Capítulo 17
Alexandre não hesitou. — Há renunciações sublimes, em nosso Plano, — exclamou, sensibilizado, — dentro das quais companheiros existem que se sacrificam pelos outros, através de muitíssimos anos; mas, no processo sob nossa observação, a nossa amiga tem a sua percentagem de culpa. Na qualidade de mãe, ela quis forçar as tendências do filho jovem. Em verdade, ele renascera para uma tarefa elevada no campo da filosofia espiritualista; contudo, de modo algum se encontrava preparado para o posto de condutor das almas. A genitora, entretanto, obrigou-o a aceitar o ingresso no seminário, violentando-lhe o ideal e, indiretamente, colaborou para que o seu orgulho fosse demasiadamente acentuado. Interpretando suas tendências para a filosofia edificante, à conta de vocação sacerdotal, impôs-lhe o hábito dos Jesuítas, que ele deslustrou com a vaidade excessiva. Claro que a nossa irmã estava possuída das mais santas intenções; todavia, sente-se no dever de partilhar os sofrimentos do filho, sofrimentos, aliás, que ele mesmo ainda não chegou a experimentar em toda a extensão, em vista da crosta de insensibilidade com que a revolta lhe vestiu a alma desviada. Porque Alexandre fizesse uma pausa mais longa, interroguei: — Mas se o filho foi conduzido a situação difícil, para a qual não se encontrava convenientemente preparado, será tão grande a culpa dele? O instrutor sorriu, em vista das minhas reiteradas arguições, e esclareceu: — A genitora errou pela imprevidência, ele faliu pelos abusos criminosos, em oportunidade de serviço sagrado. Alguém pode abrir-nos a porta de um castelo, por excesso de carinho, mas, porque tenhamos obtido semelhante facilidade, não quer isto dizer isenção de culpa, caso venhamos a menosprezar a dádiva, destruindo os tesouros colocados sob nossos olhos. Por isso mesmo, a carinhosa mãe está efetuando a retificação amorosa de um erro, enquanto o filho infeliz expiará faltas graves. Essa explicação encerrou a palestra referente ao assunto. Na noite previamente marcada, acompanhei o pequeno grupo que procurou Marinho para o auxílio espiritual. Constituía-se a nossa reduzida expedição apenas de quatro entidades: Alexandre, a genitora desencarnada, um companheiro de trabalho e eu. Com grande surpresa, vim a saber que esse companheiro nosso, de nome Necésio, funcionaria na qualidade de intérprete, junto ao sacerdote infeliz. Necésio fora igualmente padre militante e mantinha-se em padrão vibratório acessível à percepção dos amigos de ordem inferior. Marinho não nos veria, segundo me informou Alexandre, mas enxergaria o ex-colega, entraria em contato com ele e receberia nossas sugestões por intermédio do novo colaborador. Admirando a sabedoria que preside a semelhantes trabalhos de cooperação fraternal, segui atenciosamente o grupo, que se dirigiu a uma igreja de construção antiga. Se estivesse ainda na carne, talvez o quadro sob meu olhar me despertasse terríveis sensações de pavor, mas, agora, a condição de desencarnado impunha-me a disciplina emotiva. Enchia-se o templo de figuras patibulares. Inúmeras entidades dos Planos inferiores congregavam-se ali, cultivando, além da morte, as mesmas ideias de menor esforço no campo da edificação religiosa. Alguns sacerdotes, envolvidos em vestes negras, permaneciam igualmente ao pé dos altares, enquanto um deles, que parecia exercer funções de chefia, comentava, de um púlpito, o poder da igreja exclusivista a que pertenciam, expondo com extrema sutileza novas teorias sobre o céu e a bem-aventurança. Assombrado, ouvi a palavra amiga de Alexandre, que me explicava, gentilmente: — Não estranhe. Os desesperados e preguiçosos também se reúnem, depois da transição da morte física, segundo as tendências que lhes são peculiares. Como acontece às congregações de criaturas rebeldes, na Crosta Planetária, os mais inteligentes e sagazes assumem a direção. Muitos males são praticados por estes infelizes, inconscientemente… — Oh! — Exclamei com espanto, — como podem entronizar a ignorância a este ponto? Quem poderia crer no quadro que observamos? Se são criaturas informadas quanto à verdade, por que motivo ainda se entregam à prática do mal? — Trata-se de ação maléfica inconsciente esclareceu o bondoso Alexandre. — Mas, — respondi, aturdido, — por que contrassenso as almas cientes da distância que as separa da carne não se rendem à lei do bem? O instrutor sorriu e obtemperou: — Entretanto, na própria Humanidade encarnada você encontrará idênticos fenômenos. Decorridos mais de mil anos sobre os ensinamentos do Cristo, com a visão ampla dos sacrifícios do Mestre e de seus continuadores, cientes da lição da Manjedoura e da Cruz, investidos na posse dos tesouros evangélicos, abalançaram-se os homens às chamadas guerras santas, exterminando-se