Fixei as particularidades com atenção. Ao receberem a emissão de forças do trabalhador do bem, um cavalheiro recordou comovente paisagem de hospital; outro rememorou o exemplo de uma enfermeira bondosa que com ele travara relações; outro abrigou pensamentos de simpatia para com os doentes desamparados; duas senhoras se lembraram da caridosa missão de Vicente de Paulo; a uma velhinha acudiu a ideia de visitar algumas pessoas acamadas que lhe eram queridas; um jovem reportou-se, em silêncio, a notáveis páginas que lera sobre piedade fraternal para com todos os semelhantes afastados do equilíbrio físico. Examinei também as três pessoas que se mantinham impermeáveis ao serviço benemérito daquela hora. Duas delas contristavam-se por haver perdido uma sessão cinematográfica, e a outra, uma senhora na idade provecta, retinha a mente na lembrança das ocupações domésticas, que supunha imperiosas e inadiáveis, mesmo ali, num círculo de oração, onde devera beneficiar-se com a paz. Somente Eulália recebia o apelo do comunicante com mais nitidez. Sentia-o ao seu lado: envolvia-se em seus pensamentos; possuía-se, não só de receptividade, mas também de boa disposição para servi-lo. Decorridos alguns minutos de expectativa e de preparo silencioso, a mão da médium, orientada pelo médico e movida em cooperação com os estímulos psicofísicos da intermediária, começou a escrever, em caracteres irregulares, denunciando o natural conflito de “dois cosmos psíquicos” diferentes, mas empenhados num só objetivo — a produção de uma obra elevada. Acompanhei a cena com interesse. Mais alguns momentos, e fazia-se a leitura do pequeno texto obtido. O comunicado era vazado em forma singela, como um apelo fraternal. “Meus irmãos, — escrevera o emissário, — que Deus nos abençoe. “Identificados na construção do bem, trabalhemos na assistência aos enfermos, necessitados de nosso concurso entre os longos sofrimentos da provação terrestre. O serviço pertence à boa vontade unida à fé viva. E a sementeira reclama trabalhadores abnegados, que ignorem cansaço, tristeza e desânimo. “Sigamos para a frente. “Cada pequenina demonstração de esforço próprio, nas realizações da caridade, receberá do Senhor a Divina Bênção. “Aprendamos, pois, a socorrer nossos amigos doentes. Através de espessa noite de dor, sofrem e choram, muita vez em pleno abandono. “Não vos magoará a contemplação de tal quadro? Lembremo-nos d’Aquele Divino Médico que passou, no mundo, fazendo o bem. D’Ele receberemos a força necessária para progredir. Estará conosco na grande jornada de comiseração pelos que padecem. “Fiamos em vós, em vossa dedicação à causa da bondade evangélica.. “A estrada será talvez difícil e fragosa; entretanto, o Senhor permanecerá conosco. “Prossigamos, intimoratos, e que Ele nos abençoe agora e sempre.” O comunicante assinou o nome, e, daí a alguns minutos, encerravam-se os serviços espirituais da noite. O presidente da sessão, seguido pelos demais companheiros, iniciou o estudo e debate da mensagem. Concordou-se em que era edificante na essência, mas não apresentava índices concludentes da identificação individual; não procedia, possivelmente, do conhecido profissional que a subscrevera; faltavam-lhe os característicos especiais, pois um médico usaria nomenclatura adequada, e se afastaria da craveira comum. E a tese animista apareceu como tábua de salvação para todos. Transferiu-se a conversação para complicadas referências ao mundo europeu; falou-se extensamente de Richet e do metapsiquismo internacional; Pierre Janet, Charcot, De Rochas e Aksakof eram a cada passo trazidos à balha. O comunicante, em nosso Plano de ação, dirigiu-se, desapontado, ao meu orientador e comentou:
— Ora essa! Jamais desejei despertar semelhante polêmica doméstica. Pretendemos algo diferente. Bastar-nos-ia um pouco de amor pelos enfermos, nada mais. Calderaro sorriu, sem dizer palavra, e evidenciando preocupação em objetivo mais importante, acercou-se de Eulália, entristecida. A médium ouvia as definições preciosas com irrefreável amargura. Turvara-se-lhe a mente, agora, empanada por densos véus de dúvida. A argumentação em curso nublava-lhe o entendimento. Marejavam-se-lhe os olhos de lágrimas, que não chegavam a cair. Abeirando-se dela, o instrutor falou-me, bondoso:
