, da Astronomia, da Geologia, da Meteorologia; numa palavra, de todas as ciências. A tal respeito diremos que o cepticismo de muita gente não tem outra fonte senão a impossibilidade, para eles, desses fatos excepcionais. Negando a base sobre a qual se apóiam negam tudo o mais. Provai-lhes a possibilidade e a realidade desses fatos; reproduzi-os aos seus olhos e eles serão forçados a acreditar. – Mas isto é tirar do Cristo o seu caráter divino! – Então preferis que eles não creiam em coisa alguma a acreditar nalguma coisa? Então só haverá esse meio para provar a divindade da missão do Cristo? Seu caráter não se destaca cem vezes melhor da sublimidade de sua doutrina e do exemplo que deu de suas virtudes? Se não vêem esse caráter senão nos atos materiais que ele realizou, outros não os fizeram semelhantes, como Apolônio de Tiana, seu contemporâneo? Por que, então, o Cristo o superou? Porque fez um milagre muito maior do que transformar a água em vinho, do que alimentar quatro mil homens com cinco pães, curar epilépticos, devolver a vista aos cegos e fazer andar os paralíticos. Esse milagre é o de ter mudado a face do mundo; é a revolução operada pela simples palavra de um homem saído do estábulo, durante três anos de pregação, sem nada haver escrito, auxiliado apenas por alguns pescadores obscuros e ignorantes. Eis o verdadeiro prodígio, aquele em que precisamos estar cegos para não ver a mão de Deus. Que os homens se persuadam desta verdade, pois é a melhor maneira de os converter em crentes definitivos.
Poesias de Além-Túmulo