uns aos outros, em nome de Jesus, instituíram tribunais da Inquisição, cheios de suplícios, onde pessoas de todas as condições sociais foram atormentadas, aos milhares, em nome da caridade de Nosso Senhor. Como você verifica, a ignorância é antiga e a simples mudança de indumentária que a morte física impõe não modifica o íntimo das almas. Não temos céus automáticos, temos realidades. Sem disfarçar meu assombro, voltei a indagar: — Mas, como vivem essas criaturas desventuradas? Obedecem a organizações que lhes sejam próprias? Possuem sistemas especiais? — A maioria aqui, — esclareceu o instrutor, — é constituída de entidades desencarnadas em situação de parasitismo. Pesam naturalmente na economia psíquica das pessoas às quais se reúnem e na atmosfera dos lares que as acolhem. Não creia, porém, na inexistência de organizações nas zonas inferiores. Elas existem e, em grande número, não obstante os ascendentes de orgulho e rebeldia que lhes inspiraram as fundações. Em semelhantes agrupamentos, dominam os gênios da perversidade deliberada. Aqui, sob nossos olhos, temos tão somente uma assembleia de almas sofredoras e desorientadas. Você não conhece ainda os antros do mal, em sua verdadeira significação. E, num gesto expressivo, acentuou: — Não vivemos em paz com esses focos de maldade organizada. Compete-nos lutar contra eles, até à vitória completa do bem. Mais uma vez, senti a extensão e a magnitude dos serviços que aguardam os leais servidores de Jesus, depois da morte do corpo físico. Escutava com interesse a engenhosa pregação do dirigente desencarnado, quando o novo cooperador que nos acompanhava fez-nos ligeiro sinal a alguma distância, interessado em não se imiscuir com a multidão, por causa da sua condição de visibilidade aos circunstantes, sinal esse a que Alexandre atendeu imediatamente, seguido pela genitora aflita, e por mim. O companheiro localizara Marinho e chamava-nos ao trabalho. Em recanto escuro de uma das velhas dependências do templo, mantinha-se a pobre entidade em meditação. A mãe carinhosa aproximou-se e afagou-lhe a fronte. Todavia, o filho infortunado, como acontece à maioria dos homens terrestres em face da influência das almas superiores, apenas sentiu uma vaga alegria no coração. Avistou, porém, o nosso novo amigo com o qual estabeleceu interessante diálogo. Logo após receber-lhe afetuosa saudação, perguntou Marinho, surpreso: — Foi também padre? — Sim, — respondeu Necésio, com simpatia. — Pertence aos submissos ou aos lutadores? — Interrogou Marinho, algo irônico, dando a entender que por submissos compreendia todos os colegas cultivadores da humildade evangélica, e por lutadores todos aqueles que, não encontrando a realidade espiritual, segundo as falsas promessas do culto exterior, se achavam entregues à faina ingrata de revolta e desesperação. — Pertenço ao grupo da boa vontade, — respondeu Necésio, com inteligência. Incapaz de perceber a nossa presença ao seu lado, Marinho fixou o nosso companheiro com sarcasmo e tristeza simultâneos e perguntou: — A que me procura? — Soube que você, meu amigo, — explicou-se o interlocutor, com emoção, — experimenta certas dificuldades íntimas, que também venho sofrendo. A dificuldade para conhecer o bem e o cansaço da permanência no mal, a necessidade de afeições e o tédio das companhias inferiores representaram para mim padecimentos enormes. Enquanto o sacerdote triste mudava de expressão fisionômica, Necésio continuava: — É bem amargo reconhecer a impossibilidade de vivermos sem esperança, conservando, ao mesmo tempo, o desencanto de viver. — Oh! Sim, é verdade! — Exclamou o interlocutor, comovido com a observação. — E porque não trabalharmos contra isto? — Mas, como? — Interrogou Marinho, com inflexão dolorosa, — prometeram-nos na Terra um céu aberto aos nossos títulos e a morte nos revelou situações francamente opostas. Não ministrávamos nós os sacramentos, não fomos revestidos do poder? Confiaram-nos dominações e impuseram-nos aqui humilhações angustiosas… Para quem apelar? Insubordinar-se agora é um dever. Notei que o nosso colaborador se prontificava a responder com argumentação sólida, de essência evangelizante, falando-lhe das vaidades terrestres e das interpretações arbitrárias do homem, no campo das leis divinas, mas antes que Necésio pudesse imprimir à conversação qualquer sinal de contenda, Alexandre advertiu-o, bondosamente: — Não discuta. O interpelado modificou a disposição e considerou, com afabilidade: — Sim, meu amigo, cada consciência tem suas lutas e problemas próprios. Não venho disputar a sua renovação compulsória. Incumbido por alguns amigos que se interessam pela sua felicidade, em Plano mais alto, venho convidá-lo para uma reunião.
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