— Nossos amigos encarnados nem sempre examinam as situações pelo prisma da justiça real. Eulália é colaboradora preciosa e sincera. Se ainda não completou as aquisições culturais no campo científico, é suficientemente rica de amor para contribuir à sementeira de luz. Encontra-se, porém, desabrigada, entre os companheiros invigilantes. Permanece sozinha e, assediada como está, é suscetível de abater-se. Auxiliemo-la sem detença. A destra do Assistente espalmada sobre a cabeça de nossa respeitável irmã expedia brilhantes raios, que lhe desciam do encéfalo ao tórax, qual fluxo renovador. A médium, que antes parecia torturada, sopitando a custo a natural reação às opiniões que ouvia, voltou à serenidade. Caiu-lhe a máscara de descontentamento, dissipou-se-lhe a tristeza destrutiva; os centros perispiríticos tornaram à normalidade; a epífise irradiou branda luz. As nuvens de mágoa, que se lhe esboçavam na mente, esfumaram-se como por encanto. Em suma, amparada pela atuação direta do meu orientador, Eulália sabia dos percalços do trabalho e mergulhava-se gradativamente no ameno clima da compreensão. Restabelecendo-lhe a tranquilidade, o instrutor, em seguida, conservou as mãos apoiadas aos lobos frontais, agindo-lhe sobre as fibras inibidoras. Observei, então, nova mudança. A mente da médium, como que se introvertia, desinteressando-se da conversação em torno e ficando mais atenta ao nosso campo de ação. O contato benéfico do Assistente cortava-lhe, de modo imperceptível para ela, o interesse pelas referências sem proveito, convocando-a a mais íntimo intercâmbio conosco. Com ternura paternal, Calderaro, conservando as mãos na mesma postura, inclinou-se-lhe aos ouvidos e falou carinhosamente:
— “Eulália, não desanimes! A fé representa a força que sustenta o Espírito na vanguarda do combate pela vitória da luz divina e do amor universal. Nossos amigos não te acusam, nem te ferem: tão somente dormem na ilusão e sonham, apartados da verdade; exculpa-os pelas futilidades do momento. Mais tarde eles despertarão para o esforço de espalhar-se o bem… Investigam com os olhos a superfície das coisas, mas seus ouvidos ainda não escutaram o sublime apelo à redenção. Sigamos para a frente. Estaremos contigo na tarefa diária. É necessário amar e perdoar sempre, esquecendo o dia obscuro, a fim de alcançar os milênios luminosos. Não desfaleças! O Eterno Pai te abençoará.” Reparei que Eulália não registava aquelas palavras com os tímpanos de carne. Encheram-se-lhe os lobos frontais de intensa luz. As frases comovedoras do instrutor represaram-se-lhe no cérebro e no coração, quais pensamentos sublimes que lhe caíam do Céu, saturados de calor reconfortante e bendito.
— Sim, — respondia, do fundo dalma, a devotada colaboradora, embora os lábios se lhe cerrassem no incompreendido silêncio, — trabalharia até ao fim, consciente de que o serviço da verdade pertence ao Senhor, e não aos homens. Olvidaria todos os golpes. Receberia as objeções dos outros, transformando-as em auxílios. Converteria as opiniões desanimadoras em motivos de energia nova. Dar-se-ia pressa em reconhecer os próprios defeitos, sempre que fossem indigitados pela franqueza de alguém, rendendo graças pela oportunidade de corrigi-los, quanto possível. Caminharia para a frente. Ser-lhe-ia a mediunidade um campo de trabalho, onde aperfeiçoaria os sentimentos que nutria, sem cogitar dos utensílios para servi-la: que lhe importavam, com efeito, as dificuldades psicográficas, se lhe pulsava um coração disposto a amar? Sim, ouviria as sugestões do bem, antes de tudo. Seria fiel a Deus e a si mesma. Se os companheiros humanos não a pudessem entender, não lhe restava o conforto de ser compreendida pelos amigos da vida espiritual? Ao termo da experiência terrestre, haveria suficiente luz para todos. Cumpria-lhe crer, trabalhar, amar e esperar no Divino Senhor. O Assistente retirou as mãos, deixando-a livre e, reaproximando-se de mim, asseverou:
— Nossa irmã foi auxiliada e está bem; louvado seja Deus! Observando os lobos frontais da médium, tão revestidos de luminosidade, fiz sentir a Calderaro minha admiração. O instrutor amigo, não se esquivando a novos esclarecimentos, informou:
— Eulália, neste instante, fixa-se mentalmente na região mais alta que lhe é possível. Recolhe-se, calma, no santuário mais íntimo, de modo a compreender e desculpar com proveito. Indicando a referida região cerebral, concluiu:
— Nos lobos frontais, André, exteriorização fisiológica de centros perispiríticos importantes, repousam milhões de células à espera, para funcionar, do esforço humano no setor da espiritualização. Nenhum homem, dentre os mais arrojados pensadores da Humanidade, desde o pretérito até os nossos dias, logrou jamais utilizá-las na décima parte. São forças de um campo virgem, que a alma conquistará, não somente em continuidade evolutiva, senão também a golpes de autoeducação, de aprimoramento moral e de elevação sublime; tal serviço, meu amigo, só a fé vigorosa e reveladora pode encetar, como indispensável lâmpada vanguardeira do progresso individual.